Desemprego 2011-2015: propaganda ou factos?

A estratégia da coligação do governo consiste em procurar convencer as pessoas de que a austeridade funcionou e para tal precisam de apresentar alguma prova. Não podem usar os objectivos enunciados em 2011 e que justificaram toda a austeridade (baixar o défice para menos de 3% e controlar a dívida pública) porque esses objectivos falharam redondamente e não há como esconder esse facto.

Viram-se para isso para os números do desemprego, mais facilmente manipuláveis, se bem que os incompetentes da coligação o estejam a fazer de forma tão tosca que facilmente são desmascarados. Assim se percebe que Bruno Maçães tenha ficado abespinhado quando O WSJ não seguiu o enredo que a coligação tinha desenhado.

Agora saiu um tempo de antena com a mensagem oficial, cheia de números martelados. Parece que o plano consiste em repeti-los ad nauseam até que os portugueses os assimilem. No fundo, continuam a fazer o que fizeram ao longo de quatro anos.

Desmonta-se a seguir a propaganda do PSD/CDS quanto aos números do desemprego.

wrong “Em 2011, quando o PS deixou o Governo, herdámos um desemprego de 12,7%”
Factos: Em Junho 2011 o desemprego era de 12,1%

wrong desemprego versao psd
Factos: Ao contrário do que o gráfico sugere, o desemprego não esteve estável até 2013. Pelo contrário, esteve em constante crescendo.
Além disso o pico de desemprego foi 17.8% e não 17.5% como é mostrado no gráfico.

 

wrong “Em pouco mais de dois anos, o desemprego baixou para cerca de 13%.”
Factos: O “cerca” aqui é na verdade  13.2%. Ou as décimas só contam quando interessa? No entanto, este número é uma ficção porque

  • A emigração disparou, o que travou o crescimento da taxa de desemprego. Os números da emigração são: 100 mil emigrantes em 2011; mais de 120 mil em 2012; em 2013 mais de 128 mil emigrantes; e em 2014 mais de 134 mil emigrantes. 482 mil trabalhadores que não contaram para o desemprego. Atendendo a uma população empregada em Junho de 2015 de 4450 milhares (4,45 milhões), estes emigrantes correspondem a 11%, pelo que se estas pessoas cá estivessem, o desemprego seria imediatamente de 24.2%.
     
  • Tal como consta na própria peça de propaganda, o governo usou 43 milhões de euros de dinheiro público (sim, este mesmo governo do discurso da moralidade económica) para camuflar o desemprego. Fê-los com estágios na AP e concedendo subsídios às empresas, suportando inclusivamente meses de salários dos contratados. Em Janeiro, o governo esperava  “envolver 12 mil desempregados nos estágios”, o que deve ter feito o desemprego baixar 0.3%. Esta baixa, como vimos, teve um custo de 43 milhões de euros. Que se lixem as eleições? Certo!
     
  • O governo alterou as regras de manutenção da inscrição nos centros de emprego, o que se traduziu numa forma de baixar os números do desemprego sem que isso tenha paralelismo com a realidade.
     
  • Como se ainda não fosse suficiente, o “Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), tutelado pelo Ministério do Emprego e da Segurança Social, “eliminou dos ficheiros” uma média de 56,3 mil desempregados por mês, desde o início do ano, e 60 mil só em Junho, mostra um estudo do economista Eugénio Rosa.” (fonte)

Do exposto, a taxa de desemprego neste momento, se contarmos com as pessoas que efectivamente deixaram de ter emprego em Portugal, seria seguramente superior a 24.5%.

 

wrong “Portugal já criou mais de 175 mil novos postos de trabalho.”
Factos: Esta afirmação seria verdade se o mandato do PSD/CDS tivesse começado em 2013. O que estão a procurar fazer aqui é esconder os dois primeiros anos de governo, nos quais o emprego caiu a pique. Na verdade, este governo provocou a perda de cerca de 250 mil empregos.

