«Morre mais depressa, Europa!» [Heiner Müller, 1989]

«A Europa tornou-se um conceito de higiene social, pois cada vez mais se faz da pobreza um problema de higiene. Como é que, nessas condições, poderia subsistir o fundo intelectual da Europa? É para mim um mistério, a menos que se atribua uma alma ao dinheiro. O tema poderia ser objecto dos mais amplos debates filosóficos – de qualquer modo, o capital tem uma líbido. Acabaremos sem dúvida por encontrar-lhe uma alma, também. E ela surgirá com tal impacto que teremos de a conter. Heiner Müller em 1989 [em Francês, parcialmente traduzido para Português em baixo]

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(c) Roger Melis (1940 – 2009)

 

«Morre mais depressa, Europa!»

Em 1989, a revista Transatlantik publicou cinco entrevistas com Heiner Müller, realizadas por Frank Raddatz. Publicamos as segunda e quinta entrevistas, realizadas respectivamente em Janeiro e no Outono de 1989, aqui reunidas sob o título da segunda: «Morre mais depressa, Europa!»

Transatlantik: Há relativamente pouco tempo, a palavra Europa designava antes de mais apenas a parte ocidental do velho continente. Agora, usa-se com cada vez maior frequência a noção de casa comum europeia, para melhor dar conta da realidade a Leste e a Oeste. Poucas pessoas têm percorrido as duas alas desta casa, como é o seu caso. Será Heiner Müller o Europeu por excelência?

Heiner Müller: Sou um Europeu bastante bera, mais não seja porque apenas posso comunicar em Inglês. No que respeita às outras Línguas, tudo se torna muito mais trabalhoso. Infelizmente, ignoro quem forjou esse belo slogan de «casa europeia», no entanto, encontrei recentemente essa formulação num texto de Carl Schmitt a propósito do discurso de Hitler sobre a Sociedade das Nações. Nele, Schmitt cita o seu Führer e chanceler do Reich, Adolf Hitler, que fala da «casa europeia». Isso evoca para mim, de modo muito vincado, o debate sobre a reunificação alemã. A Alemanha apenas existe por oposição aos outros, aos franceses, por exemplo. Talvez o mesmo suceda com essa ideia de “Europa”.

De um ponto de vista histórico, a Europa não existe. Por ocasião da entrega do prémio europeu de cinema a Krysztof Kielowski pelo seu filme Não matarás, o realizador disse algo muito interessante numa entrevista: regozijava-se por aquele prémio ter sido atribuído a um filme polaco, pois isso significava que a Polónia fazia parte da Europa. Acrescentou que havia duas Europas, uma marcada pelo cunho de Bizâncio, e a outra de filiação romana. Mais que não seja em razão do catolicismo, a Polónia faz parte da Europa «romana», enquanto que a Rússia e toda a Europa do sudeste relevam da cultura bizantina. A fronteira situa-se algures na Hungria. É uma condição prévia importante para toda e qualquer reflexão sobre a Europa. Muitos mal-entendidos entre o Leste e o Oeste resultam de um conhecimento insuficiente relativamente a esse facto histórico.

A actual discussão sobre a Europa é motivada por uma campanha puramente económica. Tal como os «Republicaner» ganharam existência por fazerem campanha contra os estrangeiros, utiliza-se a ideia europeia para vender aos alemães uma salsicha que não responde às normas de consumo em vigor na RFA.

Transatlantik: No entanto, se visto do Ocidente, a ideia de Europa evoca um determinado quadro mental – uma euforia intelectual ou uma reminiscência de dias melhores.

H. M. : É necessário fazer uma pequena incursão pelo passado. Desde Hiroshima, as categorias militares deixaram de ser pertinentes; apenas contam as categorias económicas. Eis porque o vencedor da guerra não é a Alemanha mas a República Federal. Actualmente, esse resultado transforma-se numa intenção: o objectivo da guerra estava orientado para a expansão, para a conquista de grandes espaços; o resultado constitui uma renovação do território alemão, através do seu encolhimento em torno do seu núcleo de potência económica, a RFA. Mas a luta pela redistribuição dos grandes espaços faz aumentar a potência das forças contrárias que se batem pela regionalização – isso é válido para todos os grandes espaços, incluindo a União Soviética. Quanto mais os impérios coloniais enfraqueceram, mais a vingança dos colonizados se exprimiu de forma clara. A Europa ocidental vai implodir; a inundação pelo Terceiro mundo atinge a Europa. Londres ou Paris são cada vez mais cópias de Nova Iorque, com gigantescos guetos para as outras raças.

Este interior da Europa apresenta analogias com o declínio do império romano, que afinal foi pouco a pouco capturado pelos seus escravos. Nas metrópoles de hoje, os trabalhadores imigrantes têm o mesmo estatuto que os escravos na antiga Roma, incluindo no plano legal. Os escravos não beneficiavam de quaisquer direitos humanos – Aristóteles definia-os como «instrumentos dotados do dom da palavra» – e os trabalhadores imigrados também não beneficiam de direitos humanos. O que resta da Europa é a solidariedade internacional do capital contra a pobreza.

Assim, a Europa torna-se um conceito de higiene social pois cada vez mais se faz da pobreza um problema de higiene. Como é que, nessas condições, poderia subsistir o fundo intelectual da Europa? É para mim um mistério, a menos que se atribua uma alma ao dinheiro. O tema poderia ser objecto dos mais amplos debates filosóficos – de qualquer modo, o capital tem uma líbido. Acabaremos sem dúvida por encontrar-lhe uma alma, também. E ela surgirá com tal impacto que teremos de a conter.

Transatlantik: Sem dinheiro, o Ocidente, a sua racionalidade científica, que criou as condições técnicas do imperialismo, não seriam concebíveis.

H. M. : Parece-me evidente que a Europa é uma questão de dinheiro. Apengler forjou esta magnífica fórmula, romântica e prefaciadora: «Apenas a Europa tem a vontade de poder na era da técnica.»

(…)
Ao inverso da Ásia, nunca na Europa foi possível um pensamento ligado ao solo, pois o solo, o território, foi sempre demasiado pequeno. A Europa é um território de tal forma exíguo que foi sempre preciso procurar saídas de emergência: primeiro em direcção a outras regiões do Planeta, como sucedeu com o imperialismo, mais tarde no espaço, com as viagens espaciais. A propósito, os Estados-Unidos, mais não seja por causa da origem da sua população, são uma paródia da Europa e essa paródia afasta-se cada vez mais da Europa para se aproximar cada vez mais da Ásia. Los Angeles afasta-se de Nova Iorque e, ao mesmo tempo, da orientação europeia da Costa Leste. Los Angeles é uma das maiores cidades asiáticas do Mundo. A Califórnia de Reagan é terreno de aterragem da Ásia na América. (…)»

Comments


  1. Está muito bem visto… e é a explicação lógica para as duas grandes guerras na Europa;só que desta vez a Alemanha está a ganhar a terceira guerra ,por ser financeira,e quem dita e pode sobre o financeiro é a Alemanha,que mesmo sem o Hitler está a subjugar todos os povos europeus !!!

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