Ricoré, a Gaiola Dourada e Pedro Abrunhosa

gaiola

Numa daquelas coincidências felizes, vi o filme “Gaiola Dourada” ao mesmo tempo que no iTunes ficava disponível o novo álbum de Pedro Abrunhosa.

Ao ouvir a fantástica “Para os Braços da Minha Mãe” (dueto entre Abrunhosa e Camané) e ao ver a “Gaiola Dourada” dei por mim a pensar nos milhões de portugueses que vivem e trabalham fora de Portugal.

Quando era miúdo, por força das férias de agosto passadas nas Termas do Peso (Melgaço), convivi com muitos deles. Mais tarde, graças à minha namorada (hoje minha mulher) passaram muitos deles a fazer parte da família. Já lá vão 25 anos.

“…é tão cinzenta a Alemanha / e a saudade tamanha…Trouxe um pouco de terra /Cheira a pinheiro e a serra…”*

No momento em que surge um pacote de “Ricoré”, um café solúvel da Nestlé, voaram gargalhadas na nossa sala. “Olha o Ricoré!”, foi a exclamação de ambos. Sim, o “Ricoré”. Aquele café estranho que eles tinham, todos, nas suas casas da sua (e nossa) aldeia e que bebiam (e bebem) com prazer nas suas férias de verão. E aquele momento superior em que o “Ribeiro” entra na Porsche e pergunta se é possível colocar uma bola de reboque no Boxter. Tal e qual!

Quando era mais novo tinha uma enorme dificuldade em perceber a “bola de reboque”, o “atrelado” e toda a parafernália de autocolantes naquelas máquinas fabulosas (os V6, os V8, os Turbo) que eles traziam e faziam o favor de conduzir nas nossas péssimas estradas a velocidades proibitivas, como se não houvesse amanhã. Não entendia a diferença. Os rapazes mais novos com roupas estranhas e cortes de cabelo…que não conseguia qualificar. Elas, pintadas e com decotes que nos deixavam sem palavras. E quando os nossos se faziam acompanhar de namoradas francesas que faziam topless nas rochas do rio Minho? Uma coisa de outro mundo para nós, miúdos dos anos 80.

“…Faz tanto frio em Paris/sou já memória e raiz…Quero voltar para os braços da minha mãe…”*

Só mais tarde percebi. Tal como o filme tão bem explica.  Aquela geração que partiu nos anos 60 e 70 são os últimos que, verdadeiramente, amam Portugal. Bem mais do que nós. O corpo partiu, a alma ficou nas suas aldeias. É por isso que trabalham de sol a sol, onze meses de sacrifício para um mês intenso na sua terra. Mais do que voltarem para “os braços” da sua mãe, como superiormente Abrunhosa e Camané cantam, eles regressam para um mês em que o corpo regressa à alma. E é tão diferente do que se passa hoje. Tão diferente.

Hoje partem de corpo e alma. Uma nova geração. Partem com a dor de um país que os desiludiu. Ontem partiam com a esperança de uma vida melhor. Hoje partem com a frustração de terem perdido a esperança neste país.

Ontem partiam “a salto” e regressavam ao volante do último grito automóvel. Hoje partem na Ryanair e regressam quando calha. Sempre com aquela coisa estranha e muito nossa, a saudade.

Agora cruzam-se nesses aeroportos os netos da geração de 60 com os filhos da geração de 80/90. Os primeiros para conhecer aquele estranho país dos seus avós. Os segundos para tentar resgatar as suas vidas. Não parecendo, a diferença é enorme. Excepto numa coisa: Portugal continua adiado para uma parte significativa dos seus.

Quando surgiu no televisor a palavra “Fim”, a minha vontade foi voltar ao início. Desde “O fabuloso destino de Amélie” que não me acontecia tal num filme. E é a primeira vez que tal me aconteceu com um filme português. Que excelente retrato de uma realidade. Uma realidade que quando conheci estranhei e que, ao longo da vida, aprendi a compreender e a admirar. Sobretudo, a respeitar.

Quanto ao “Contramão” do Pedro Abrunhosa, sou suspeito. É o meu “cantautor” preferido. Ponto final. E está sempre a surpreender-me. “Para os Braços da Minha Mãe”, para lá da excelência da letra/música e dueto, representa algo que se está a viver no nosso país fruto desta nova “fuga em massa” dos portugueses, a curiosidade sobre a vida dos que partiram para a França/Alemanha nos anos 60/70.

