Olha o fado

Quem chega cedo à taberna (ó bela palavra que agora só me apareces com o penduricalho “gourmet”) ainda apanha os fadistas na esplanada, mesmo em frente ao rio. E é fácil reconhecer a mesa da fadistagem. Há os bazofeiros, que peroram sobre o fado, porque eles sabem o que é o fado, e como é que se canta o fado, e onde é que se aprende a cantar o fado, e já precisam dos dedos das duas mãos para contar as cenas de pancadaria que viveram por causa de um fado menor. Há os melancólicos, que não dizem nada e bordam com o dedo no tampo da mesa as palavras que mais os ferem. Há as jovens promessas, que ouvem em silêncio os mais antigos, umas deslumbradas, outras reticentes, e percebe-se logo, só pelo jeito, qual das novas estrelas do fado têm por modelo.

E há os que já não cantam, ficou-lhes um fio de voz, mas acompanham com o corpo, com um jeito de ombros, um suspiro. Foge-lhes o fado do corpo, e é como se lhes fosse o sopro da vida, uma coisa triste de ver, e por isso os cuidam tanto os actuais fadistas, achegam logo uma cadeira para eles, e procuram não deixar que a velhice os roube demasiado depressa.

– Ó Costa, iogurte?! Vais lanchar um iogurte?! Tu assim estragas-te, pá. Come uma isquinha, bebe um copo.

Que é como quem diz, não te entregues já.

Vêm às terças à tarde, aos sábados à noite, aos domingos, seja quando for que os convoquem, aproveitam todas as oportunidades. Cantam com o sol a bater ainda no varandim sobre o rio, não precisam que a noite caia, não fazem exigências. Vêm para cantar o fado e é como se com isso juntassem dois ou três dias de vida ao rol daqueles que lhes tocaram viver.

Nunca agradeceremos o suficiente a esses fadistas amadores que apanham o autocarro em Fânzeres, Valongo, Perosinho, subúrbios sem tradição fadista, que são mecânicos, floristas, reformados, que poucas vezes ou nunca passaram pela Mouraria, quem sabe só aquela vez em que se detiveram especados frente à placa da Rua da Palma, e olharam a rua com assombro e incredulidade, tão pouco lhes parecia para o tanto que haviam imaginado.

Fado vadio, com fífias, vozes quebradas. Velhinhos que se levantam a custo e avançam com passos trémulos e se transfiguram aos primeiros acordes das guitarras, e começam a desfiar histórias antigas, solidões, amores traídos, a mãezinha que partiu, as noites negras de breu. Moços e moças bronzeados, que jamais imaginaríamos fadistas, ainda há pouco agarrados ao smartphone, e agora a cantar o “Oiça lá, ó senhor vinho”, todos gingões.

E uma audiência respeitadora, a mesma que ainda há pouco falava alto e pedia mais um prato de papas de sarrabulho, e agora mantém-se calada e melancólica até irromper num “Ah fadista!” que os salva da lagrimazita que esteve quase a cair.

E hão-de despedir-se todos até à semana que vem, há sempre um fadista que tem de sair mais cedo para ir apanhar o autocarro, outro que se demora à espera que saia um pratinho de bucho com cominhos, alguém que propõe um último brinde, que para a semana sabe-se lá se ainda cá estamos, e quando a taberna fechar ninguém sairá daqui sem a alma aquecida pelo fado vadio.

E agora digam lá vocês também: “Ah fadistas!”

Foto: Michael Sonnabend

Comments


  1. taberna da piedade

  2. Orvalho says:

    Ah tigresa!
    Ah escrita linda !!

  3. António Fernando Nabais says:

    Ah escritora! Ah teclado abençoado!


  4. Ah bocas lindas!

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