Sobre a cegueira: a ministra e a Justiça

justica1Estamos quase a comemorar as primeiras vinte e quatro horas do novo mapa judiciário. Trata-se de um conjunto de medidas coerente, se tivermos em conta o que tem sido feito na Educação e na Saúde: baixar os custos, recorrendo, sobretudo, à concentração de serviços.

A palavra “custos”, num mundo tão impregnado de economês, refere-se, apenas, ao dinheiro que se gasta e nunca às consequências que as decisões políticas podem ter na vida das pessoas, mesmo que o discurso oficial inclua expressões que transmitem a ilusão de que se está a servir as populações. Ora, não se pode planear um país sem se ter em conta todos os custos, sabendo-se, por exemplo, que poupar dinheiro pode originar problemas estruturais amanhã.

Não sendo um conhecedor dos meandros do mundo judiciário português, é com desconfiança que assisto àquilo a que a ministra da tutela chama uma “revolução”, a fazer lembrar a “implosão” prometida por Nuno Crato.

Ainda antes que o mapa judiciário complete as suas vinte e quatro horas de vida, já sabemos que houve uma falha no sistema informático, que não se conhece o destino dos tribunais encerrados (a escola mortuária poderá servir de inspiração), que ir a um tribunal pode demorar quatro horas (e a distância é dinheiro), que há funcionários que viram a vida virada do avesso e que há uma série de obras feitas por ajuste directo.

Noutros tempos, os mapas resultavam da descoberta de novas terras. Com o novo mapa judiciário, parece passar-se o inverso: as terras já conhecidas são apagadas. A cegueira é, agora, para além de uma virtude da Justiça, um defeito da ministra. Já não deve faltar muito para que a realidade seja mais disparatada que um disparate qualquer.

Comments

  1. José Peralta says:

    1 – Perante o patente fracasso da “reforma” da d. paula, perante a indignidade de enclausurar a Justiça em contentores, perante o falhanço da plataforma “Sitius”, perante o ridículo e degradante espectáculo do transporte atabalhoado de milhões de processos atirados “p’ró monte”, perante uma laje que ameaça colapsar por não aguentar o peso das toneladas de processos nela colocados,

    2 – Ainda temos de ver d. paula, patética, na Televisão, protagonizando esta trágica comédia, e dizendo, sem um pingo de contenção e vergonha, que “aceita críticas, mas não admite a mentira e a má-fé” !!!!!!

    3 – Se assim é, já experimentou, d. paula, dizer isso, cara a cara e olhos nos olhos, ao mais paranóico aldrabão, ao mais desbragado e patológico mentiroso que é o “seu” primeiro ministro deste desgoverno em putrefacção, deste circo de horrores a que d.paula pertence ?

    “Ofereço-lhe” este lembrete ! Diga-lhe, d.paula ! Diga-lhe !


    • Fico absolutamente fascinada, e porque não afirmá-lo mesmo, “extasiada”(!)…com alguns artigos e também comentários que elucidam inequivocamente os manifestos de indignação das pessoas perante as políticas vigentes, cada vez mais restritivas, em detrimento dos mais desfavorecidos… impostas por este DESGOVERNO!
      Perante o presente vídeo que acabo de visualizar, e na qualidade de profissional de saúde de há 25 anos a esta parte, apenas me ocorre dizer que este senhor, Passos Coelho, de seu nome, sofrerá indubitavelmente de uma das seguintes patologias que integram o rol das doenças mentais, que habitualmente designamos como psiquiátricas:
      – Mentiroso compulsivo!…
      – Amnésia recorrente, para uma passado recente!…O que só por si, já elucida a existência de distúrbios mentais com alguma gravidade…
      – Personalidade bipolar – face às diferentes posturas que assume recorrentemente e de forma convicta, em curtos períodos de tempo…
      E…a clarividência de tais distúrbios sugestivos, implicam o tratamento adequado: fundamentalmente, medicação anti-psicótica…porque, a bem dizer, mesmo com psicoterapia…SERÁ “UM CASO PERDIDO”!