“…Quero ir para casa/ Embarcar num golpe de asa/ Pisar a terra em brasa…”*

*pedaços da letra da música “Para os Braços da Minha Mãe”, Pedro Abrunhosa, “Contramão”, 2013.

Comments


  1. Vi o flime, sem o aval dos comentadores habitués.
    Gostei.
    Passem-o em canal aberto.
    É melhor que novelas, beirais, secret storys e quejandos.

  2. Carlos Fonseca says:

    Antes do mais, as minhas felicitações pelo texto.
    Que belo filme, Fernando! Que fotografia perfeita da geração de um povo, a minha, que nos anos 60 se evadia da Pátria iletrado e analfabeto e, furtando-se a autoridades fronteiriças, se convertia em mais uma concierge ou um maçon que ali estavam para trabalhar na Rue Balzac, Voltaire ou no subsolo de Paris. E no Verão aí vinham eles, montados nos Renault, Peugeot e até mesmo nos 2 CV da Citroen.
    Percorri mundo por razões profissionais. Como disse certa vez o Humberto Coelho (benifiquista da Cedofeita, o sacana) o ‘português é como a Coca-Cola; encontra-se em todo lado’.

  3. julio says:

    Sem palavras para este texto.

  4. UI10 says:

    Talvez agora perceba quão desumana foi a sugestão do seu Primeiro-Ministro. “Emigrem”, disse ele. Filmes como a Gaiola Dourada mostram que os números contam muito pouco quando isolados. Tenham vergonha! Estão da dar cabo da vida de várias pessoas em favor de abstracções.

  5. anon says:

    sim senhor,
    andamos com bastante tempo livre nas mãos agora que acabou a “corda dos blogueres”…


  6. Caro amigo,

    Curiosamente vi a “Gaiola Dourada” com a mesma “paixão e nostalgia” como a que descreves, Quem viu partir amigos, vizinhos e/ou família nos idos 90’s (sim, os de 60 e 70 ainda não “andava por cá”) detecta com muita facilidade os pequenos pormenores que tornam este filme simples, num harém de preciosidades e potenciadoras de enormes risadas.

    Quanto ao cenário das migrações portuguesas actuais, discordo de ti (e isto falo apenas e só em meu nome, no meu caso particular). Saí de Portugal, da minha querida Trofa já lá vão 2 anos. É certo que regresso em visitas relâmpago com bastante regularidade, mas numa coisa permite-me que te diga que estás enganado, pois o meu querido País, e o meu ORGULHO TROFENSE, andam sempre comigo!

    Quanto ao Pedro Abrunhosa e à sua música, que ouvi há minutos, bem, foi um excelente momento! Diria que é como se me tivesse lido o pensamento. Está impecável esta música, se calhar por me ser “tão próxima” tal como este teu post…

    Um forte abraço meu caro!


  7. Obrigado por me entender.
    Escrevi um livro e disponibilizei-o para download gratuito na internet, e é um livro que maioritariamente tenta retratar precisamente isso que você escreveu. E ainda não tinha encontrado ninguém, até pessoas da minha idade, que pensassem o mesmo ou seja, o significado de Portugal, de pátria, patriotismo para eles, jovens que saiem e que ficam.
    Deixo aqui o link se porventura alguém quiser ler.
    http://www.bubok.pt/livros/7544/Nao-me-lembro-de-ter-comecado-esta-frase

    “(…) apercebo-me que abandonar o meu país é
    abandoná-la, abandoná-lo a ele que guia, abandonar-me, isto
    que é realmente a minha pátria, a pessoa que cuidou de mim, os
    amigos que fiz, os lugares que testemunharam o meu
    crescimento, como a estação de Campanhã, a envelhecer aos
    poucos, talvez este seja os maiores dos amores, o de dar sem
    precisar de um corpo em troca (…)”
    “Antes de ser português sou jovem”
    “(…) à mesma rotina, ainda para mais num país que não
    entende a minha língua, que por vezes também se pode dizer de
    Portugal, um país que não entende a minha, a sua língua, que a
    sujeita a depressões e regressões em acordos pró-monetários, e
    pesa-me tanto, em parte culpa do Pessoa, em lições de
    preservar a maior herança de um povo, já que abandonei o país,
    não queria abandonar a língua, e dedicar-me a isso era também
    não abandonar a língua, era fazê-la prosperar, ser admirada,
    uma língua sentimental, metafórica, com uma língua assim era
    impossível o país ser objectivo, não quero abandonar essa
    herança (…)”

    Obrigado. Um post muito bom, e um alívio saber que também há pessoas que pensam/sentem o mesmo.

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