Outro Fado [Textos sobre música portuguesa III]

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© Clément Darrasse

Quando A Naifa surgiu, ninguém sabia muito bem como classificá-la, onde arrumá-la, se no faqueiro da avó, se no do Ikea, ou se noutro ainda. Quais seriam ao certo as virtualidades com significado para a música pátria d’A Naifa? E digo (escrevo) isto mapesar do Fado, que claramente habitava (e habita) a sua música, que era (e é) o seu chão, e das sonoridades tradicionais da terra portuguesa. Talvez por isso, e porque «trip-fado» definisse insuficientemente o género singular a que se dedicavam os músicos d’A Naifa, alguns preferiram cortar a eito e chamar-lhes «pós-modernos» – designação contudo também ela um bocado opaca, que apenas informava estarem eles «um bocado à frente», representando correntes ainda por deslindar em toda a sua extensão e significados.

Música de fronteira, chamêmos-lhe numa tentativa de explicá-la com palavras – de fronteira entre géneros e épocas –, a d’A Naifa tem sabido materializar os desejos e possibilidades musicais nascidos dos percursos e imaginários dos seus dois mentores: os guitarristas João Aguardela (precocemente desaparecido em 2009, e cujo luto em certa medida se eternizou na «aquisição» de Sandra Baptista, a sua companheira de sempre, como ele baixista) e Luís Varatojo. Fundadores de bandas como os Peste&Sida ou os Sitiados (e que deram corpo a projectos como Linha da Frente ou Megafone), A Naifa é sua filha, embora também de Maria Antónia Mendes (Mitó), a vocalista da banda cuja voz tem indiscutivelmente inscrito a sua personalidade na matriz do projecto.

Já mais recentemente, o pensador das coisas musicais Gonçalo Frota descreveu a música d’A Naifa como o feliz produto de quem se «barric[ou] num reduto de elegância, contenção e curiosidade rara pela poesia portuguesa contemporânea», evocando, com justeza, as palavras dos poemas que desde o princípio têm dado forma às canções d’A Naifa – temas em que que cabem as ideias mais sombrias e realistas do sofrimento metaliterário dos nossos poetas mais desalinhados, caso de Adília Lopes ou de Margarida Vale de Gato (esta última autora da maior parte das canções do disco Não se deitam comigo corações obedientes). Mulher ao Mar, o livro de poemas de Margarida Vale de Gato, deu o mote feminista e sensualista que, embora já viesse de trás, encheu ainda mais de líbido e de verdade femininas este último trabalho d’A Naifa.

Melancólicos como amiúde os mais punks (e todos os que secretamente sabem não haver futuro que não o que se constrói no presente, uma vez cabalmente feito o luto do passado, em nós esmagador), os elementos d’A Naifa sabem bem que a nossa portugalidade conhece hoje aquele que é porventura o seu mais alto momento crítico – não em si mesma, pois é eterna, e tem uma Língua falada por muitos mesmo, mas na sua capacidade para se reinventar ao gosto de outros tantos. Como ser hoje português e fazer música, eis aquilo a que parecem desejar responder desde o mítico Canções Subterrâneas (2004), quando exemplarmente se mostraram espirituosos como poucos, enquanto abanavam os pressupostos musicais e poéticos da canção nacional. Um outro Fado, em suma, ao som do qual muito se dançou e cantou em coro já, neste país onde até então o Fado quase só se ouvia no silêncio da sua gravidade anacrónica.

Comments


  1. “Se não é o grupo de fados e guitarradas mais atípico de sempre, é a banda pop mais portuguesa da actualidade.”
    por Manuel Halpern, há já alguns anos. Mas continua actual.

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