Uma manhã ateniense

Carlos Leite

Hoje tinha que passar pelos correios e levantar a dose de 60 euros. Pensei que tal me ocuparia toda a manhã, ou pelo menos umas boas duas horas. Qual quê! Uma hora bastou e sobrou. Os correios estavam às moscas, como uma agência funerária em Dia-de-Todos-os-Santos e dirigi-me de olhos fechados para o guichet.

A senhora do outro lado disse-me que primeiro devia tirar a senha… A senha? Tiro todas as senhas para a manhã, respondi, mas não vejo ninguém à espera. Mas tem de ser, senhor, é para fazermos as nossas contas. Muito bem, seja então a senha. Esperava que o aviso deixado pelo carteiro aqui há uns dias (nunca entregam os registados, dexam sempre o aviso sem se incomodarem a tocar à campainha, houve muitos despedimentos e agora só há tarefeiros) fosse mais uma carta registada com uma intimação a pagar uma factura ou uma contribuição na Bélgica, mas era uma encomenda de Portugal, antes isso (as últimas traduções que fiz para a Relógio d’Água, o Mendel dos Livros, do S. Zweig).

Depois fui ao banco, cem metros a subir que agora me custam imenso. Rua comercial calma, semivazia, fora do normal para uma segunda-feira de manhã, mas talvez este seja já o movimento habitual do período de férias, há já gente que partiu, não sei, mas duvido. À porta do banco, umas 20 pessoas à minha frente, com o sol a bater nos últimos chegados, mais distantes da parede. Olho para trás e já há mais quatro a cinco pessoas, que se avisam de quebrar a fila e irem refugiar-se à sombra duma árvore e numerando-se entre si. Eu fiquei ao sol.

Ninguém parece abatido, resignado, stressado, furioso ou o que quer que seja. Estamos todos calmos, mesmo bem dispostos. Fala-se de tudo, como num barbeiro ou na paragem do autocarro (os gregos falam com a maior das desvergonhas com quem estiver ao lado, contam tudo, mesmo com quem não fala grego nem sequer os percebe, como foi o meu caso durante muito tempo). O meu parceiro da frente propõe-me um negociozinho catita: juntarmos umas cadeiras lá de casa e instalá-las junto ao ATM, com um guarda-sol e frappés do café (o refresco nacional de nescafé) vizinho do banco, baratinhas, sol e sombra, mas em todo o caso, baratas, que isto aqui não é para enriquecer; outro acha que, já que são 60 euros e não 50 que a máquina dá, vai poder comprar Sheba para o gato comer e já não precisará de ser ele a comer o gato. É assim. Kyrié Karolé (sou eu) venha para aqui que está mais à sombrinha, homem, tal qual um alentejano compadre! Conclusão: nada daquelas imagens lancinantes de arrepelar os cabelos com que nos brindam os jornais e as TVs. Se desespero há, cada qual tem o decoro e o pudor de o guardar para si. As imagens que correm mundo são outro nível da realidade, a indução dum efeito nefasto, a mercantilização da perversão do olhar, diria eu se fosse um teórico destas coisas. E assim regressei a casa, também eu cheio da minha dignidade grega em tempos de adversidade.

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