A História não voltará a ser a mesma

485px-pierre_mignard_001

A partir de um texto de Manuel Loff (no Público), e que por acaso tem uma afirmação muito discutível sobre o fado, fica para outro dia, Vítor Cunha decide desbravar os caminhos da História. Intrépido, arrasa toda a historiografia que consensualmente define a criação dos estados modernos vulgo nações nos últimos 200 anos, como banalissimamente Loff refere.

Nada disso, com o entusiasmo de quem pega num algoritmo complexo sem saber a tabuada, e a sabedoria de quem na semana passada demoliu o cálculo de probabilidades tal como era conhecido na véspera, Vítor Cunha quer a Padeira de Aljubarrota metida ao barulho, e manda um doutorado tomar chá de malvas com a ” sua tese dos 200 anos que não explica nada excepto vergar a construção de uma nação ao tempo necessário para incluir Marx“. A teoria da conspiração no seu melhor.

A malta até lhe podia explicar o texto, enumerar que uma nação de hoje não é a de ontem, que um país é antes de mais quem habita num território, e como uns inúteis se enfiam em arquivos para, por exemplo, tentarem entender o que os tais habitantes sabiam e conheciam no séc. XIX sobre o mundo em que viviam, uma cena chamada História da Cultura e das Mentalidades. Não vale a pena: para Vítor Cunha a pátria são as elites, porque as elites é que são a pátria, e mainada. O resto é gandulagem inculta que não interessa para nada excepto para alimentar as elites, poupando-as ao esforço do trabalho para que possam produzir pátrias a-históricas, elites onde se criam conceitos tão óbvios como o de “guerra civil portuguesa de 1961–1974” (e eu a pensar que era Portugal combatendo os agentes de Moscovo infiltrados na províncias). Não vale a pena e é perigoso: nunca se sabe quando Vítor Cunha vai ao bolso e puxa de um gráfico, e na arte dos gráficos ele é um Hulk ou um Hércules, consoante nos coloquemos na visão contemporânea ou camoniana do músculo.

Aguardo serenamente que a Academia Portuguesa de História lhe ofereça uma estatueta de Clio (um Renault Clio desviado do sorteio das facturas também serve) e o coloque ao lado de Heródoto. Não façam a coisa por menos.

Imagem: Pierre Mignard, Clio a musa da História

Comments

  1. portela says:

    Há dois momentos, na minha opinião; Dom Afonso Henriques é um momento importante. Dom Dinis é um momento determinante.
    .
    Isto é o que faz um sujeito já contar muitos momentos, passados a tentar perceber como foi e porque foi.
    .
    Os momentos todos somados, levam-me a concluir que o mais confiável foi; Alexandre Herculano.
    .

    • No séc. XIX temos também o Louis Pasteur a dar cartas nas ciências médicas. Eu não confiava nele, ou melhor, nos seus conhecimentos, para me tratar de uma doença contemporânea, mas você é que sabe. Espero que já tenha feito testamento.

  2. vitorcunha says:

    O Pierre Mignard morreu em 1695. Esse quadro tem mais de 200 anos.

  3. nightwishpt says:

    Esta direitnha não tem mesmo noção do ridículo.

  4. O vitor cunha podia ter aproveitado a ocasião e ter respondido ao Carlos Fonseca, sobre aquele famoso estudo que fez sobre nascimentos na MAC.

  5. Nunca a realidade foi tão 1984, a começar pela reescrita da história pelas elites globalizadas… Dá jeito, e fica tudo mais fresquinho que o carapau… 😀

  6. Bolas! isto agora andam todos a vergar? já o Passos fala que vergou a dívida.

  7. A.Silva says:

    Mas quem é esse Vitor Cunha?????

Trackbacks

  1. […] de causas perdidas, que veio à liça em defesa desta dama: do cálculo de propriedades à História, passando pela demografia e terminando em gráficos que saltitam da Matemática e das Ciências […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.