A CP e o colapso programado da linha do Douro

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Carlos Almendra Barca Dalva


Uma nota prévia:
a CP deixou de alugar comboios charter às empresas de turismo e excursões no Douro há vários anos. Razão? – não há comboios disponíveis. Há vários anos.

Outra nota prévia: em 2015, e apesar das condições de exploração sofríveis e da vetustez dos comboios disponíveis, as receitas dos bilhetes cobriram as despesas operacionais na linha do Douro. É um caso raro na Europa ter uma linha de cariz regional a pagar a sua própria operação com as receitas. É mesmo o único caso em Portugal.
Explicando melhor: a linha do Douro é única via férrea que “não dá prejuízo”. A linha de Cascais dá prejuízo, a linha de Sintra dá muito prejuízo, só para termos uma ideia do que estamos falar. A linha do Douro cobriu as despesas operacionais num ano em que a CP já não alugava comboios, num ano em que a CP abdicou de transportar 180.000 passageiros em comboios charter. Teria sido uma média de +500 passageiros/dia a um valor nunca inferior a 10 euros/pessoa.

Basta pedir os números à CP.

Mas vamos à situação actual. 
A linha do Douro tem, desde há muitos anos, cinco comboios diários em cada sentido no entre a Régua e o seu terminus, a estação do Pocinho.
Um grupo de amigos pretendia organizar uma viagem no Douro em Agosto. Feita a pesquisa no site da CP, o grupo verifica que, dos actuais 5 comboios, a partir de 5 de Agosto passariam a ser apenas 3. Portanto, um decréscimo de 40% na oferta de comboios, e isto em plena época alta, a mesma época alta em que a GNR é amiúde chamada às estações do Pinhão e Régua para serenar os ânimos dos “clientes” que não conseguem encontrar lugar nos comboios.

Época alta, corte de 40% nos lugares a partir de 5 de Agosto.
No país “melhor destino turístico”. No Douro, “Património da Humanidade”

Mas tudo isto é premeditado.
Se não, atente-se na correspondência trocada com a empresa. O email de resposta, recebido a 12 de Julho, contém um texto que diz que “existiu actualização de horários a partir de 05 de Agosto”. Ora bem, meus senhores, faltam 3 semanas para as alterações!
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É também digno de embaraço o facto de os horários serem alterados no pico do Verão. Não há memória de tal. Será porque as pessoas estão de férias, as empresas estão encerradas, os políticos estão de férias e, como é Verão, ninguém repara?
O problema, meus senhores, é que no Douro repara-se, e muito.

A amigos meus, a CP assegura que o facto de desaparecerem 2 de 5 comboios em cada sentido no Douro e a partir de 5 de Agosto se deve a um “erro de pesquisa”. Então, o email-modelo recebido, já a contar com esse “erro”, é o quê, meus senhores?
Mentir é feio.
Para contextualizar, é de recordar que a linha do Douro padece da falta de comboios há muitos anos. Há mais de 10, há mais de 15, talvez 20.
É, pois, escusado, andarem a empurrar o problema com a barriga.