 

wrong “308 mil jovens já beneficiaram de medidas de apoio ao emprego” e que se realizaram “mais de 141 mil estágios profissionais, com uma taxa de empregabilidade de 70%”
Factos: De acordo com os dados do próprio IEFP a taxa de empregabilidade foi de 33,4%, muito longe dos 70% que Passos Coelho anunciou.

Finalmente importa recordar que a recuperação de 2013 coincidiu com a reposição de algum poder de compra graças ao chumbo do TC quanto a quatro medidas no OE2013. Recorde-se também que os baixos juros se devem à acção do BCE e que foi transversal a toda a Europa (note-se que a Grécia foi impedida de aceder a este financiamento de juros baixos).

O governo nada tem para mostrar que possa representar um sucesso das suas políticas. Resta-lhe aldrabar as estatísticas do desemprego para acenar aos incautos.

Comments

  1. Dezperado says:

    O governo enviesa os numeros como lhe da jeito, ja quem analisa os numeros que o governo manda para a praça publica, tenta usar as mesmas tangas que o governo nos diz.

    “para camuflar o desemprego. Fê-los com estágios na AP e concedendo subsídios às empresas, suportando inclusivamente meses de salários dos contratados” neste paragrafo parece um horror.

    “De acordo com os dados do próprio IEFP a taxa de empregabilidade foi de 33,4%, muito longe dos 70% que Passos Coelho anunciou.” neste ja parece uma maravilha, mas ainda esta longe dos 0% que a catarina martins manda para a praça publica.

    “Recorde-se também que os baixos juros se devem à acção do BCE e que foi transversal a toda a Europa (note-se que a Grécia foi impedida de aceder a este financiamento de juros baixos).”

    Se o gorverno tivesse ouvido a esquerda mais radical…..se calhar na altura tambem nao tinhamos direito. Ou então explique-me se Portugal teve direito e a Grecia não, foi pelos lindos olhos dos portugueses, ou pelo trabalho que o governo fez?

    • j. manuel cordeiro says:

      “O governo enviesa os numeros como lhe da jeito, ja quem analisa os numeros que o governo manda para a praça publica, tenta usar as mesmas tangas que o governo nos diz.”

      Para acusações baratas não lhe falta nada. Aponte lá onde é que há manipulação.

      “neste ja parece uma maravilha”
      Parece só se for a si. Por um lado não são os 70% do seu amado líder e por outro custou 43 milhões, gastos pelo governo que andou 4 anos a botar faladura sobre redução de custos.

      “Se o gorverno tivesse ouvido a esquerda mais radical…..”
      Já se percebeu que quem não siga a cartilha do governo é esquerda radical.

      “Ou então explique-me se Portugal teve direito e a Grecia não, foi pelos lindos olhos dos portugueses, ou pelo trabalho que o governo fez?”

      Se souber ler, está lá escrito. Houve uma decisão política de excluir a Grécia do acesso a este crédito. Parece que era preciso evita rebeliões que mostrassem alternativas à austeridade.

      • Dezperado says:

        Manuel

        “Já se percebeu que quem não siga a cartilha do governo é esquerda radical.

        é engraçado, depois de voce me dar esta resposta, na qual concordo, responde com isto:

        “do seu amado líder e por…….”

        diz-lhe os mesmo, quem nao critica todos os dias o governo ou é do governo, ou tem um tacho no governo, ou bla bla bla.

        Eu apenas dou a minha opiniao, se voce concorda ou nao, é para isso que se debatem assuntos.

        “Houve uma decisão política de excluir a Grécia do acesso a este crédito. Parece que era preciso evita rebeliões que mostrassem alternativas à austeridade.”

        E essa decisao politica foi baseada no que???? voce sabe, nao quer é responder.

        Mostraram alternativas à austeridade??? perdão de divida, nao pagar, restruturar a divida…..sao estas as soluções que fala??? então nao é nada de novo.

        Não tenha vergonha de dizer que ficou decepcionado com o Syriza.

        • j. manuel cordeiro says:

          A sua técnica é chutar para canto. Lança acusações gerais e não concretiza. Quando lhe pedem para concretizar lança outras. É uma técnica típica dos trolls e consiste em obrigar a gastar o tempo dos outros.
          Da minha parte, gastei este bocadinho só para que perceba porque é que não lhe vou dar conversa.

