A grande desilusão

Os filhos aspiram a ter uma profissão, a sua própria casa, a sua independência, sem que isso implique menos afecto pelos pais. É natural que seja assim. Não é natural que os pais tentem travar o legítimo direito dos filhos, entrando em disputas que deixam marcas de injustiça e amargura. O mesmo acontece com os territórios coloniais em que quem os descobriu encontrou povos com a sua maneira de viver. Povos que, digamos assim, passaram a ser filhos adoptivos das potênciais coloniais. Quando esses povos atingiram a maturidade (ou a saturação) e quiseram ser independentes, bem andaram as potências colonizadoras que negociaram, garantiram os seus interesses empresariais e a presença em segurança dos seus residentes, não se deixando enredar em guerras que abriram as portas à corrupção, à violência, ao abuso, envenenando o clima de bom entendimento entre os velhos países e os novos países.

Portugal enredou-se numa guerra longa, porque o ditador, julgando-se superior a tudo e a todos, não quis dialogar com os dirigentes dos movimentos independentistas. Com essa atitude, e porque as guerras são caras, levou a que um milhão de homens portugueses, na força da vida, tivesse emigrado para não ter de arriscar a vida numa inglória guerra de emboscadas para, ao fim, e ao cabo, defender as propriedades, tremendamente vastas, que possuíam nas colónias as famílias que se tinham por donas do país: Espírito Santo, Mello, Vinhas, etc. O povo tinha a noção disso e estava farto de fome e carências de toda a ordem em território nacional. Bateu com a porta. Foi mau para Portugal e mau para as colónias, porque a guerra gerou torvas ambições dum lado e do outro, corporizadas em cavalheiros de indústria capazes de tudo. Os jovens africanos que fizeram os seus estudos em Portugal e noutros países, não voltaram.

Pude verificar isso num congresso realizado em Lisboa, há uns bons anos, destinado a ser o ponto de encontro dos quadros angolanos residentes no estrangeiro e, ao mesmo tempo, uma tentativa de os aliciar a voltar a Angola. Os anfiteatros rebentavam pelas costuras de médicos, engenheiros, advogados, professores e outras profissões, vindos de vários países da Europa, dos Estados Unidos da América, do Canadá, do Brasil. Com visível alegria saudaram o Cardeal Alexandre do Nascimento e abraçaram-se uns aos outros. Mas quando, na recta final, depois de expostas as carências do novo país, foi transmitido o convite do embaixador de Angola para que todos se juntassem a ele num outro local de Lisboa, abandonaram a sala, secamente, indignados. O MPLA, que a intolerância do governo português empurrou para os braços gulosos da União Soviética, não gozava da confiança nem do apreço daquele auditório. Essa ausência de quadros qualificados na construção do novo país foi dramática. O tempo se encarregaria de dar razão aos que não quiseram voltar. Quarenta anos passados, com o MPLA de pedra e cal no poder, mesmo depois da queda da União Soviética, têm um saldo que fala por si: quatro milhões de angolanos com fome, para quem a ONU procura auxílio, e uma reduzida élite de ultra-milionários que compra tudo o que vê no estrangeiro, o que parece indiciar que não confia no futuro da sua terra.

Na edição da semana passada,o Financial Times, de Londres, afirma que Angola é uma cleptocracia (um regime de ladrões), com terriveis injustiças sociais, e que “os seus dirigentes são uma élite indiferente ao resto da população”. E adianta que “os oligarcas angolanos habitam a economia do luxo global das escolas públicas britânicas, dos gestores de activos suíços, das lojas Hermés, et.”. Muitas das figuras de topo do MPLA formaram-se na União Soviética e os seus filhos nasceram ali ou em países satélites. Que podem eles saber da Angola real?

Um dia um cirurgião canadiano, missionário de uma igreja protestante trabalhando em Angola, contou-me que foi contactado por um governante de Luanda para receber a sua filha recentemente formada em Medicina por uma universidade inglesa. A menina chegou à missão, onde foi recebida pelo médico e sua família, declarando que queria trabalhar em Angola. Três dias depois, o médico convidou-a a acompanhá-lo na habitual visita que fazia a doentes residentes nas sanzalas. E foi um inferno. Enquanto o médico observava doentes, e os familiares, gratos, tocavam respeitosamente nele, a jovem doutora virava a cara ao lado e tapava com a mão a boca e nariz, cheia de nojo.  Regressados à missão, o médico teve uma longa conversa com a menina e quis saber o porquê daquela reacção. Resposta: “eu não sabia que em Angola era assim”.  Sensato, o canadiano aconselhou-a a trabalhar num país europeu para não insultar o seu pobre povo. Sensatamente, a rapariga fez as malas.

Angola tem solução? Creio que sim. Mas primeiro vai explodir, como se pode ver por alguns dos seus jornais.

Comments

  1. Nightwish says:

    ” afirma que Angola é uma cleptocracia (um regime de ladrões), com terriveis injustiças sociais, e que “os seus dirigentes são uma élite indiferente ao resto da população” ”

    Imagino a que mais países se possa aplicar essa classificação…

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