A Petrecha – Estórias de gentes do Douro

Maria Manuela Santos de Almeida Ferreira dos Santos*

Chamam-lhe Petrecha talvez devido à sua cor escura, a que o lixo dá uma tonalidade ainda mais acentuada. Ela própria se deve ter esquecido que a madrinha a baptizou de Amélia.
Andrajosa, arrasta pela mão a filha que nasceu da sua miséria.
As duas pedem pelas portas da aldeia o pão nosso de cada dia.
Toda a gente lhe dá num ou noutro dia. São tolas, diz o povo – mas não fazem mal a ninguém.
A Petrecha era filha do coveiro. A mãe morrera quando ela nasceu e o pai vivia com a caridade dos outros e o vinho que comprava quando enterrava os mortos.
Lá passava ele com a filha embrulhada em trapos num braço e a pá no outro. Enquanto abria as covas, deitava-a na campa de mármore mais chique e cantava para ela adormecer.
O cemitério era o domínio de ambos e ali entendiam-se.
O tempo rodou e o coveiro morreu.
Amélia Petrecha, quase indiferente, ajudou a tapá lo.
Quando lhe nasceu aquela filha, repetiu com ela as passadas que tivera. Não conhecia outras.
Ensinou a contar primeiro as cruzes e depois os tostões. No forno do muro do cemitério, guardam a roupa linda que lhes dá a gente rica! Não a usam. Não é delas. É para os amigos do cemitério.
Mas o que mais encanta a pequena Carolina são os retratos. Conhece-os todos. Dos senhores e das senhoras, que para ela têm vida. Já quase mulher, fica triste e amuada no dia dos fiéis, em que toda a gente invade os seus domínios.
Um dia, um senhor com uma máquina fotográfica achou original o quadro de mãe e filha e bate uma foto.
Passado algum tempo, oferece-lha. Ficam admiradas, sorriem, viram e reviram a fotografia.  [Read more…]

Eleições – Estórias de gentes do Douro

Maria Manuela Santos de Almeida Ferreira dos Santos*

As tão apregoadas eleições livres aproximavam-se. Na Quinta Grande, a Srª D. Cesaltina ensinava os seus trabalhadores. Quase todos tinham a quarta classe, mas o jardineiro já velho, que ali nascera, nunca dali saíra, não sabia ler nem escrever.
Então ela ia-lhe ensinando todos os dias três letras – C D S – as únicas que ele precisava de aprender para votar.
Era um sacrifício para o Sr. Joaquim, por cujas mãos só tinham passado sachos, enxadas e lavoura, tentar pegar no lápis para melhor decorar aquelas letras.
Mas como a patroa lhe dava sempre um copito a mais para o animar, lá treinava.
Depois de muitos dias de esforço, a Srª D. Cesaltina estava vaidosa e contava às suas amigas que conquistara mais um. Até já se sentia uma professora a ensinar meninos, tão fácil lhe parecera a tarefa.
Chegou o dia e o Sr Joaquim, no seu fato domingueiro, lá foi cumprir o seu dever de cidadão. Não sabia bem o que era, mas tinha de fazer uma cruz.
Volta a casa.
A patroa colhia umas flores no jardim para o altar de que era zeladora.
Olha para o Sr Joaquim que, meio acabrunhado, vira e revira o chapéu.  [Read more…]

O Embuste no Vale do Tua

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O destino do AMOR” é certamente um slogan que enche de orgulho José Cascarejo, ex-autarca de Alijó, cúmplice da pornográfica barragem do Tua e elevado, claro, à categoria de director da coisa. Aliás, é um slogan que enche de orgulho todos os autarcas do vale do Tua.

E ao prezado leitor do Aventar apresenta-se-lhe a questão: “como se promove um pretenso “parque natural regional” instituído depois de perpetrado o crime que inutiliza metade do vale do Tua? A resposta é fácil: criam-se frases fantásticas, polidas e reluzentes, a puxar à emoção do espaço aberto e livre. A natureza a pulsar quer oferecer-nos o que tem de melhor:

“É a natureza que grita!” (de facto, grita…)
“São os vales, as sombras das frondosas árvores” (serão os milhares de sobreiros e oliveiras cortados por causa da subida das águas?)
“São as águas cristalinas que refrescam o amor” (as águas eutrofizadas, é isso?)

E porque um parque natural, estimará o prezado leitor do Aventar, é algo visual (para lá de sonoro, olfactivo, táctil e emotivo?), qual a melhor imagem possível para promover o vale do Tua?
A resposta tipicamente cascarejana não podia ser outra: uma estrada de terra batida, remotamente africana ou na América selvagem e… um carro.
Um carro vermelho que é para ser ainda mais bonito.
Se o parolismo tinha limites, os mesmos acabam de ser ultrapassados por um carro vermelho.

Não seria de prever, prezado leitor do Aventar, que um parque natural se promovesse com imagens do mesmo parque natural?
Ou tem esta gente bem almoçada medo e pavor de mostrar que o “parque natural regional do vale do Tua” é o que sobra depois do conluio que tem levado a barragem do Tua avante?

