Autor convidado – Fernando Monteiro

O meu 25 de Abril

Fernando Monteiro

Eram sete e tal da manhã e dormia, na véspera dia 24 de Abril de 1974 tinha estado com o Benite o Virgilio Martinho e mais malta do Grupo de Teatro de Campolide no Goa a beber umas cervejas, muitas, e a fumar uns cigarros, muitos, quando sou acordado com safanões e gritos pela D. Ester, minha mãe, com um ar aflito a dizer “levanta-te filho tens que ir prá tropa que há uma revolução “oh mãe cale-se e deixe-me dormir” “é verdade filho estão a dizer na telefonia”, liguei o rádio e só ouvia marchas militares de permeio, coisa rara, com musicas do Zeca do Fausto do Adriano e do Fanhais, entretanto toca o telefone,  do outro lado do linha era um colega e amigo dos Serviços Cartográficos, “é pá estão a transmitir na rádio que está em curso uma operação militar e que todos os militares se devem dirigir para as suas unidades qué ca gente faz?” “É pá se estão a dizer isso a gente vai”, eu que era militar, mas pouco, afastei os lençóis, pus um pé fora do sofá-cama, morávamos numa vila operária não havia quartos para todos, depois o outro, passei as mãos pelos olhos para afastar as ramelas fui lavar a cara, não tínhamos casa de banho, vesti-me e fui prá tropa, cheguei à porta da tropa e estava fechada, isto já deviam de ser prái umas nove e tal da manhã, toquei à campainha e vieram abrir-me a porta “entra rápido” e eu entrei.

Lá dentro era um, alvoroço da parte dos oficiais uns fardados outros à civil, cirandavam que nem baratas tontas de um lado para o outro, devo dizer-vos que os Serviços Cartográficos do Exército era assim a modos que uma estância balnear do exército com a oficialagem quase toda afecta aos mandantes deste desgraçado país, lembro-me particularmente do Ferro e do Gabriel Teixeira, dois majores, sempre de gravata preta, devia ser para impressionar o patrão Marcelo, que estavam borradinhos de medo e às tantas se fecharam no gabinete de um deles a fazer não sei o quê mas a combinarem aderir ao Movimento não era de certeza, deviam estar a combinar uma estratégia de fuga, bem lixados estavam que eu e o resto da malta já tínhamos combinado não deixar sair ninguém, até tínhamos ido buscar as FBP, que eram três, e passeávamo-nos com elas ao ombro todos importantes, entretanto chegaram as treze horas, hora de abrir a porta, o daquela da tropa veio dizer que não se abria a porta mas alguém devia estar do lado de fora armado, eu claro ofereci-me logo, queria apanhar ares. Peguei numa FBP  e postei-me do lado de fora da porta, tive que me abrigar ligeiramente num umbral porque caia uma morrinha, a rua ao contrário do que o Movimento pedia estava cheia de gente passante com sorrisos no rosto, tinha soado a hora da liberdade, recebi montes de beijos e abraços a tropa ainda na véspera tão mal vista era agora herói da liberdade, as pessoas traziam cravos vermelhos e também eu tive direito a um, eu estava feliz o povo estava feliz, soube que no Carmo o Salgueiro Maia tinha o Marcelo e mais alguns da corja dominante cercados mas que a malfadada pide na António Maria Cardoso mesmo nesse dia de felicidade havia morto duas pessoas que soltas as gargantas das amarras da opressão gritavam vivas à liberdade abaixo a ditadura , a hora da liberdade não ia soar já tinha soado, era um facto que íamos ser povo, que íamos ser livres, acabava-se de vez com a guerra colonial, a pide, a legião a censura e todas essas merdas em que se alicerçava o regime caduco de velho e de velhos, “o povo saiu à rua num dia assim” e fez a festa, foi um dia feliz muito feliz posso dizer que com o 1º de Maio de 74 e o dia do nascimento do meu filho foram os dias mais felizes da minha vida, vivemos em liberdade e democracia durante alguns anos agora um bando de coelhos cavacos marilus e portas querem-nos tirar tudo, vejo a minha Lisboa pejada de pedintes e sem abrigos, vejo de novo crianças de pé descalço, vejo a fome e a miséria que nos assolam de novo, o 24 de Abril lentamente está a ser implantado mas este povo que tão letárgico está há-de acordar um dia e corrê-los a pontapé, não quero mais ver crianças descalças e gente de lábios cosidos, o medo teve o seu tempo negro e afastámo-lo, as trombetas soam nos meus ouvidos e dizem-me que é necessário um novo 25 de Abril mesmo que calhe a 31 de Janeiro, acordai povo revoltem-se portugueses porque queremos de novo “a paz o pão habitação saúde”, queremos de novo agarrar nas nossas mãos e fazer futuro, o futuro é nosso não é de meia dúzia de tipos de fato azul e gravata nem dos patrões estrangeiros que nos dizem que devemos empobrecer, o quê mais ainda? Eles julgam que mandam mas Portugal há-de ser uma Fénix renascida que não se deixa endrominar com tretas e falinhas mansas, quero sair para a rua e dizer que tenho num país não um colonato, não somos cobaias do fmi ou bce, somos um povo como muitos séculos de história, somos um povo que quer ser livres e feliz, porra.

Comments

  1. JgMenos says:

    «vejo a minha Lisboa pejada de pedintes e sem abrigos, vejo de novo crianças de pé descalço, vejo a fome e a miséria que nos assolam de novo…»
    Vês o que não vias em 25 de Abril de 1974!
    Fascismo nunca mais!!!

  2. Mia Flores says:

    As verdadeiras revoluções operam-se nas mentalidades e são essencialmente de valores: fraternidade=amor ao próximo!
    Enquanto, quem estiver na mó de baixo quiser ir para a mó de cima e vice-versa, o mundo não vai ser um lugar melhor. Basta olharmos à nossa volta, e vermos como a competitividade nas escolas, nos empregos, minam as relações entre pares a fim de conquistarem o seu lugar ao sol! Mais que bens materiais para “ter” precisamos de valores para “ser”!
    E sim, também eu com 19 anos em 74 chorei por acreditar num mundo melhor.

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