Professores e a desORDEM

Lugares comuns há muitos e são sempre um ponto de vista respeitável até porque, por definição, são vistos a partir de um ponto. Entendo a existência de imensos lugares comuns entre os  professores porque, numa classe com cem mil pessoas, há sempre uns mais esclarecidos que outros.

E um dos lugares mais comuns é o da necessidade de existir uma Ordem Profissional para que a classe se possa mostrar mais unida. É um argumento que, por inexistência de prova, pode ser apresentado, mas a classe, sem Ordem, já deu vários sinais de unidade nos últimos anos. A greve aos Exames o ano passado foi o mais recente.

Ora, neste lugar comum da ordem, parece-me que os professores se esquecem de duas coisas:

a) há profissões com Ordem que continuam a ter sindicatos porque as questões sócio-profissionais são discutidas com os sindicatos e não com a Ordem. Quase todas as questões que os professores colocam são da esfera sindical e não da Ordem. Isto, de acordo com a Lei.

b) a Ordem tem duas funções fundamentais: auto-regular a profissão e mediar a relação entre o prestador de serviço e o cliente. Isto é, um médico trata com o seu sindicato as questões laborais que tem com o Ministério ou com a Clínica Privada, mas na sua esfera de actividade com o paciente, aí surge a Ordem para mediar.

No caso dos professores, por ausência de clientes, nenhuma destas questões se coloca. Parece-me, pois, que não há qualquer enquadramento legal para a existência de uma Ordem entre os Professores porque, repito, os pontos que se colocam são da esfera laboral (concursos, horários, componente lectiva, etc…)

Mas, para azar dos lugares comuns, apareceu em cena um senhor que fez copy past e que se esqueceu da origem na área de transferência.

Ao contrário do que alguns dizem, não vamos, nas escolas, sentir qualquer falta do EX. O EX é um senhor que um dia fez o curso de Professor e que depois andou a saltitar de gabinete em gabinete até ao salto final que algumAs, coitadAs, sonhavam ser a cadeira de sonho. Não foi e não será.

Foi com ele que as turmas subiram para 30 alunos, foi com ele que os meninos com necessidades educativas especiais deixaram de ter apoios.

Foi com o EX que a PACC entrou. A PACC era (é?) o instrumento fundamental do EX porque com o exame realizado tinha o dispositivo que precisava para controlar o acesso à profissão e assim abrir as portas à Ordem.

Se a ordem que ele queria criar com a Ordem foi esta DESordem, então eu prefiro que o sistema educativo fique sem Ordem para que a Ordem, de facto, seja uma realidade nas nossas escolas.

Comments

  1. Ana Pinto says:

    Ele já era da Pró-Ordem!


    • Ora aí está. Um dos mais destacados defensores da coisa, depois daquele do lacinho, que confesso, não me lembro o nome. Ainda bem que ficou agora tudo muito mais claro.


  2. Cometes aí um erro ou dois em relação ao enquadramento legal de uma Ordem dos Professores.
    E vais no lugar comum de ir pela dicotomia sindicatos/Ordem, algo que tu próprio considerar que não se aplica.

    O que a mim admira é o MEDO imenso que exista, um destes dias, uma Ordem que auto-regule o acesso à profissão a partir da certificação dos cursos e não de uma PACC ou que retire ao MEC o poder de inspeccionar a actividade docente, na sua relação com os alunos e as famílias… porque a questão do código deontológico não tem muito aver com os pecadilhos de um dirigente associativo, assim como o sindicalismo docente não deve ir borda fora por causa dos pecad(ilh)os de vários dos seus dirigentes.


    • Sim, concordo, que não é uma andorinha que faz a primavera, apesar de ter visto ontem três a passar aqui por perto, no dragão, creio… Agora o comentário, a dicotomia só faz sentido porque boa parte das pessoas (nossos colegas) que coloca a questão, acabar por referir, em oposição os sindicatos. Uma coisa e outra não são opostos. Concordo. Quanto ao MEC a meter “menos a mão”… Aí, confesso, tenho as minhas dúvidas. O que sugerias? A Ordem? Ou uma regulação externa à profissão? Ou? Não sei, nunca pensei muito nisto, mas confesso que me sinto tentado a manter a relação que existia entre as Universidades (formam) e o Ministério (patrão que emprega) sem “coisas” pelo meio. Quanto ao Ex, de facto, há aqui a norte uma espécie de pena pelo boy que se perde, mas na prática estamos perante alguém que foi parte e grande do problema.
      JP


  3. As organizações sindicais com relevância são a parte que a direita neoliberal não controla.
    A dita Ordem é a forma elitista em que os direitolas apostam, para que o zé veja no professor um inimigo de classe.
    … a dita já existe no C nadá!

  4. h5n1 says:

    Curioso como alguns só se conseguem enxergar enquanto proletários do Estado, e sentem orgulho nisso…

    • António Duarte says:

      Ainda mais curiosa, para não dizer outra coisa, é a ideia de que pagando quotas a uma ordem os professores serão menos “proletários”, o que quer que isso queira significar…

    • Dora says:

      É capaz de ter razão numa coisa, h5n1: uma ordem é muito mais chic.


      • Nunca poderei exigir que uma galinha se comporte como uma águia. Mas a ideologia do galinheiro afinal interessa a quem?