E o que dizer do vídeo promocional que consegue a proeza de não ter uma única imagem natural do parque? Porque um vídeo promocional de um parque natural… em animação digital?
Tenham vergonha…

Douro, Faina Fluvial

Versão 1931:

Um filme de Manoel de Oliveira. Ficha IMDB

Ricoré, a Gaiola Dourada e Pedro Abrunhosa

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Numa daquelas coincidências felizes, vi o filme “Gaiola Dourada” ao mesmo tempo que no iTunes ficava disponível o novo álbum de Pedro Abrunhosa.

Ao ouvir a fantástica “Para os Braços da Minha Mãe” (dueto entre Abrunhosa e Camané) e ao ver a “Gaiola Dourada” dei por mim a pensar nos milhões de portugueses que vivem e trabalham fora de Portugal.

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Douro

Em terra de vinhos

Por HUGO OLIVEIRA

1- Na cidade de Bordéus existe uma pequena praça, igual a tantas outras. Envolvida por árvores. Alguns bancos para se sentar. Espaço para se estar, brincar. Dois arquitectosforam escolhidos para embelezá-la. Após várias conversas com os moradores e de inúmeras visitas ao local, chegaram à conclusão de que a praça já era bonita assim como estava. Os edifícios circundantes também partilhavam dessa bela simplicidade. A vanidade tão frequentemente associada aos arquitectos foi renunciada ao se constatar que não era necessário um projecto de arquitectura. Podar as árvores, cuidar do cascalho. Uma simples vassourada era suficiente.
 2- O Douro Vinhateiro, por outro lado, não é qualquer praça. A sua beleza é bem mais complexa. Os elementos que a compõem estão associados à “produção de vinho, através dos seus terraços, quintas, vilas, capelas e caminhos” e não propriamente à produção hidroeléctrica. Segundo especialistas, a criação da famigerada barragem do Tua levaria à submersão de significativas áreas da zona classificada pela UNESCO. Do ponto de vista económico também haveria consequências muito fortes (há quem fale de um aumento na já elevada factura de electricidade fazendo lembrar os já elevados lucros – €1079 milhões – registados pela EDP em 2010). [Read more…]

Não é a foz de um rio. É a Foz…

                  Hoje o pôr-do-sol foi às 18.37. Quem não quis vir é que perdeu.

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 9 – Manuel Cardoso

 

«“Era um local recôndito mas havia pior. Fora comodamente de comboio até ao Tua pela linha do Douro. Mudara para um outro, de via estreita, que lhe pareceu penetrar num reino diferente de contos e histórias, de fragas antigas e medos terríveis, a subir por desfiladeiros a cujas paredes as carruagens se agarravam a custo.
Em Mirandela esta imagem tinha-se-lhe apaziguado, a terrinha parecia até com movimento. Simpatizou com ela e havia de lá voltar algumas vezes, teve mesmo de lá voltar bastantes vezes porque mais tarde veio a ser médico da Companhia Nacional, que explorava este ramal de caminho-de-ferro. Era o términus da linha, a estação era grande, tinha gente.
Deu uma volta pela beira-rio, entrou num ou noutro boteco, ensinaram-lhe o Zé Maria das Barbas, patriarca da boa mesa, descobriu o Totó onde se comia bem e se era servido pelas muchachas de Chaves e de Verin. Gastou meia hora nesta deambulação. Retornou à estação para acomodar as suas bagagens na diligência que partiria defronte. Carroças e carros de todo o tipo estacionavam pelas ruas, empedradas de calhaus do rio, malcheirosas e muito sujas. [Read more…]

