Os exames de inglês/Cambridge e o preço para os portugueses

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O custo de algo não se resume a um número, traduzido num valor monetário. Lugar comum, sempre ouvimos dizer que a vida não tem valor, apesar da afirmação de Pedro Passos Coelho, enquanto chefe deste governo, lhe colocar um tecto por não se salvar alguém “custe o que custar”.

O conhecimento, outra coisa invalorável, acaba também por estar associado a aspectos que têm um preço perfeitamente quantificável, sendo um deles os mecanismos de medição, ou melhor, de gradação, desse conhecimento, como é o caso dos exames. 

Quanto custam esses exames de inglês, franchisados pela Universidade de Cambridge, que Crato decidiu trazer para o sistema de ensino português? Nada, dirão aqueles que acreditarem na boa fé do governo, que aventou essa ideia sobre os ditos exames não terem custos para os portugueses.

E no entanto, pela legislação que saiu esta semana, ficámos a saber que cada escola tem que nomear um certo número de professores de inglês para assegurarem a realização deste teste (1 professor por cada 60 alunos), já que no ano passado foi a bronca que foi por ninguém estar virado para voluntariado, especialmente depois de anos a fio a serem mal tratados pelos diversos ministérios da educação. Cada um destes professores terá que assegurar até 8 sessões, num total de 32 horas, a realizar em 4 semanas (cerca de 20% de um mês de trabalho). Estas sessões servirão para realizar as orais das provas, tendo os professores envolvidos dispensa da actividade lectiva e não lectiva, o que na prática significa que estes exames têm prioridade sobre a actividade lectiva ou outras que estejam a decorrer (por exemplo estudo acompanhado, planos de recuperação, etc.).  Segue-se a correcção das provas escritas, não estando neste momento planeado esforço desta actividade, contrariamente às orais, as quais estão detalhadas no despacho em causa. Mas sabe-se que decorrerão desde Maio até final de Julho, estando também prevista a dispensa da actividade não lectiva, ou seja, qualquer actividade que o professor tenha na escola passa a secundária face a estes exames. Há ainda o custo das deslocações dos professores, o qual é suportado pelas escolas, isto é, pelo orçamento de estado.

Destes números todos resulta, claramente, que os exames de inglês da Universidade de Cambridge têm um custo facilmente calculável e que este é suportado pelo estado português. Têm ainda outros custos associados, como o  que resulta de se perturbar a actividade lectiva, de se interromperem outras actividades que estejam em curso na escola e de canalizando esforço das actividades da escola para esta outra actividade.

Mas, dir-me-ão, não é um mal menor face aos ganhos para os alunos? A resposta curta é não. Para a resposta mais longa é preciso ter em conta que a nota que os alunos tiverem nesta prova não contará para a sua avaliação, estando professores estão impedidos de usar os resultados obtidos como parte dessa avaliação. É da natureza humana ignorar algo que não tenha valor e, não servindo a prova para avaliar os alunos, obviamente que a vão ignorar, não se preparando para ela.

A existência ou inexistência deste exame tem, em termos pedagógicos, o mesmo resultado. Sendo um exame de 9º ano, também em termos académicos e de mercado de trabalho tem valor nulo, até porque os alunos têm, por lei, de continuar na escola até ao 12º ano ou até fazerem 18 anos, altura em que este exame intermédio está completamente ultrapassado. Já em termos de custos, como se demonstra, a situação é completamente diferente.

Para que insiste então Crato neste exame? Para além da resposta óbvia, porque é incompetente, é de se acreditar que a prova é uma arma de reforço da privatização do ensino, contribuindo para a criação de uma marca e de um mercado que, até agora, não tinha lugar. Esta é, acredito, a verdadeira razão da existência desta anormalidade, a de se criar  a oportunidade de negócio para um grupo específico. Nada existe de educação neste negócio.

Comments

  1. Fernanda says:

    De repente, a educação começa a enCambridgar-se.

    Ele é PEt para aqui e o Key para acolá, ele é o First certificate e mais o Advanced e mais o Proficiency. E o quadro europeu de línguas e o nível A, A1, A2, B1, B3, C, C1, C3 e por aí fora, até ao Z que é o nível de Sua magestade e do Cameron.

    Agora, os profs de Inglês só serão reconhecidos se participarem nesta enCambridgação.

    As editoras também se enCambridgaram.

    A minha maior denúncia é a coitadinha da Oxford.

    Para quando 1 Oxfordização de alunos e profs?

    E uma Goethização e Cervantização? E uma Beiijização?

    Acabem-se com as universidades portuguesas!

    Avante por Cambridge!

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  1. […] está o que se adivinhava. Privatização dos exames, agora em segunda etapa, a seguir alargando a mais anos e outras […]

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