Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço

Barack Obama, Vladimir Putin

O império norte-americano, em toda a sua plenitude balofa e tentacular cujas ventosas, agarradas a meio planeta, vão sugando e destruindo tudo o que as suas ainda mais obesas corporações lhe vão exigindo, da América Central à Latina, passando pelo Médio Oriente e pela superioridade hierárquica exercida sobre a Europa, não admite comportamentos similares aos seus. Financiamento de golpes de Estado, treino de milícias terroristas ou violações constantes da soberania de qualquer país onde Tio Sam queira “penetrar” são acções que, pela sua complexidade ética e moral, deverão ser sempre um exclusivo dos norte-americanos, da NATO controlada pelos norte-americanos ou da ONU controlada pelos norte-americanos. Sempre que as elites norte-americanas assim o exigirem.

Tomemos como exemplo a invasão do Iraque em 2003. Investidos pela orientação divina de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, as tropas comandadas pelo Xerife Bush invadiram e violaram a soberania do Estado iraquiano, com o pretexto de que existiriam armas de destruição maciça no país. Como se tal fosse um argumento válido. Ignorando por completo os normais procedimentos de aprovação deste tipo de acções no Conselho de Segurança da ONU, Bush chamou o parceiro do costume e mais três ou quatro animais de estimação e depôs Saddam. Um ano e três meses depois da agressão, o saldo final foi um presidente deposto e enforcado, (mais) um governo fantoche preparado para vender todo e qualquer recurso ao desbarato às corporações por trás do fantoche americano, centenas de milhares de mortos e desalojados, um país destruído e progressivamente privado dos seus recursos e, finalmente, violência gratuita e sectária, sem sinais de abrandamento, até aos dias de hoje. Quanto às armas da discórdia, nunca mais ninguém as viu. A providência divina terá, com toda a certeza, pulverizado as danadas. God ALWAYS blesses America!

Ora perante estas e tantas outras situações a que os paladinos da liberdade nos têm habituado, confesso que me impressiona a desfaçatez com que Obama afirma não acreditar nos argumentos de Putin. O mesmo se aplica a John Kerry quando este assegura que a Rússia procura pretextos para invadir a Ucrânia. Será que esta gente nos toma a todos por otários com o seu falso e patético moralismo?

Mas o que realmente me intriga é ver o Nobel da Paz, artesão de drones e financiador de radicais sírios Barack Obama afirmar que a “intromissão” da Rússia na Crimeia vai afastar a comunidade internacional de Moscovo. A qual comunidade internacional se referirá Obama? Àquela em quem ele manda? Ou acreditará mesmo que vai conseguir embargar a gigantesca Federação Russa da mesma forma que mantêm embargada a pequena e vulnerável Cuba? E as corporações que o financiam? Estarão elas dispostas a perder tão importante importador que tantos milhares de milhões de dólares lhes despeja anualmente nos cofres? Really Obama? Come on..

É que para além da questão do comércio internacional convém não esquecer a geopolítica. Ao hostilizar Putin pelos mesmos erros que os EUA cometem vezes sem conta, numa escala que, à sua beira, o urso russo não passa de um urso de peluche, será que a mafia de Washington já parou para pensar que confrontar Moscovo poderá unir todos os “dissidentes” em torno da potência que perante as tímidas ameaças do Ocidente não só mantém uma linha dura e pragmática de discurso como ainda se põe a testar mísseis balísticos intercontinentais?

Para dar lições de moral a Moscovo, Washington precisa primeiro de ter uma conduta internacional à prova de bala, que não só não tem como não aparenta querer passar a ter. Para além de financiar terroristas, promover golpes de Estado e invadir estados soberanos, os Estados Unidos contam ainda com um rol de amigos muito próximos que praticam efusivamente o totalitarismo e a violência indiscriminada como Israel, Arábia Saudita ou Qatar. Mais: os EUA precisam de uma relação estável com os russos sob pena de perder um importante “aliado”, ainda que passivo, nas suas manobras no Médio Oriente. Imagem o que seria um conflito com a Rússia ao mesmo tempo que a situação se descontrolava por completo do Norte de África até ao Paquistão. Teriam os norte-americanos capacidade de lidar com todas as situações ao mesmo tempo? E mesmo que tivessem, seriam tais operações sustentáveis? E a opinião pública norte-americana? Toleraria que, ao mesmo tempo de Detroit definha na falência e outros estados se aproximam de igual cenário, biliões e biliões de dólares fossem injectados em várias guerras ao mesmo tempo? Podia ser que os “discípulos” de Guy Fawkes aproveitassem para um occupy USA e o império norte-americano terminasse como todos os impérios que o antecederam. A humanidade agradecia!

Putin está-se nas tintas para o que o Ocidente pensa. Porque tem poder militar suficiente para que ninguém se queria meter com ele, porque tem as grandes corporações, americanas e europeias, a facturar milhares de milhões com o seu país e porque poderia criar muitas complicações geoestratégicas à NATO. Putin não quer nem saber das caixinhas de ressonância europeias, que agora agitam a cartilha dos Direitos Humanos mas que amanhã já lhes estarão a vender as melhores casas em Londres, Paris, Milão ou, porque não, em Lisboa. Afinal de contas, 5% dos vistos gold de Portas são deles! Muito mais são os interesses económicos que os unem do que as diferenças humanitárias que os separam. Já no campo da hipocrisia, continua a não haver rival para a superpotência norte-americana.

Comments

  1. j. manuel cordeiro says:

    Parecem dois galos…


  2. Falta aqui o galo de Barcelos.


  3. Até o posicionamento das mãos é igual. São dois galos para dois poleiros.É comparável à manif. das polícias ontem.


  4. Vamos ter a America latina e o meu querido Brasil em particular a ter que enfrentar imensas revoltas “espontaneas” das populações e dos”jornalistas” mais “amigos”.

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