Souto de Moura Disfarçado de Ignorante

O prémio Pritkzer 2011, arquitecto Souto de Moura, está sem trabalho em Portugal, e decidiu agora enveredar pelo caminho da idiotia.
Em entrevista à Visão desta semana, afirma o distinto arquitecto que “gostava e perceber os movimentos ecologistas“. E continua: “faz-me impressão o maniquismo: a barragem é má , o betão é mau, o verde é bom. E a energia eólica custa seis vezes mais que a hídrica.”
Pretende assim justificar-se e justificar a excelsa beleza do projecto de maquillage de um escarro chamado Barragem do Tua; inteligente como é, Souto de Moura tem feito, não obstante, muito poucas leituras sobre os argumentos a favor e contra a barragem do Tua. Se não saberia que os “ambientalistas” não falam contra “o betão” ou contra as barragens. Falam claramente contra este mono de betão desnecessário, colocado na foz daquele rio que corre naquele vale único, e justificado pela Eléctrica chinesa como sendo necessária para produzir electricidade. Ora, já todas as pessoas de fé sabem há muito que uma modernização da barragens já existentes supera largamente o alegado acréscimo de potência a debitar pelas barragens do famigerado “Plano Nacional de Barragens“.
Como se vivesse num mundo só seu, o arquitecto finge ignorar o meio que o rodeia, a ele e à roupagem que desenhou para a barragem. Junta-se assim a uma ministra da CULTURA (Canavilhas), a vários ministros inábeis do Ambiente – e há que relembrar a indisfarçavel cumplicidade de Assunção Cristas (criminosamente ignorante ou apenas ignorante?). E junta-se também a um intelectual de craveira para quem as palavras vertidas preto no branco, em 1988, em homenagem ao avô, valem nada, são letra morta. Francisco José Viegas, “escritor“…

Senhor arquitecto Souto de Moura, quando a UNESCO despromover o Douro, vai dizer que não conhecia a região? Vamos rir…

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 8 – Sant’Anna Dionísio (Fim)

(continuação)

« – 83,7 km Macedo de Cavaleiros, est (E); (537 m. de altura)

A via férrea cruza duas vezes a estrada de Mogadouro, seguindo em plano através das extensas folhas de cultivo (milhos, centeios, trigais, pomares, vinhas, campos de morangos), que nos acomoanham, de um lado e outro, mas principalmente do lado da montanha tranquila que se desenha a meia distância.

– 85 km Castelãos, ap. (D.)
Sucedem-se as colinas alongadas, ao mesmo tempo familiares e sem nome. A pouco e pouco, o perfil da serra de Bornes modifica-se. A linha sobe, cortando pequenas trincheiras, ao longo da ribeira de Azibo. À esquerda, ergue-se a ermida de S. Bartolomeu, cuja romaria anual é muito concorrida.

– 89,4 km Azibo, est. (E.)
A partir da Ponte de Azibo, a via férrea obe continuamente. A cada passo se descobrem neste belo pedaço do mundo, tão impressivo, chamado Trás-os-Montes. É ver aquele formoso souto, hermético e misterioso como todas as florestas desconhecidas, vistas de longe. [Read more…]

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 8 – Sant’Anna Dionísio (IV)

(continuação)

« – 54 km Mirandela, est. (D.); (208 m. de altitude).
A vila é airosa. Rodeiam-na, à distância, os perfis macios de alguns ondulantes outeiros.
À saída da estação, a via férrea trespassa um breve túnel e, ladeando discretamente a vila, afasta-se do rio Tua para tomar a direcção do nordeste. A estrada de Bragança segue, por momentos, ao lado da via férrea, num arborizado segmento horizontal e rectilíneo, de uns novecentos metros de extensão. De um lado e outro, hortejos, olivais e alguma vinha. Horizontes alongadfos. Aprazível alameda.

– 58 km Avantos, ap.
Um pouco antes da povoação de Jerusalém de Romeu, a via faz uma pronunciada inflexão, transpondo um fundo valeiro sobre um viaduto metálico, de quatro tramos, de tabuleiro ascendente e encurvado. À saída do viaduto, a linha cruza a estrada de Bragança.

