A minha praxe

Ainda a propósito das praxes no Meco, tentei esforçar-me para me recordar de como foi a minha própria praxe académica.
Há dois episódios que recordo de forma relativamente pormenorizada. Um deles foi uma «aula-fantasma», «leccionada» por um veterano na disciplina de Civilizações Clássicas. Fizeram-nos escrever uma extensa lista de livros a consultar, entre os quais «A Arqueologia Espacial aplicada ao Império Romano», de Robert Aldrin, e muitos outros que nos fizeram duvidar da veracidade daquela aula.
O segundo episódio ocorreu nos jardins da Faculdade de Letras. Em fila, os caloiros foram conduzidos até um espaço mais amplo. Um a um, os «doutores» deram-nos ordem para cantar individualmente. A mim, mandaram-me cantar muito alto uma música do Quim Barreiros. Eu não sabia quem era o Quim Barreiros (fui um adolescente estranho) e, mesmo que soubesse, não estava disposto a cantar em frente a tanta gente. Naturalmente, recusei.
Insistiram e, como viram que dali não levavam nada, disseram-me que estava expulso da praxe e que até ao fim do curso não podia participar em nada.
– «Está bem».
Fiquei contente. Foi da maneira que nunca mais me chatearam. Não foi por isso que deixei de ir aos Jantares de Curso e às Queimas. Nem de usar fitas no último ano – mais pelos meus pais do que por mim. Nem de fazer muitos amigos entre os «doutores». Nem de me sentir completamente integrado.
Como é óbvio, nunca praxei ninguém.

Comments

  1. Bento 2014 says:

    DISTINÇÕES. Desde logo o governo não tem nada que dialogar directamente com associações de estudantes mas sim com as reitorias parcialmente ou em conjunto. No modo agora adoptado quebra-se uma natural hierarquia de responsabilidades e competências que nada abonam em favor da dignidade de cada organização. Tudo o que role á margem desse âmbito e que indicie práticas abusivas incluindo a suspeita de crime deverá ser tratado no âmbito da justiça comum. Assim andam a gastar o nosso dinheiro e mesmo a pactuar com assuntos de faca e alguidar que só cabem no seu foro próprio. Se as praxes constituem apenas actos de selvajaria então deveriam acabar radicalmente. Mas não, porque com gente civilizada é possível fazer umas brincadeira que não agridem e não diminuem, antes aproximam. Desde logo deveriam ser interditas em locais fora do espaço de estabelecimento a que digam respeito ou escolha de local adjacente conhecido e acordado com a reitoria, constituindo crime público esse desrespeito (fora o resto) com os culpados sujeitos a condenação que poderia levar a pena de prisão efectiva sempre que esta condição não seja cumprida. Deixo uma analogia: COM UMA FACA DE COZINHA, QUALQUER UM TANTO PODE MATAR UMA PESSOA COMO UMA GALINHA.

  2. Viviane says:

    Eu daqui a três anos vou para a Universidade…e quero ser anti-pranche…mas tinha algum receio de não ser integrada…

    • João P Lopes says:

      Aconselho, como primeiro passo, aprender a escrever correctamente a palavra praxe.

      • Viviane says:

        enganei-me a escrever praxe, porque estava no telemóvel e o meu telemóvel corrige sozinho (e as vezes corrige mal, como foi o caso)!!

  3. Gostei da sua praxe caro cronista. A minha também foi singela; terminado o secundário era da praxe ir trabalhar e… eu fui.

  4. Mário Machaqueiro says:

    Já agora, deixo também aqui o meu testemunho. Fui estudante do curso de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – que, se bem entendi, foi também a Faculdade frequentada pelo autor do “post” – numa época distante (início dos anos 80) em que o conceito de praxe nos era totalmente estranho. Conhecíamo-lo apenas das histórias, mais ou menos exóticas, que nos contavam de Coimbra, praticamente o único lugar académico onde, durante muito tempo e bem antes do 25 de Abril, a praxe tinha existido para ser, a partir dos anos 60, objecto de intensa contestação por parte do movimento estudantil que se opunha à ditadura e à guerra colonial. Portanto, no “meu tempo” a praxe estava mais que morta e ninguém sonhava em desenterrá-la. O que havia em Letras, e apenas no curso de História, era algo substancialmente diferente: as partidas aos caloiros. Brincadeiras perfeitamente inofensivas, que ocorriam nas primeiras semanas, e cuja piada residia precisamente em as suas “vítimas” ignorarem que estavam a ser gozadas. Algo, pois, bem distinto do ritual alarvemente escancarado em que consistem as praxes actuais. E que brincadeiras eram essas? Em regra, aulas falsas “leccionadas” por estudantes de final do curso que poderiam passar por assistentes (pela descrição, o Ricardo ainda viveu coisa semelhante), com distribuição de bibliografias delirantes (mas havia quem fosse procurar as “obras” nas livrarias do Campo Grande) e a promessa de uma saraivada de reprovações no final do ano lectivo (e havia “alunos” dispersos na sala de aula entre os caloiros para lhes contar as histórias de terror que já tinham experimentado com o dito “professor”). Digamos que esta brincadeira às tantas se rotinizou e perdeu considerável parte da graça. Mas a malta de História, por vezes, lá conseguia desencantar uma partida imaginativa. Talvez a mais divertida tenha sido um famoso rastreio que, de uma assentada, gozou com os pobres caloiros mas, sobretudo, com um célebre professor de Arqueologia, conhecido pela cretinice e por andar babosamente à caça das meninas recém-chegadas aos cursos de História e Arqueologia. Consistiu então a brincadeira em pôr uns tipos de bata branca, com uns instrumentos de “medicina” roubados aos pais de um deles, que eram veterinários, a fazer o “rastreio” aos caloiros, o qual incluía urinar para uns copos de plástico, previamente distribuídos, e levá-los a uma sala para que a urina fosse analisada. E o pessoal lá ia, em sucessivas levas, até à dita sala, sem suspeitar de que aquilo era um falso rastreio. Sucede que nessa sala estava a decorrer uma aula do citado professor imbecilóide. Facilmente se imagina a confusão e o embaraço do professor que, no fundo, era aqui o alvo principal. No fim destas coisas, ninguém saía magoado ou humilhado – a não ser o tal professor, mas esse merecia-o – e, se houvesse sentido de humor, os visados riam-se de boa vontade. Depois, a malta regressava às finalidades maiores da universidade: aprender, conhecer, criar ideias, pensar criticamente.

