Sopa dos pobres

Deveria ter escrito isto ontem, mas não fui capaz. Deveria ter entrado naquele parque de estacionamento e oferecido a minha ajuda, mas não fui capaz. Deveria ajudar mais quem de mim, de todos nós necessita, mas nem sempre sou capaz. É mais fácil, muito mais fácil, encostar-me no meu canto, ficar com as minhas filhas e com o meu marido e não sair à noite para conviver com a infelicidade alheia.

Ontem, por volta das 21, saí na estação de Metro da Trindade e ouvi, vindo de um parque de estacionamento em altura, sons de uma azáfama fora do habitual. De seguida, ouvi o som de talheres a bater em louça. Pensei que um grupo de amigos se reunira ali, devido ao mau tempo, e comemorava algo. Instintivamente, olhei para o local de onde vinham os sons. A primeira cena que vi foi um idoso que caminhava segurando uma tigela de sopa e um prato de comida. Imediatamente atrás, um rapazinho muito novo segurava uma outra pessoa de idade, não percebi se homem ou mulher, que cambaleava e nitidamente não conseguia segurar a sua comida sem ajuda.
Percebi do que se tratava: distribuição de comida a pessoas sem-abrigo e a famílias necessitadas. Por respeito para com aquelas pessoas, desviei o olhar, respeitando o seu momento de alimentação e a sua privacidade.
Continuei o meu caminho, mas tive que voltar a olhar e fi-lo discretamente, mas com mais atenção.
Na direcção em que olhei,vi de imediato um grupo de crianças sentadas num murete, todas juntas, junto de um carrinho de bebé. Teriam entre cinco e dez anos de idade. Eram várias.
Fiquei destroçada. Sei que a miséria espreita em cada esquina, bate a cada porta. Sei que muitas das nossas crianças passam fome. Sei que para muitas uma refeição destas é a única coisa quente que comem ao longo do dia. Sei que há cada vez mais pessoas sem casa, ou pessoas que ainda conseguem ter casa mas não conseguem pôr comida na mesa. Sei disso tudo, mas não estava preparada para o que vi.
Eram, no mínimo, dezenas de pessoas espalhadas pelo piso térreo daquele parque de estacionamento.
Crianças, novos e velhos, todos a jantar com o cheiro dos escapes dos automóveis a adentrar-lhes as narinas. E imagino que até esse cheiro, tão desagradável para mim, tivesse para muitas daquelas pessoas o aroma de uma iguaria há muito esperada.
Perante o que vi, controlei-me para não chorar. Se chorasse, seria um choro de piedade, de tristeza, de impotência e aquelas pessoas não me merecem esse tipo de choro. Merecem o meu respeito, merecem ser tratadas como todos os seres humanos merecem ser tratados. Essas pessoas merecem tudo o que esta sociedade egoísta e corrupta lhes deve e lhes roubou.
Vim para casa ansiosa por desabafar, contar o que tinha visto, dizer da injustiça destas situações cada vez mais frequentes.
Não fui capaz de o fazer aqui.
Ainda agora me está a ser difícil pôr em palavras o que senti.
A sensação que tive ao ser apanhada de surpresa por aquela situação, ter visto crianças e idosos a depender da caridade alheia é impossível de descrever. Embora tendo conhecimento destas realidades infelizes, enti-me arrebatada, arrastada por um furacão e novamente depositada no mesmo local. Senti-me egoísta, porque felizmente as minhas filhas não precisam de ir comer num parque de estacionamento e porque, enquanto escrevo este post, elas dormem quentinhas sem dar conta da tempestade lá fora.
Quem dera que todas as crianças tivessem aquilo que para as minhas é garantido.
Quem dera que todos os idosos pudessem terminar os seus dias com a dignidade que a sua idade avançada exige. Quem dera…

Comments


  1. Partilho esta e desta dor… E da impotência que sinto tantas vezes, por não saber/poder/querer ajudar mais… A inércia egoísta prende-nos com fios invisíveis mas poderosos!


  2. Pois é – a piedade dos intelectuais dos que podem mas não têm tempo e sobretudo não conseguem descobrir o muito pouco com que poderiam contribuir e alguns conheço mas se contentam com o desabafo intelectual para acalmar consciência – não é mau – podia ser pior e nem sequer olharem ou olham para o lado – desde quando quem está bem faz o que quer que seja ?’ e nem sequer se cala ??talvez acto de contrição da sua impotência organizada

  3. Joam Roiz says:

    O relato de Noémia Pinto é a “prova provada” da situação de miséria a que muitos portugueses chegaram, criada pela política cínica de um Governo anti-patriota, apostado na vil exploração do trabalho, lacaio da globalização e do capitalismo financeiro.

  4. Joam Roiz says:

    A situação visionada por Noémia Pinto não deve servir para nos acharmos culpados seja do que fôr. Não são o nosso egoísmo ou a nossa inércia ( aliás, desmentido pelo sucesso de campanhas contra a fome, por exemplo, do Banco Alimentar) os culpados. Vou mesmo mais longe: a prática da dita “caridade cristã”, apenas mascara o que será sempre a real natureza do sistema capitalista (capitalismo financeiro ou outro) vigente – uns poucos, cada vez mais ricos, e a geral pobreza e miséria de muitos – e atrasa a tomada de consciência, quer a nível nível individual, quer a nível colectivo, da necessidade de reassumir, corajosamente, a luta pela mudança radical das relações sociais de produção.

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