De nenhum cigarro diremos que é o último

É certo que já poucos são enterrados, é uma questão prática, de higiene, resolve problemas de espaço, só prejudica as floristas. Cremados os restos mortais, despejadas as cinzas no jardim mais próximo, não há encargos com coveiros, lápides, flores frescas ou de plástico, círios ardentes.

Mas ainda há – e talvez sejam necessárias uma ou duas gerações mais para que o hábito se perca – os que teimam em enterrar os seus e peregrinar depois à campa, pelo menos durante os cinco anos que vão do funeral à primeira tentativa de desenterramento.

A família do Sebastião enterrou-o não por vontade expressa do falecido antes de sê-lo, mas por hábito, tradição, horror ao fogo (reminiscências dos sermões admoestativos do padre, talvez) e partir de então passou a haver “a campa do Sebastião”, lugar de romagem nas primeiras semanas após o óbito inesperado, depois tarefa distribuída pelas mulheres da família, e logo incómodo despachado de uma para outra, recebido com um invariável “outra vez? Ainda há pouco fui eu!”

O ritual da lavagem da campa é, desde sempre, feminino. As mulheres varrem a campa, limpam-na das folhas que o vento arrastou, das pétalas desfeitas, do rasto de cera derretida, esfregam a laje de mármore com esponjas de lavar louça e líquido lava-tudo, despejam-lhe garrafões de água, esses de plástico que outros visitantes deixaram ao pé da fonte ou atrás de uma lápide para que possam servir a outro, lavam e esfregam e às vezes cantam baixinho, ou falam umas com as outras, de campa para campa, condoem-se da campa abandonada do lado e deixam lá um pezinho de crisântemos, e a água escorre pela laje e há um certo conforto em ver como essa água, misturada com espuma, se derrama sobre a terra, primeiro só um fio, depois um jorro, até empapar a terra, como se algo pudesse chegar ao morto, de início um gotejar, logo um ténue fio de água que serve de sinal de que não foi esquecido, que os vivos se ocupam dele, como podem, como sabem, e assim como se acendem velas para iluminar o caminho das almas, também se lava a terra onde os ossos repousam.

Quando as lavagens da campa do Sebastião já não eram semanais, nem sequer mensais, e se resumiam aos Fiéis e ao aniversário dele, voltou de França o Zé Manel, sobrinho dilecto do Sebastião, e que não chegara a despedir-se do tio porque andava nas obras de um grande hotel e não tinha conseguido dispensa do patrão. O Zé Manel vinha convencido de que a morte súbita do Sebastião fora responsabilidade do médico que o obrigara a deixar de fumar e beber de um dia para o outro, coisa demasiado súbita para décadas de vício. “Foi muito de repente, devia ter sido aos bocadinhos”, era a sua teoria. Mas por essa altura já ninguém estava com disposição para discutir o que matara o Sebastião, morto e enterrado, resolvido para os vivos. O Zé Manel vinha com tempo, férias em casa e sem dinheiro para gastar, os rapazes da sua criação tinham morrido de overdose ou andavam por outras terras, como ele. Quando vinha gastava as tardes no café, mas desta vez tinha outro sítio aonde ir.

No primeiro dia ficou um bocado a olhar para a campa, pernas afastadas, costas direitas, uma mão no bolso, a outra segurando o cigarro, o semblante sério que ele achava impor-se num momento assim. Mas quando tentava concentrar-se nas memórias que guardava do tio, invariavelmente acabava a pensar noutras coisas, os pensamentos corriam em todas as direcções menos na que o trazia ali, e de cada vez que buscava a memória da cara do Sebastião misturavam-se outros traços, a testa do patrão de França, o bigode do pai, uns olhos que nem ele sabia a quem pertenciam, e quanto mais tentava lembrar-se mais o tio se escapava.

A minúscula foto oval na lápide também não ajudava. Sebastião fora tirá-la vinte anos antes de morrer, para renovar o bilhete de identidade ou para o passe de autocarro, e ficara para sempre retratado com um tom amarelado e cara de assarapanto. Ninguém encontrara foto melhor e aquela sempre tinha uma seriedade condizente com o lugar. Mas a Zé Manel em nada lhe fazia lembrar o tio.

Já cansado do esforço, e irritado consigo pela fraqueza da sua memória, calcou a beata aos pés da campa, e então teve aquela grande ideia. Foi outra vez ao maço, era o Ventil de sempre, tirou outro, acendeu-o, e pousou-o sobre a laje, com cuidado para que a ponta em brasa não manchasse o mármore, deu um passo atrás e ficou a ver o fumo subir da campa, uma coluna delgada e cinzenta, que se erguia ao céu e desaparecia a meio caminho.

Gostou da imagem, riu para si, ficou à espera que o cigarro se consumisse e no final esmagou a beata na terra e deixou-a ficar ali. Não é porque se tivesse lembrado melhor do rosto do tio, nisso ficara na mesma, mas era como se tivessem estado juntos, ainda que do tio não houvesse sinal que os sentidos pudessem captar. Também os dois nunca tinham sido de grandes falas. Dois homens que se conhecem há muito (um até tinha visto o outro crescer) não precisam de dizer muitas coisas, podem entreter-se cada um com a sua coisa, um jornal, um canivete que vai dando forma a um ramo de árvore, as palavras cruzadas, o calendário de jogos do campeonato, e passar uma tarde sem trocar mais do que três ou quatro frases, sem que nenhum se aborreça da companhia do outro. Tinham fumado muitos cigarros a dois, este fora mais um.

Certo é que aquilo lhe soube tão bem que passou a ir todos os dias. Deixava o cigarro aceso sobre a laje, via-o consumir-se, e ao sair deixava outro, por acender, no mesmo sítio. No dia seguinte o cigarro já não estava lá, sempre haveria alguém que o levasse para fumá-lo ou deitá-lo fora, o Zé Manel suspeitava que a viúva de três campas à esquerda os levava para o filho desempregado, mas não se importava nada com isso. A família achou o gesto um despropósito, “tem algum jeito, olha se chega aos ouvidos do padre?”, mas Zé Manel jurou que haveria de fazer a mesma coisa todos os dias enquanto lhe durassem as férias.

E para que o tio não voltasse a experimentar a mesma interrupção súbita de um hábito nocivo, deixou um volume de cigarros pagos no café e pediu à filha do dono, a única que lhe inspirava confiança, que levasse um, a cada dia, à campa do tio. “Se um dia te esqueceres ou não puderes lá ir, deixa-lhe dois no dia seguinte”, ainda lhe disse à despedida.

Se ela o fará ninguém sabe, mas queremos acreditar que sim.

Comments

  1. antonio cristovao says:

    belo conto.

  2. Orvalho says:

    E ainda ninguém lhe disse que o cigarro faz mal à saúde do finado ?

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