Postal de Sevilla #4…

… … que não é um postal de Sevilha

Tal como o anterior, este postal vai escrito a partir de Aveiro. Não é um postal de Sevilha porque não foi escrito em Sevilha e porque as fotos não são de Sevilha (mas espero que, pelo menos, sejam de Espanha, o que é difícil de dizer ao certo a não sei quantos pés de altitude, a bordo de um avião minúsculo, desta vez chamado Gaio).
Não gosto particularmente de andar de avião, já vos disse de outras vezes. Menos ainda de andar em aviões minúsculos mesmo que tenham nomes de pássaros simpáticos. Também não gosto de viajar à janela, ao contrário, penso, da maioria das pessoas. Não aprecio a vista porque, mais a mais, tenho vertigens e fico enjoada quando olho para baixo e vejo os minúsculos pontinhos das casas, ou as grandes serras transformadas em colinazinhas sem qualquer importância ou os grandes rios transformados em pequenos risquinhos azuis. De qualquer modo reconheço que, dali de cima, tudo o que se vê abaixo parece desenhado perfeita e rigorosamente. Como num mapa. E eu gosto de mapas. E desta vez, a bordo do Gaio, atrevo-me até a tirar umas fotografias.

Levantei-me mais tarde do que nos dias anteriores, em Sevilha. Eram umas 11 horas da manhã, depois de me ter deitado às quatro e meia. Perdi o pequeno almoço e as últimas despedidas do Andoni, do Jesus, da Txus e da Elvira. Levanto-me meia entontecida e cheia de tosse. A tosse é uma coisa horrível quando se entranha, parece que nunca mais passa. E numa fumadora como eu, pior. Tusso o que tenho a tussir, arrumo as coisas na minha pequena mala. Tomo banho, visto-me e saio do hotel pouco passa do meio dia para encontrar um café onde tomar o pequeno almoço perdido. Está imenso calor enquanto cruzo a praça de Carmen Benitez, que não sei quem foi. Encontro um café simpático, com uma esplanada, logo ali ao virar da esquina. Todos os lugares da esplanada estão ocupados e entro. O café tem uns tetos altíssimos e há uma ventoinha. Tem um certo ar sul americano, com azulejos nas paredes, um enorme balcão atrás do qual se afadigam dois empregados. Um batido de morango que, afinal, é de garrafa (e que não é nada de especial) e uma tostada com queso. A seguir um café e uma água, estes já na esplanada de onde entretanto saíram algumas pessoas.
Na esplanada estão famílias e casais. Gosto, já se sabe, de observar as pessoas e de ouvir o que dizem. É domingo e as pessoas estão ali a bebericar coisas, sem dizer nada de especial, apenas o que se diz aos domingos com muito sol e calor, às pessoas de quem se gosta. Fico ali um grande bocado. O comboio é apenas daqui a uma hora e meia e a estação é perto. Recolho a mala do hotel e vou para a estação. Entro no comboio que parte à hora marcada, numa pontualidade de máquina. O Ave das 13h45 Sevilha-Madrid não faz paragens intermédias. É fresco e confortável. Adormeço quase imediatamente e perco quase todos os campos amarelos onde as vacas e as ovelhas se tornam praticamente invisíveis. Quando acordo estamos já muito perto de Madrid. A viagem são 2h20 e eu devo ter estado acordada uma meia hora, se tanto, contando com a entrada e a saída. Mas quando acordo ainda vou a tempo de ver campos menos amarelos, salpicados de árvores de copas redondas, não sei se sobreiros, se azinheiras, se o quê. Só consigo distinguir, quando se trata de árvores, os castanheiros, os plátanos, os chorões, os pinheiros bravos e mansos e as oliveiras. Tenho pena desta ignorância mas é a verdade.
Na estação de Atocha procuro a plataforma onde devo apanhar o comboio para o terminal 4 do aeroporto de Madrid-Barajas. Naturalmente encontro-a sem qualquer dificuldade. A viagem demora cerca de 30 minutos e não adormeço. À minha frente um bebé alemão e os seus pais e tia (a mãe e a irmã são visivelmente espanholas, o pai é visivelmente alemão) aprende a dizer ‘hola, que tal?’ e consegue e é muito engraçado, muito branquinho e loirinho com uma vozinha rouca… ‘hola, que tal?’. Às vezes tenho pena de não ter tido filhos, mas passa-me depressa. Chegam-me os filhos dos outros e os bebés engraçados a quem aprecio, justamente, as graças, nos comboios que me conduzem aos aeroportos. No terminal 4 apanho um autocarro para o terminal 2. Faço o check in em sossego. Como. Reparo que já não tusso há muito tempo, apesar de me doer um pouco a garganta e estar completamente rouca. Em Madrid o calor continua. E ainda está calor quando às 19h entro no Gaio que me trará ao Porto. A viagem faz-se sossegadamente em menos de uma hora, da qual durmo a maior parte.
Quando aterro no Porto está um frio do caraças. 18 graus diz-me o telemóvel. Parecem 15 ou menos. Vou para Campanhã apanhar outro comboio para Aveiro. Em Aveiro está ainda mais frio que no Porto e cai uma morrinha lenta. São nove e meia quando entro no sítio mais familiar de todos: a minha casa, mesmo se por estes dias, algumas coisas perturbam o seu sossego e, consequentemente, o meu. Não sei dizer se o meu coração aqui está. O coração tem muitos quartos, já dizia o Gabriel Garcia Marquez n’ O Amor em Tempos de Cólera. ‘”El corazón tiene más cuartos que un hotel de putas”. Um dos quartos está seguramente aqui, neste cantinho da Ibéria, chamado Aveiro, numa rua que é a da Alegria. Os outros quartos andam espalhados por aí, uns em Lisboa, outros noutros sítios. Alguns em Espanha, certamente. Mas o que é bom no coração é que anda sempre connosco. Por mais que vamos e regressemos, nunca saímos do nosso lugar, por causa do coração, com muitos quartos, que transportamos dentro.

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