O 25 de Abril dos escroques

otelo
Estive na segunda-feira ao lado do Otelo, numa comemoração organizada pela Junta de Freguesia de Rio Tinto. Senti uma emoção contida. Contida porque, aos 43 anos, já não tenho idade nem disposição para me sentir arrebatado seja por quem for.
A verdade é que uma das maiores frustrações da minha vida é não ter vivido o 25 de Abril. Acabara de fazer 3 anos e, numa família de consciência política duvidosa, o acontecimento deve ter suscitado mais preocupação do que alegria. Diz quem se lembra que o meu pai, por esses dias, andava numa fona a rasgar tudo o que tinha em casa sobre salazar. Obrigava toda a gente lá em casa, ao que parece, a levantar-se quando começava o hino nacional com que terminava a emissão diária da rtp.
Sinceramente não sei se foi asim. O que sei é que fui criado segundo os ditames de um catolicismo do qual, hoje em dia, fujo a sete pés, e num ambiente de direita em que o psd era sempre a escolha no momento do voto.
40 anos depois, cá estamos a comemorar o 25 de Abril, como se realmente tivesse mudado muita coisa em relação ao dia 24. Enquanto os bravos Capitães faziam as suas comemorações num Largo do Carmo que foi palco e cenário de um dos maiores portugueses do séc. XX, no parlamento um bando de escroques, que ostracizou os únicos que realmente fizeram e quiseram a Revolução, debitava um conjunto de palavras ocas e lugares-comuns.
Da Esquerda à direita. Começando por um partido comunista hipócrita, que diz o que diz do nosso país mas é incapaz de erguer a sua voz contra os regimes assassinos da China e da Coreia do Norte; um partido socialista que deixou Portugal na bancarrota com a sua política corrupta e criminosa; um psd e cds que comemoram o 25 de Abril com a mesma alegria com que eu comemoro as vitórias do Benfica – para eles, durão barroso bem o mostrou há dias, o 24 de Abril é que era bom; um governo liberal que apostou no fortalecimento dos grandes grupos económicos, no empobrecimento do país e, de forma consciente, no fim de grande parte dos direitos sociais que constituem o legado de Abril – esse reles chamado passos coelho devia ter vergonha de usar o cravo na lapela; um presidente da república conivente e inexistente que, como primeiro-ministro, concedeu pensões a antigos elementos da pide ao mesmo tempo que as negava a Salgueiro Maia. E que, no discurso de hoje, a maior crítica que conseguiu fazer ao governo foi a de que o enriquecimento ilícito deve continuar a não ser crime e alto aí com o atrevimento de querer mexer com os seus amigos poderosos – os amigos das acções do bpn, os amigos da urbanização da coelha; e uma presidente da assembleia da república histérica e regateira para quem «o problema é deles» – eles, repare-se, são os que fizeram a Revolução, os mesmos que lhe permitiram ter uma reforma milionária aos 40 anos ao mesmo tempo que insulta os portugueses.
Lutar? Por quem? Pelos velhos que se ouvem em cada esquina a dizer que no tempo de salazar é que era bom? Pelos milhares de remediados que, em vez de olharem para quem lhes hipotecou o presente, vêem nos beneficiários do Rendimento Mínimo a raiz de todos os males? Pela maioria que há quase 40 anos vota sempre nos mesmos? Povo de merda, tens apenas o que mereces: uma classe política de merda.

Comments

  1. Ainda penso says:

    Confere.


  2. Pois é, pois é, mas o “segredo” da política é fazer um qualquer “povo de merda” acreditar que o Homem pode ser bom, generoso e solidário, e levá-lo a fazer por isso…


  3. Por mais que me custe admitir, concordo com este post. Temos o que merecemos e ouvir o pessoal na AR foi de dar vómitos. E foi para isto que os Capitães de Abril arriscaram tudo…

  4. JgMenos says:

    Os capitães de Abril arriscaram porra nenhuma!
    Fizeram Revolução nenhuma!
    Limitaram-se a abrir a porta a tudo que era interesse estrangeiro que cedo preparou quem os representasse eficientemente!
    Vamos passar 40 anos a pagar 40 anos de abrilada!
    Felizmente em liberdade, que é o que apesar de tudo sobrou.

  5. João Soares says:

    Povo de merda e também uma Merda de Povo !!!

Trackbacks


  1. […] convidado – Tito Lívio Santos Mota 25 de Abril de 2014 (Autor convidado – João Esteves) O 25 de Abril dos escroques O irrelevante nada Milagre Autor convidado: Cristina Torrão Autor convidado – Maria […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.