  2. Joam Roiz says:

    Toda a gente informada sabe que esta “reforma” só vem beneficiar uma meia dúzia de escritórios de grandes advogados que operam nas antigas capitais de distrito. Os pequenos advogados de província sérios e que servem as populações locais são brutalmente prejudicados. Mas, em toda esta “reforma”, o que ressalta é a denegação de justiça feita aos mais pobres e aos mais isolados. Ou seja, o Estado de Direito desaparece numa grande parte do País. Trata-se mais uma vez de mostrar serviço aos nossos colonizadores alemães e ao capitalismo financeiro que nos reduziram a um mero protectorado. Mas que mais se pode esperar de uma classe política que desde o 25 de Novembro nos começou a vender ao estrangeiro? Sem espanto, aliás. Se olharmos para a nossa História, as elites políticas e intelectuais tiveram quase sempre este comportamento. Na crise de 1385, a maioria da nobreza passou-se para Castela, mas aí havia um povo orgulhoso que apoiou o Meste de Avis e o levou à vitória em Aljubarrota; em 1580, um povo “cansado” de Descobertas, sem delas receber qualquer proveito, já não teve força para seguir D. António, Prior do Crato. A Restauração de Portugal começou no povo, com a revolta do Manuelinho em Évora e foi o sangue do povo, derramado durante um quarto de século na guerras com Castela, que permitiu a D. João IV manter o seu reinado e independência. No fim da segunda metade do Séc. XIX, os Vencidos da Vida, a elite pensante do País, era pró-iberista (mas ao menos esses eram cultos e não como os políticos de agora que censuraram um livro de Saramago e não sabem quantos Cantos têm “Os Lusíadas”). Valeram os republicanos, não exactamente só aqueles que os manuais costumam apontar, mas outra vez o povo – junto coeso e tenaz nas suas associações e organizações legais ou ilegais, com especial relevo para a Carbonária e, em parte, a Maçonaria – que foi verdadeiramente quem implantou a República e verteu o seu sangue para a defender contra os restauracionistas monárquicos de Paiva Couceiro. Foi também o povo que “fez” o 25 de Abril, transformando aquilo que começou por ser um mero golpe militar, num movimento quase telúrico de toda uma gente que só queria para si a reconquista da sua própria dignidade: “a paz, o pão, habitação, a liberdade…”. Agora é o que se vê: um povo amolecido, embrutecido e alienado pela propaganda capitalista neo-liberal, mas que um dia, “Levantados do Chão”, varrerá toda esta escumalha para o caixote do lixo da História. Com os meus sessenta e cinco anos, tenho ainda a esperança de o poder ver.
    Que não fique deste texto a ideia de que faço a apologia de um certo patriotismo ou nacionalismo “chauvinista”. Pelo contrário, sendo um homem de esquerda radical, o meu patriotismo incorpora e só pode realizar-se num quadro internacionalista de igualdade e solidariedade entre todos os povos e todas as nações.

  3. Rui Moringa says:

    Há um aspcto que me deixa perpelexo, nesta ideologia toda. Falam para o Povo, como se fossemos atrasados mentais, ou seja, intrumentalizam-nos afirmando que o tal mapa judiciário é uma coisa boa, reduzindo custos, como se os custos fosse a única variável na equação do Povo.
    Apesar do funcinamento do tribunal ter um custo é be verdade que ele tem uma função económica e social ineludíveis, cujo benefício não é medido pelas teses do economês.
    Se levassemos longe este tipo de raciocínio poderemos antever que uma crianaç tem custos, que um velho tem custos, que um desempregado tem custos e, o que se faz? incenera-se?!!!
    Ah, e os políticos não têm custos!!!!!
    Bem sei que esta gentes que manda não tomou o poder com armas. Foram muitos portugueses a maioria dos votantes que os elegeram. Infelizmente todos temos de os aguentar. Temo apenas quie o descernimento do Povo seja perturbado pela propaganda acéfala. Pasmo como ainda há gente a participar nos eventos organizados por essa gente que manda. Pagam-lhes o lanche, o almoço, outras coisas! Bem, nãosão capazes de dizer não. Deixam-se atraír por um prato de lentilhas?! Um Homem ou Mulher dignos prezam a sua autonomia e não se deixam instrumentalizar. Digo eu que sou um idealista… Acredito que a nossa dignidade, o diálogo, pode ser bos caminhos para o nosso futuro colectivo. De outra forma,se tudo é permitido aos que manda, o que andamos aqui a fazer e de que estamos à espera?!!!

    • José Peralta says:

      “Pagam-lhes o lanche o almoço e outras coisas ” e no “meet” de uma semana que está a decorrer, e a que eufemísticamente, chamam “universidade de Verão”, têm “professores” como o sinistro “erudito” marco antónio costa e…antónio victorino e rui tavares, (em “pulhítica” vale tudo !!!!) além dos marc(t)elos do costume, incluindo os dois mentirosos compulsivos coelho e albuquerque !

      Por aqui se pode aquilatar da “classe pulhítica” que aquele aviário costuma parir…

      • Joam Roiz says:

        Muito bem, José Peralta. E quanto à “reforma”, ela não tem já a ver com a austeridade ou com a diminuição da dívida. Representa a subjugação do País a interesses que não são os nossos e de quem este (des)governo é um mero capataz.

  4. el portela says:

    Tinhas razão velho esquecido..
    “Quanto mais civilização mais desigualdade”!.
    .
    Porquê? Porque desde desde Vímara Peres até Merkel, são as “élites” quem conduz a manada. E quando as élites são o que são, dá nisto.São eles os vencedores, são eles que fazem(escrevem) a história.
    .
    ” Jean Jacques Rousseau.em “O Fundamento da Origem da Desigualdade Entre os Homens”.

Trackbacks


  1. […] Sobre a cegueira: a ministra e a Justiça. […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.