– 67 km Romeu [Read more…]

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 8 – Sant’Anna Dionísio (III)

(continuação)

– 34 km Ribeirnha, est. (D.).
O nome está a dizer com a frescura do sítio. Na margem do lado de cá está a pequena povoação desse nome. Do lado de cá, estão duas aldeias (Longa e Barcel), face a face, com uma pequena ribeira de permeio.
Daqui parte uma estradinha que serve a populosa vila antiga, decaída, de Vilas Boas, abrigada do lado do norte por um volumoso monte e que, noutros tempos, servia decerto de atalaia nocturna. é o chamado monte de Faro (824 metros de altitude), hoje coroado por um marco geodésico. Das janelas do comboio se contempla a crista granítica desse altaneiro serro, admirável miradouro de toda esta região de Riba-Tua. Um pouco mais além, à esquerda, destaca-se outro píncaro, relativamente isolado e grimpante: é o pico da Senhora da Assunção, coroado por uma ermida branca que certamente seria para Erastótenes ou Ticho – Brahe (caso um ou outro o visitassem) uma moradia ideal para uma discreta e paciente perscrutação dos grandes enigmas do Céu.
Do lado do poente, avista-se a montanha desnuda de Lamas de Orelhão.
Ao longo do rio, por fim pacificado, sucedem-se os olivais e alguns vinhedos. Estamos, ao cabo de um demorado segmento horizontal de 2 km, em

– 37,6 km. Vilarinho, est. (D.)
Voltam, por momentos, as penedias; mas as vinhas pequenas e os modestos olivedos voltam também, deixando aos renques de choupos a discreta hora de se remirarem no espelho verde do rio. O monte de Faro vai-se afastando, mas sem perda da sua manifesta grandeza. Nisto, porém, interpõe-se um serro escalvado que por pouco não nos oculta o pano orográfico do fundo. Aproxima-se o decantado

– 41,5 km. Cachão, [Read more…]

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 8 – Sant’Anna Dionísio (II)

(continuação)

Por momentos, a penediaparece querer esmorecer. É, porém, por enquanto, rebate falso. Mais um túnel (túnel das Falcoeiras). Volta a cornija quase suspensa sobre o profundo barranco. Agora surge um paredão estranho cujas raízes mergulham no leito tortuoso e cascalhento do rio, cujas águas, pueirs e rápidas, resvalam e brincam em consecutivos assaltos de espuma e granito.
De vez em quando o afluente recebe de um lado ou de outro algum córrego, nascido sabe-se lá onde, nalgum recôndito lameirinho só conhecido de alguma lontra lampeira, ou algum silvado vizinho do Reino dos Quintos. Ali temos, por exemplo, um desses ribeiros que vem das bandas de Carrazeda, e que dá pelo nome bíblico de Barrabás!
Cortes e mais cortes em esporões rochosos, amarelados, como que concentrados num inviolável mutismo.
Ao dobrar de um dos cotovelos do apertado e pedregoso vale, descobre-se na margem direita do rio, num recôncavo montanhoso, uma povoação empoleirada. É a aldeia de Amieiro. [Read more…]

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 8 – Sant’Anna Dionísio (I)

«Tua, est (E.), na margem direita do rio Douro.

O sítio é, ao mesmo tempo, grandioso e tristonho. Junto do entroncamento não há povoação alguma. O rio, enorme e de leito xistoso, corre a dois passos. De um lado e  outro, despenhadeiros. Defronte, ao cimo, situa-se a aldeia vinhateira de Nagoselo. Mais no alto, à direita, oculta-se a antiga vila de Soutelo do Douro.

O comboio, de material antiquado, com locomotivas da era do Fontismo, ou as automotoras, movidas a gasoil, um pouco mais rápidas, mas muito baloiçantes, saem da estrada em sentido inverso (isto é, na direcção do Poente), acompanhando por momentos a margem direita do rio Douro. A estrada para Carrazeda de Ansiães passa por cima da linha. Eis a confluência.

Afastamo-nos do Douro e entramos na garganta pedregosa e alcantilada do afluente. De relance vê-se a graciosa ponte moderna, de betão, que dá passagem à estrada de Carrazeda para Alijó, assim como o longo viaduto, misto, de pilares de granito e tabuleiro metálico, de vigas encanastradas, da Linha do Douro, cuja vista rapidamente se perde.