        • António Duarte says:

          Não me parece que a questão seja ideológica; aliás nos tempos que correm as ideologias servem sobretudo como propaganda e embuste das reais intenções de quem ambiciona o poder do que como real inspiração da acção política.

          E o que falta explicar é a forma como, ao somar à tutela ministerial de que nunca se irá livrar, a tutela de um dito bastonário, as galinhas se transformarão em águias.

          • h5n1 says:

            O simples facto de se recusar liminarmente uma Ordem, revela um certo modo de pensar, uma vontade de permanecer na órbita da funcionarizacão e da proletarização acelerada.
            Mas também concordo que a Ordem, só por si, não resolverá o problema que está na relação de dependência absoluta do Estado, com ou sem correias de transmissão.

          • António Duarte says:

            Recuso a ordem antes de mais nada porque não acredito na liberdade imposta, não quero um homem ou mulher de bastão em punho a mandar em mim e acho aberrante que outros se sintam no direito de me obrigar a inscrever numa organização corporativa e pagar as respectivas quotas para poder exercer a minha profissão, aquela que exerço há três décadas consecutivas e para a qual duas universidades atestam a minha qualificação científica e pedagógica.

            Ser funcionário, neste caso do Estado, é outra coisa, e ao contrário de alguns colegas eventualmente complexados por estas coisas, não me perturba ser simultaneamente professor e funcionário público nem exercer por conta de outrem uma profissão intelectual.

            Direi mais, tendo de optar entre ser professor-funcionário ou professor por conta própria, preferiria sempre a primeira opção, pois embora trabalhe para eles e sendo eles a razão de ser da minha profissão, não gostaria de ter de encarar os meus alunos como meus clientes.

          • h5n1 says:

            Estranha forma de pensar a existência, quando a escravatura assalariada é elevada à liberdade de servir o Capital!

            Talvez se acredite, sem complexos, que o capitalismo representa o fim da História, e então fará todo o sentido aceitar a exploração e a alienação do trabalho, colaborar no reforço do aparelho ideológico da educação, a Bem da Nação e da Nomenklatura!

          • António Duarte says:

            Não sirvo o capital, tanto quanto se pode ser livre de o servir na sociedade capitalista em que todos vivemos.
            Sirvo os alunos e a comunidade educativa para a qual trabalho e o meu patrão é o Estado, ou seja, a sociedade politicamente organizada. Enquanto vivermos em democracia, penso que poderei até afirmar que o meu patrão é o povo…

          • h5n1 says:

            O António Duarte joga com abstracções, como se a natureza do Estado fosse indiferente ao poder económico e ao agentes que o controlam.

            É a isso que se chama de intoxicação voluntária e acho bizarro que se insista numa falácia de cariz psicologizante.

  5. António Duarte says:

    As minhas objecções a ser metido na ordem, que não são de agora, começam na repulsa instintiva que sempre tive em relação a coisas obrigatórias. Não gosto da converseta moralista da ética&deontologia que serve a demasiados oportunistas, nem nunca me pareceu que a resolução dos grandes problemas da classe passassem por aí.

    E depois há a questão a ordem versus sindicatos. Claro que são coisas diferentes e que há classes profissionais que têm ambas e entendem-se bem, com cada macaco no seu galho. Só que entre os professores a tentativa de criar uma ordem teve na sua génese um claro impulso anti-sindical, e para muitos, mais do que as questões deontológicas, o que lhes interessava era retirar poder a líderes sindicais que detestavam.

    E depois o ser pró-ordem acabou por ser mais um pretexto para a criação de sindicatos-fantoche, organizações que beneficiavam e beneficiam dos direitos previstos na lei sindical sem nunca assumirem perante a classe as obrigações de verdadeiros sindicatos, porque afinal o que eles supostamente pretendem não é serem mais um sindicato, é formar a ordem.


  6. O colega Paulo Guinote avança noutra linha do lugar comum – a do MEDO.

  7. Luis says:

    Ficando um dos putativos bastonário de fora por alguns tempos, abre-se uma janela de oportunidades para várias ofertas para o cargo.

  8. Urso says:

    Ordem dos professores com o Crato a Bastonário a bastonário.
    Aprovo.
    E com liberdade total de voo.
    É isto.


  9. Resumindo, h5n1,

    – a não existência de 1 ordem faz do pessoal “proletários do estado” e “galinhas”;

    – a existência de 1 ordem faz do pessoal águias e não colaboradores “no reforço do aparelho ideológico da educação, a Bem da Nação e da Nomenklatura!”

    Sendo o seu nick o do vírus das aves, até que faz sentido esta incursão pela metáfora do galinheiro versus o das águias livres da Nomenklatura e do capital, mesmo que lhe enfiem um barrete preto na cabeça e a acorrentem e a exponham em vários parques temáticos e no estádio do glorioso.

  10. h5n1 says:

    A manipulação dos textos é uma técnica mesquinha.
    A Ordem é irrelevante na minha perspectiva e nas minhas intervenções isso mesmo é referido.
    O que considero essencial é o apego a uma certa ordem capitalista que reduz os seres humanos a mercadorias bem pensantes e gratas por servirem o sistema que as escraviza.
    Daí a metáfora das galinhas e das águias.


  11. Também considero que a Ordem é irrelevante.

    O que posso entender por ” uma CERTA ordem capitalista que reduz os seres humanos….”?

    Qual é a OUTRA?

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.