    • Ricardo Ferreira Pinto says:

      Sim, Mário, a minha «aula-fantasma» foi exactamente igual à sua. Mas foi na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e foi no início dos anos 90.

      • Mário Machaqueiro says:

        Pequena adenda só para esclarecer que eu próprio nunca fui “vítima” de semelhantes aulas, pois, como referi, o meu curso foi Filosofia e não História. O pessoal de Filosofia da Fac. de Letras era todo muito sério, “profundo” e sisudo, concentrado em “altas” questões metafísicas e epistemológicas (éramos divertidos apenas na camaradagem em pequenos grupos). Já a malta de História, onde eu tinha vários amigos, era muito mais inclinada para a brincadeira. Não fui “vítima” das referidas aulas fictícias, mas assisti a algumas. Repito que nada tinham que ver com praxes, conceito que nem sequer existia para nós.

  5. Aluna da faculdade de Letras da Universidade de Coimbra de 1982 a 1987 a minha praxe consistiu na informação aos alunos do primeiro ano que apenas poderíamos utilizar os elevadores da faculdade com um cartão próprio que deveríamos ir buscar a um local que seria posteriormente indicado. Passados uns dias fomos informados que o cartão estaria disponível num dos pisos da faculdade a partir das já não sei quantas horas numa sala que também já não me recordo. Lembro-me que depois do almoço lá estávamos numa fila enorme, à espera, à porta designada e com os documentos que devíamos apresentar. Esperámos até que… chegou a funcionária que veio abrir a salita onde guardava o material de limpeza. Alguns sem sentido de humor ainda refilaram, a grande maioria, das quais eu fazia parte, achou graça. Foi inofensivo. Não se riram de mim mas comigo e foi simpático pregarem-nos aquela pequena partida.
    Gostei. Sou a favor da praxe. Estes rituais deprimentes e indignos a que assistimos ultimamente NÃO são PRAXE!!!

  6. Quando fui caloiro em duas faculdades (Letras na Universidade de Lisboa e, mais tarde, Direito na Universidade de Coimbra) não havia praxe. Apesar disso, havia muita camaradagem e momentos de alegre convívio que me deixaram muitas saudades.
    Era anti-praxe e sou anti-praxe. Mas agora ainda sou mais pela forma pouco digna como é concretizada e pelos lamentáveis acidentes (espero que sejam realmente acidentes) que têm acontecido.
    Como é que querem qua a população respeite os estudantes quando desfilam pelas ruas em atitudes e com linguagem tão pouco dignificantes? A Universidade devia promover a criação de elites (no bom sentido, entenda-se) e não o oposto.
    Que o Quim Barreiros, por exemplo, seja um cantor apreciado pelo povo em geral eu entendo; já que esse cantor faça parte do programa da queima das fitas de qualquer universidade não me parece muito bem. Como não me pareceria o Zé Cabra ou os Cebola Mole, estes últimos com muita graça, até.
    Ou seja, entendo que a fase de estudos universitários deveria ser um momento de enriquecimento cultural, de são convívio entre os estudantes e de troca de ideias e experiências e não o contrário, como por vezes parece acontecer atualmente…

  7. Maquiavel says:

    A questäo é mesmo essa: o que se anda a passar nestes tempos näo é praxe, é caso de polícia. E estes resolvem-se, näo em Conselhos Académicos, mas na Polícia.
    Ponto final.
    Nos anos 90 eu que era anti-praxe decidi tomar uma atitude construtiva e juntei-me à Comissäo de Praxe do ISCTE, cuja principal tarefa era manter as coisas civilizadas (organizar tribunais de praxe, concursos de pintura de fronha caloira, aulas-fantasma, etc.), e especialmente punir abusos. Só que qualquer um podia juntar-se, e veio logo um caramelo que pensava que estávamos ali para implementar o programa da Inquisiçäo aos caloiros. De certo modo foi bom, que foi da maneira que o mantivémos de trela curta (os “castigos” eram votados democraticamente) e conseguimos até humilhá-lo, ao fazer os caloiros cantarem uma cançäo preparada pela Tuna a ele dedicada. O que o pessoal mais gostou (tanto caloiros como veteranos) foram das pinturas faciais, o pessoal deu MESMO um show de criatividade e bom gosto, alguns rivalizando com as pinturas do Carnaval de Veneza. Foi giro. Quem dera hoje em dia assim o fosse.

  8. Fernanda says:

    Lembro-me da minha praxe. O prof Lindley Cintra a levar pancada da PIDE, a gente a entrar para os pavilhões universitários com a polícia de choque de um lado e de outro, os bufos a empurrarem-nos para dentro das salas de aula, no meio de impropérios às nossas mães.

    Fiquei praxada para sempre!

    • Mário Machaqueiro says:

      Penso que este comentário, brilhante e terrível, arruma definitivamente com a conversa sobre as praxes. Calemo-nos, pois.

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