Em ruínas

Na antiga fábrica de sabão em Lordelo do Ouro, que voltou a ser notícia esta semana, o meu avô esteve por duas vezes à beira da morte. Trabalhou lá muitos anos e sofreu um acidente que lhe provocou queimaduras graves. Do acidente mais grave na história da fábrica salvou-se por sorte, porque trabalhava por turnos e aquele não era o seu. Nesse dia, fomos (a minha mãe e eu) encontrá-lo a ajudar na limpeza dos destroços. Estava ferido, tinha sido atingido na cabeça por uma telha que voou com a explosão, e essa telha foi providencial, porque impediu que ele entrasse na fábrica para socorrer os colegas por quem já ninguém poderia fazer nada.

Não me lembro desse dia em que fomos à fábrica, a minha mãe conta-me a história com detalhes, mas nenhum me ilumina a memória, continuo a escutá-la como se tudo se tivesse passado com outra criança que não a que eu fui. As memórias que tenho da fábrica são posteriores, quando ainda estava em funcionamento mas o meu avô já não estava lá, mas ainda a via da janela do seu quarto. Eu era adolescente e ia vê-lo depois da escola, e ele estava à janela, sempre à janela, e acenava-me quando me via, e eu sabia que ele estava a olhar para a fábrica, que não conseguia deixar de olhá-la sempre. Dos últimos anos, quando a fábrica já estava fechada, pouco recordo, porque desde que o meu avô morreu eu não voltei a querer passear por aquelas ruas de Lordelo do Ouro, e quando passo é de carro e sem vontade de olhar para lado nenhum.

A Câmara Municipal do Porto passou a última semana a demolir o que resta da fábrica. Explicou-se que o espaço era refúgio de toxicodependentes, que umas 400 pessoas circulavam por ali a cada dia, para tráfico e consumo de droga, prostituição, que havia gente a viver lá nas condições mais degradantes, que os moradores das redondezas se sentiam inseguros. A cidade tem muitos lugares assim, sobretudo no interior ou nas proximidades de bairros sociais (o bairro Dr. Nuno Pinheiro Torres está mesmo ali, ao lado está o de Lordelo, o da Pasteleira está perto). E convive, em geral, com esses lugares não os vendo, a não ser quando eles entram pelos olhos dentro, da mesma forma que não vê os toxicodependentes a não ser quando troca uma moeda pela segurança de que não lhe risquem o carro.

Não, não venho aqui perorar sobre soluções para o problema da toxicodependência, estou segura de muito pouco a esse respeito, confesso que resisti sempre a olhar o tema mais atentamente, porque me persegue a sombra dos que vi cair e reajo com cobardia, voltando também o rosto para o lado. Carrego o meu fantasma, todos têm o seu, meia dúzia de histórias tenebrosas, e um grande cansaço. Mas sei que os que se refugiavam entre as ruínas da fábrica não foram salvos de coisa nenhuma, só escorraçados para outro lado, onde continuarão a não ser vistos até se tornarem demasiado incómodos. E percebo o drama de quem vive com eles ao lado, percebo o que é sair da escola e ver gente a injectar-se nos vãos de escada, sei o que se sente quando nos dizem que morreu o Carlos, o Toni, os pais do Nelson.

E também sei a tristeza dos que viram a fábrica encerrar, dos novos que perderam trabalho, dos velhos que ficavam à janela, como o meu avô, a olhar a chaminé sem fumo, ele que alimentou a caldeira, que a conhecia melhor que os engenheiros porque vivia com ela há muitos anos, sabia-lhe as manhas, punha-a de novo a funcionar sem sequer espreitar os manuais que deixavam os especialistas de olhos em bico. E sei dos que morreram e já ninguém lembra, das vidas que se perderam ali, muito antes das drogas, vítimas de uma explosão que já só quem a viveu pode lembrar.

Procurei ler as notícias da demolição com todo o distanciamento, não mais do que a demolição do velho para que algo novo se possa reconstruir, mas a todas deixei a meio porque só consegui ver ruínas onde deveria haver renascimento. Há lugares que só conseguimos ver com os olhos da memória.

Foto: Câmara Municipal do Porto

Comments

  1. motta says:

    Já valeu a pena, de novo, passar pelo Aventar…

  2. Muito bem. Então para si já não fez diferença. Entaipar a fábrica não era solução mais barata?! Entregá-la aos desalojados da Fontinha também não?! Deitar uma coisa abaixo ainda custa dinheiro e eu não sei quem é que vai pagar. Ouvi dizer que a câmara vai mandar a conta a não sei quem, mas isso não é sinónimo desse tal de não sei quem vir a pagar a dita. Suponho que seja alguém que não precisa das nossas esmolas, mas sem vergonha na cara para ficar com elas.

  3. Tema. Ocupação temporária socialmente útil de espaços que a promoção imobiliária mantém expectantes.

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