Transpõe-se um pequeno viaduto e imediatamente se trespassa um breve túnel, cortado no flanco rochoso do despenhadeiro. À saída surge a garganta encaixada entre caóticas penedias.

Alcantis formidáveis! [Read more…]

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 7 – Manuel Monteiro

«Para se fazer uma viagem a Bragança no ano pouco remoto de 1903 escolhia-se o Verão, seguia-se pela linha férrea do Douro, fazia-se um transbordo na Estação do Tua e subia-se pela via reduzida, aberta na margem esquerda deste rio. Pelo arrostar ofegante e moroso do comboio através da penedia britada a golpes de dinamite sobre a corrente coleante, profunda e torva, chegava-se a Mirandela ao cair da tarde. Aqui jantava-se mais reputada hospedaria de Trás-os-Montes, a do Zé Maria, que presidia pessoalmente com as suas barbas bíblicas às refeições dos seus hóspedes. [Read more…]

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 6 – Daniel Deusdado


Passei os últimos quatro anos com o peso da morte do rio Sabor na parte subterrânea do meu cérebro. De vez em quando, subitamente, lembrava-me de um rio pequeno que parecia chorar e rir, rebelde e limpo, de que quase ninguém queria saber à excepção de uns sonhadores unidos na Plataforma Sabor Livre.
Perante a ameaça de uma gigantesca barragem, eles falavam de um rio ainda com peixes, águias, lobos, vegetação milenar, muito inóspito, livre da nascente à foz, que viam morrer às mãos da ganância energética da EDP. E claro, com a bênção do anterior Governo – eram necessários muitos milhões para abater ao défice, a EDP pagava-os, foi sem espinhas.
Assim se vendeu a preço de saldo um extraordinário pedaço selvagem do território português, verdadeiramente único para quem tivesse olhos de ver – e muitos seriam os que, cada vez mais, acorreriam para sentir o que era a natureza em estado puro como quase já não há no mundo ocidental. Ou acham que os turistas viajam para visitar barragens e “centros de interpretação ambiental” que ficcionam o que existia antes destes holocaustos hídricos? Ou que alguém vem para Portugal para tomar banho em águas sujas e perigosas como são as de muitas barragens? [Read more…]

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 4 – Miguel Torga


«S. Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977

O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta».
Miguel Torga, Diário XII

Outros textos:
1 – Francisco José Viegas
2 – Guilherme Felgueiras
3 – Eça de Queirós
 

Sugestões para novos textos:
Formulário de contacto do Aventar ou caixa de comentários deste post.

Francisco José Viegas

Porque reconheço em Francisco José Viegas uma enorme integridade, não posso deixar de reagir a alguns posts que aqui no Aventar têm sido publicados, nomeadamente, este escrito pelo Ricardo Santos Pinto.

Todos temos direito a opiniões próprias. E quase todas as opiniões devem ser respeitadas. Agora fazer extrapolações de alguns factos reais para, expressa e literalmente, se pôr em causa o carácter de um Homem bom, sério e competente, é algo que nos deve inquietar. Assim:

1.- No ajuste directo em causa, a empresa adjudicatária denomina-se “Ideias e Conteúdos – Produções em Comunicação – Sociedade Unipessoal, Lda”., que, como a própria firma diz, tem apenas um sócio que se chama Ana Paula de Sousa Bulhosa (informação pública disponibilizável em qualquer Conservatória do Registo Comercial).

2.- O montante do ajuste, obviamente, que não foi entregue a FJV, mas sim à empresa adjudicatária que, presumo, com ele deve ter pago os necessários custos de produção (estudos, projecto, deslocações, filmagens, staff, etc.), bem como, garantido a sua legítima margem de lucro.