          • Dezperado says:

            Manuel

            Voce consegue responder sem chamar nomes ou fazer juizos de valor? Pode descer um pouco desse pedestal onde pensa que se encontra?

            Voce num paragrafo acusa o governo de gastar 43 milhoes de dinheiro publico…..chegou a ler o link que mete no post??? não é dinheiro publico, são fundos europeus. assim como eu quando ha largos anos entrei como estagiario, tinhamos o programa do PRODEP.

            No ultimo paragrafo faz um link para um site….chegou a ler a noticia??? São 33% que ficam na propria empresa e outros “40%” arranjam emprego noutra empresa. Acho que o importante é arranjarem emprego não?

            Viu como se faz um post em que se enviesa o que se le.

            Mas eu percebo porque me chama troll…..é mais facil responder aqueles que lêm os posts e não metem uma virgula em causa.

          • j. manuel cordeiro says:

            «“O governo enviesa os numeros como lhe da jeito, ja quem analisa os numeros que o governo manda para a praça publica, tenta usar as mesmas tangas que o governo nos diz.”

            Para acusações baratas não lhe falta nada. Aponte lá onde é que há manipulação.»

            Não respondeu.

            «Voce num paragrafo acusa o governo de gastar 43 milhoes de dinheiro publico…..chegou a ler o link que mete no post??? não é dinheiro publico, são fundos europeus. assim como eu quando ha largos anos entrei como estagiario, tinhamos o programa do PRODEP.»

            O link está lá. Leu o post?
            Ah então fundos europeus não é dinheiro público. Percebeu porque é que que coloquei esta nota no post? Porque o governo que se está nas tintas para as eleições (Passos dixit) gastou 43 milhões para melhorar os nºs do desemprego (o que é diferente de melhorar o problema do desemprego).

            «No ultimo paragrafo faz um link para um site….chegou a ler a noticia??? São 33% que ficam na propria empresa e outros “40%” arranjam emprego noutra empresa. Acho que o importante é arranjarem emprego não?»

            Se for o negócios, serve?

            Só 33% dos estagiários ficam no mercado de trabalho, diz Tribunal de Contas

            http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/so_33_dos_estagiarios_ficam_no_mercado_de_trabalho_diz_tribunal_de_contas.html

            Tribunal de Contas diz que apenas 33% dos estagiários foram em 2014 integrados no mercado de trabalho. IEFP alega que é prematuro tirar conclusões sobre 2014 e acrescenta que estudos de 2013 apontam para 72%.
            Apenas um terço dos estagiários (33,3%) foram “integrados no mercado de trabalho” após um estágio no ano passado, percentagem inferior à que foi registada no ano anterior (42,4%), revela o Tribunal de Contas (TdC), num relatório sobre a Execução do Orçamento da Segurança Social.

            Questionado, o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) responde com outros dados: indica que os estudos relativos a estágios de 2013 apontam para uma taxa de empregabilidade (na mesma empresa ou em outra) de 71,8%, seis meses após o estágio, e acrescenta que quaisquer conclusões sobre a empregabilidade dos estágios terminados em 2014, que só deve ser medida ao final de nove meses, são “prematuras e pouco rigorosas”.

            O TdC explica que “a redução dos níveis de desemprego verificada” de 2013 para 2014 “foi, em grande medida, compensada pela criação de estágios profissionais financiados pelo IEFP”. Em 2014, a despesa da Segurança Social com políticas activas aumentou 8,7% e a criação de emprego por conta de outrem cresceu 1,6% (contra uma quebra de 2,6% em 2013).

            [Exactamente o meu ponto e razão de ter referido no post – uso de estágios para camuflar o desemprego.]

