O truque da venda da TAP

Mário Amorim Lopes fez um post cheio de números e gráficos – números e gráficos dão um ar sério a qualquer post – sobre a TAP. E jurou a pés juntos que se iria flagelar se, com esta privatização, dívida da TAP passasse para o estado.

Está na hora de o fazer e até pode usar a sugestão da imagem.

Victor Baptista, economia e ex-deputado do PS, é assim que ele assina, fez uma coisa que qualquer um pode fazer quanto a números, qualquer um é um exagero porque aquilo é intragável, e olhou para o último Relatório e Contas da TAP, o de 2014.

O preço de venda da TAP por 10 milhões de euros; a situação líquida negativa na ordem dos 500 milhões de euros; a recapitalização num valor de mais de 350 milhões de euros; e a dívida bancária de 1.006 milhões de euros, motivaram o interesse em conhecer o valor dos seus activos. Um valor curiosamente omitido por muitos, a fazer recordar o velho ditado que “quando a esmola é grande o pobre desconfia”.

Recorri às contas consolidadas e publicadas referentes a 31.12.2014 a que qualquer cidadão poderá ter acesso. Bem sei, decorreu quase um semestre no ano de 2015 e nem tudo nele teria corrido bem. As greves certamente penalizaram as contas do primeiro semestre mas não posso pronunciar-me sem o respectivo balancete contabilístico que não foi nem será disponibilizado ao cidadão.

Tendo por base as contas consolidadas de 2014, os activos consolidados da TAP totalizavam 1.560 milhões de euros e o passivo remunerado totalizava 1.062 milhões de euros. E nas contas não é visível qualquer reserva de reavaliação que contribuiria para um aumento do activo e uma melhoria da situação líquida.

A composição dos activos inequivocamente contraria a visão catastrófica que alguns têm da empresa. No final do ano de 2014 a TAP tinha disponibilidades “ caixa e bancos” que totalizavam 241 milhões de euros. As dívidas de clientes totalizavam 147 milhões de euros e as existências/inventários o valor de 97 milhões de euros.

No passivo para além do bancário existiam dívidas a fornecedores de 141 milhões e o restante passivo era constituído por diferimentos, impostos diferidos, provisões, documentos pendentes de voo e outras contas a pagar. Aliás, os documentos pendentes de voo passaram de 365 milhões de euros em 2013 para 304 milhões de euros em 2014.

Na conta de exploração consolidada constatamos que a TAP facturou em 2014 o montante de 2.698 milhões de euros, mais 10,8% que em 2013. Os gastos com pessoal totalizaram 579 milhões de euros e representam 21,4% da facturação. Os juros suportados totalizaram 85 milhões de euros e representam 3,1% da facturação. Estes números não traduzem nem excesso de pessoal, nem inadequado endividamento. Outros números há na estrutura de custos que assumem maior relevância, como os FSE, a ultrapassarem os 63% da facturação em 2013 e a agravaram-se 4% em 2014, mas sobre estes nada posso adiantar por manifesta falta de elementos, estes mais a alcance das auditorias, bem como seria tão interessante conhecer quais são os derivados financeiros que provocaram em 2014 um prejuízo de 57 milhões de euros. Apesar do prejuízo do exercício apresentado os meios libertos pela actividade da empresa foram positivos.

Há uma coisa curiosa de que ainda não me tinha lembrado. Quando há aumento de capital, ou os accionistas acompanham o aumento ou perdem quota. Ora, se o privado vai meter  350 milhões na empresa e o estado ainda fica com 38%, então ou estado acompanha e mete dinheiro na empresa ou, simplesmente, dá de borla a sua participação.

Não posso deixar de me associar a Marcelo Rebelo de Sousa ao considerar que o casamento da TAP não é o ideal e até acrescento ser o dote muito escasso. E mais escasso se torna quando os 38% que o Estado não aliena, for por efeito da recapitalização – aumento do capital social – de mais de 350 milhões de euros, reduzido a pouco mais de 1%, ou em alternativa, o Estado ao contrário do que diz, terá de injectar no capital social da TAP mais cerca de 100 milhões para manter os 38%.

A situação ainda é merecedora de mais chicoteada face ao que se soube, depois de anunciado o negócio, claro, que o privado vai fazer o aumento de capital vendendo 4 aviões, os quais depois serão “adquiridos” de novo em regime de leasing. Uma hipoteca não é de todo invulgar e nada impediria que fosse feita pelo próprio estado sem se precisar de privatizar. Mas estamos perante o verdadeiro negócio da china, oferecido pelo estado português – que por acaso ganhou particular experiência em negócios com a China neste governo.

Soma-se ao rol de truques desta venda o anúncio de que, afinal, os necessários aviões novos, um dos argumentos usados para justificar a venda, já não serão comprados. Dizem que a compra foi adiada. Certo… Já se viu vezes suficientes que depois do logo se vê vem a conjunta para justificar o não se faz.

Eis que a urgência de vender não passa de uma obsessão ideológica ou algo bem pior, geralmente conhecido por negociatas.

Vamos lá ver se o post tem números em quantidade suficiente, mesmo que emprestados, para lhe dar credibilidade.

Falta saber se o aliviado Cavaco agora se encontra obstipado.

Adenda
Ficámos também a saber há dias que a privatização prevê uma reestruturação da dívida bancária mas esta será conduzida pelo estado e não pelo privado. Expliquem lá a lógica de ser o accionista minoritário a conduzir a negociação e jurem que o estado não estará a conduzir a negociação para dar a garantia bancária.

Comments

  1. amiguel says:

    Um elogio sério, de satisfação profunda ao Dr. Victor Baptista. Bem haja pelo trabalho.
    Agora haja mais alguém na Comunicação Social e nos “Inteligência”, não comprometidos e de coluna erecta, com essa informação, difícil de entender para a maioria dos portugueses, que saibam exemplificar, esclarecer, informar honestamente os eleitores, demonstrando o que o governo dos mariolas instalados estão a vender de Portugal, criminosamente. Por tal facto deveriam ser todos presos a começar pelo Presidente da Republica, aquele que deveria ser o garante do Estado contra os criminosos instalados. Infelizmente a guardar a porta está um amigo dos ladrões. O que fazer?! A revolta !!
    ….”Soma-se ao rol de truques desta venda o anúncio de que, afinal, os necessários aviões novos, um dos argumentos usados para justificar a venda, já não serão comprados. Dizem que a compra foi adiada. Certo… Já se viu vezes suficientes que depois do logo se vê vem a conjunta para justificar o não se faz.
    Eis que a urgência de vender não passa de uma obsessão ideológica ou algo bem pior, geralmente conhecido por negociatas.”

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