3.- Sinceramente, não sei nem posso asseverar que 138.600,00€ são ou não exagerados para pagar a produção de 7 documentários (para TV e DVD) de aproximadamente 1 hora cada. O que sei é que, na minha confessada ignorância, o valor em causa não me sugere, sem mais, quaisquer suspeitas.

4.- FJV foi a pessoa escolhida para coordenar e apresentar os referidos documentários. Como não disponho de quaisquer informações privilegiadas, presumo, novamente, que deva ter recebido honorários por tais serviços. O que é natural, normal e legítimo.

5.- Em defesa da verdade, o ajuste foi efectuado pela Direcção Regional de Cultura do Norte e não pela Secretaria de Estado da Cultura ou pelo Ministério da Cultura de então.

6.- O pagamento do montante da adjudicação teve o co-financiamento do Programa Operacional Regional do Norte, da Fundação EDP, da RTPN e das autarquias de Mesão Frio, Peso da Régua, Lamego, Sabrosa, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tabuaço, Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta.

7.- A opinião dominante aponta no sentido dos referidos documentários além de possuírem qualidade, proporcionaram à região retorno económico (como resulta de breve procura na net).

8.- Por último, mas de maneira nenhuma menos importante, a decisão de fazer os documentários através da referida empresa estava tomada pela DRCN em Janeiro de 2009; Elísio Costa Santos Summavielle só se tornou Secretário de Estado da Cultura em 31 de Outubro desse ano.

Vende-se a História

© automotora – o comboio a vapor da linha do Corgo (Régua-Vila Real) quando ainda tinha carris para percorrer os 25 km que uniam as duas cidades durienses. A linha foi encerrada “por razões de segurança” em 2009, aos 103 anos de vida. As obras de renovação da linha foram entretanto suspensas e todos os materiais foram já retirados.

Por MARIA DO CÉU MOTA

Acaba-se com feriados históricos e se se puder, também se vende o património histórico.
A CP tentou vender o comboio histórico estacionado na Régua. Foi a Federação Europeia das Associações de Caminhos-de-Ferro Turísticos que boicotou essa tentativa. O comboio, ainda operacional (!), é composto por uma locomotiva a vapor de 1923, uma composição de 1908 e outra construída no Porto em 1913, só para mencionar algumas das suas componentes. É, segundo o vice-presidente daquela Federação, ” um acervo único em Portugal e raro na Europa que deve ser preservado”.
Não se percebe que se queira fazer determinadas candidaturas à Unesco quando não se tem carinho por tudo o que diz respeito à nossa História.
É lamentável que seja uma entidade estrangeira a boicotar a tentativa de venda de património português!
Este caso fez-me lembrar o caso do nosso comboio real do final séc. XIX que transportou a rainha D. Maria II, D. Carlos e o rei D. Luis e que esteve em exposição na Holanda em Abril de 2010. Um êxito! Não pensem em vendê-lo!!
Deixo este alerta…

Património Mundial à portuguesa

Património mundial

é orgulho, com certeza

falta pôr no pedestal

é uma treta à portuguesa *

* Adaptado de Sérgio Godinho

O Douro Pobre – Patrocínio EDP

O Douro pode estar em risco de perder a designação Património da Humanidade

…com o Alto Patrocínio da EDP e do seu mural censório

 

 

O Douro

Rui Veloso, Rodrigo Leão & Cinema Ensemble e The Gift, no Rio Douro

Para mais informações, ver EDP ou SIC.

Douro Film Harvest 2011

Hoje, no Brasil, está a ser apresentada a edição de 2011 do Douro Film Harvest. Querem saber tudo sobre este festival de cinema e perceber o motivo da escolha deste vídeo? Então façam o favor de clicar AQUI

Douro Vinhateiro

A Honestidade Intelectual do Expresso…

É pena, chega a ser triste.

Aos poucos, de um jornal de referência que, escrevendo algo logo se acreditava que seria verdade, se vai chegando a um jornal que, escrevendo algo, logo se acredita que muito provavelmente tem gralhas ou omissões. E as omissões não são gralhas ou lapsos…

Aconteceu que o Expresso publicou uma galeria online com o sugestivo título “Viagem ao Douro dos anos 50, sem barragens“.

