Olimpo simples

vaso grego
“Está bem, eu vou. Mas não te ponhas a armar em Fangio” – respondia, há anos, um aluno meu a um colega que lhe oferecia boleia.

Fiquei surpreendido com a referência. Mais tarde, manifestei ao jovem essa surpresa, perguntando-lhe o que sabia de Juan Manuel Fangio. Que não, que não era nada disso – garantiu-me – é daquelas coisas que se dizem. Na verdade, confessou que nem sabia ao certo se Fangio era uma pessoa. Claro que Fangio não era do seu tempo; a bem dizer, nem era do meu. É, simplesmente, sinónimo universal de rapidez, de boa condução. Quando se diz de alguém que se “arma em Fangio”, está-se simplesmente a enunciar a improbabilidade de o imitador atingir o modelo ideal. No domínio do desporto, isto acontece com alguma frequência. Mas poucos são os eleitos. Aqueles que se identificam de tal modo com a excelência num dado domínio que, por metonímia, com ele acabam por se identificar. E aderem de tal modo à memória dos povos que podem ascender à condição de semideuses, como Hércules. Ele é um Hércules, diz-se de alguém especialmente forte.

Também entre nós passaram e passam estes vultos. Com todo o respeito pelos medalhados olímpicos, no espírito das gentes poucos se aproximarão de vultos como Carlos Lopes, Rosa Mota, Joaquim Agostinho, Eusébio. É este o verdadeiro Olimpo dos desportistas. O seu Panteão. Que não carece aprovação de ninguém nem de nenhuma instituição, porque está gravado na memória, no coração e na fala do povo.

Comments


  1. Concordo. Anda tudo a querer levar o Eusébio para o panteão. Será que o dito gostaria de estar naquela companhia?

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