O título é verosímil. Os autores da peça apenas se esqueceram (terá sido omissão ou gralha?) de referir quer a origem quer a data das fotografias ali publicadas. Não são – de todo! – imagens da década de 50 do século XX. São antes fotografias de Emílio Biel a quem a então Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses (legítima predecessora da actual CP EPE) encomendara o acompanhamento fotográfico da valerosa e insana construção da Linha do Douro (1873-1889), Porto a Barca d’Alva, numa extensão aproximada de 200,5 km. Portanto, algumas fotografias têm mais que 60 anos, têm 137 anos.

Com efeito, nos tais “anos 50, sem barragens” a que alude o documento, e ao contrário do mostrado nas fotografias, já toda a linha do Douro tinha balastro (pedra) na via, algumas das estações tinham já sido largamente ampliadas e algumas das pontes ou viadutos tinham sido substituídos: tal é o caso do Viaduto da Pala (na imagem acima) (outra imagem de 1972, máquina a vapor com carruagens metálicas de fabrico suiço Schindler).

Ainda, e ao contrário do que o texto advoga, os “investimentos em barragens” não foram o sinónimo de se terem feito estradas “e melhoram-se as acessibilidades” porque muitas das estradas ribeirinhas (naturalmente sinuosas – são centenárias embora não tão antigas como o caminho-de-ferro). Portanto, se “ficou mais fácil circular junto ao vale do Douro vinhateiro, hoje património da humanidade” tal se deveu muito, e na maior escala, à chegada do comboio e não às barragens. Pormenores! Tanto mais que ninguém vem quotidianamente trabalhar da Régua para o Porto de barco…

E a patranha continua: “com mais energia verde e com novas acessibilidades junto a esses empreendimentos.” Esta afirmação é feita com base nos latos benefícios que o Douro (ele próprio) tem recebido como contrapartida da exploração da sua riqueza?? É que desde os tais anos 50 não se tem notado. Agora andam todos aflitos a dizer que sim, agora é que vai ser progresso para o Douro… já são os jornalistas do Expresso a dizê-lo, deve ser verdade.

Nem se Via o Sol

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Neste fim de semana resolvi ir dar um passeio pelo Douro Vinhateiro. Meti-me a caminho, no sábado após o almoço, que a carteira só dava para um dia de folga e no sábado de manhã ainda há quem trabalhe.
Tinha marcado estadia para uma unidade hoteleira muito boa entre a Régua e o Pinhão, e ansiava por lá chegar e deitar-me ao sol, na piscina de onde se vê uma curva e mais um bocado do rio.
No Porto estavam trinta graus e o calor apertava.
Auto-estrada fora, ar-condicionado ligado, velocidade de cruzeiro de cento e dez, cento e vinte e um sorriso nos lábios.
O termómetro do carro marcava já trinta e oito, e a subir, como eu, na IP4. O sol nem se via graças a algumas nuvens. Trinta e nove, quarenta, mas dentro do carro estava-se bem.
Chegados ao alto do Marão, resolvi parar. Abri a porta do carro e um sopapo de ar quente atingiu-me, misturado com o cheiro a incêndio. As nuvens que eu via a tapar o sol mais não eram que fumo dos inúmeros fogos espalhados pela região. Continuei o meu caminho já com uma atenção virada para essa realidade.
Chegado ao hotel, ainda tentei ir para a piscina, onde a exemplo de todo o caminho e também das horas que se seguiriam, o sol não se via e o chão estava coberto de cinzas, juntando a isso um calor abrasador.
Já no quarto e ligada a televisão, soube que muitos dos incêndios tinham começado de noite (????) e [Read more…]

Douro Sul – Fotografia

Encontro Aventar no Douro.

Esta foi a primeira imagem que tirei logo após o nosso encontro no Pinhão.

Paisagem soberba!

As que se seguem, são uma pequena amostra das paisagens que se podem encontrar por aquelas bandas. [Read more…]

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