            “Esta substituição, que tem o mérito de manter no mercado de trabalho uma parte da população activa desempregada, ainda que com índices de precariedade elevados, aspecto que decorre da própria natureza dos estágios profissionais, não se cuidando aqui de levar em conta a taxa de integração desta população na vida activa após a finalização do estágio (em 2013, 42,4% dos estagiários foram integrados no mercado de trabalho após estágio e em 2014 apenas 33,3%) ao mesmo tempo que produz algum alívio nos custos de trabalho associados ao sector privado da economia, terá também o demérito de pressionar negativamente a massa salarial do sector privado, com consequências directas na arrecadação da receita contributiva”, pode ler-se no documento.

            Os dados do TdC aproximam-se dos que estão publicadas nos relatórios de execução física e financeira do IEFP, que apontam para uma “colocação na entidade” de 44,5% dos estagiários que terminaram o estágio em 2013 e de 35,6% em 2014, bem como da informação recolhida pelo Negócios em Dezembro, que o IEFP desmentiu “categoricamente”. A questão da empregabilidade dos estágios– que no ano passado abrangeram mais de 70 mil pessoas – tem sido tudo menos pacífica.

            IEFP baseia-se numa análise de 2013

            Questionada sobre a nova informação do TdC, fonte oficial do IEFP respondeu esta segunda-feira ao Negócios que “a medida estágios-emprego tem uma empregabilidade de 70%”, seis meses após o estágio.

            “A avaliação mais recente da empregabilidade dos estágios profissionais (relativa àqueles terminados em 2013)”, que resulta do cruzamento de dados com os da Segurança Social “indica umnível de empregabilidade de70% (mais exactamente, 71,8%), no prazo de seis meses após a conclusão do estágio”. Nem todos ficam na mesma empresa: “Resulta igualmente que cerca de 50% (mais exactamente, 49,4%)” dos que encontraram colocação “está seis meses depois do estágio, a trabalhar na empresa onde o realizou”.

            Sublinhando que a empregabilidade relativa a 2014 só pode ser avaliada nove meses após o estágio, o IEFP acrescenta que “quaisquer conclusões sobre o nível de empregabilidade dos estágios profissionais que entretanto possam ser retiradas são prematuras e pouco rigorosas”. O Negócios solicitou os estudos, sem sucesso.

            http://i.snag.gy/Sj0Kv.jpg

            40% arranjou emprego noutro lado. E não arranjariam na mesma sem o estágio? Conhecemos muito bem estes estágios. São formas contratar a baixo custo, um eufemismo para trabalho precário. E o governo estoirou 43 milhões nisto. É preciso pastar links destas propostas de estágio?

            «Voce consegue responder sem chamar nomes ou fazer juizos de valor? Pode descer um pouco desse pedestal onde pensa que se encontra?»

            Devolvo a pergunta. Ainda não desmentiu com factos nada do que está escrito. Pelo contrário, começou logo por me colar a uma suposta esquerda radical.

            «é mais facil responder aqueles que lêm os posts e não metem uma virgula em causa.»

            Mas meta. Apresente factos. No post tenho números e links para esses números. Só tem que mostrar onde está o erro.

          • Dezperado says:

            manuel

            “40% arranjou emprego noutro lado. E não arranjariam na mesma sem o estágio? Conhecemos muito bem estes estágios. São formas contratar a baixo custo, um eufemismo para trabalho precário. E o governo estoirou 43 milhões nisto. É preciso pastar links destas propostas de estágio?”

            Ai esta uma pergunta que voce nao consegue responder…..será que esses 40% arranjariam na mesma emprego sem estagio.

            Se voce me disser que o governo usa os estagiarios para tentar baixar a taxa de desemprego, dou-lhe toda a razao, é um erro que serve apenas para ingles ver.

            Agora nao fale tanto desses estagios como se estivesse por dentro do assunto. O estagio serve para muita coisa. Eu entrei como estagiario na empresa onde trabalho faz anos. Serve para ver logo à partida se o estagiario se adapta à empresa e se a empresa reconhece competencias ao estagiario. Se voce conhecer alguem que esta a estagiar à mais de um ano, aí sim, pdoe dizer que é a camuflagem para o trabalho precario.

            Volto a dizer, 43M nao sao dinheiro publico, sao fundos europeus que estao destinados ao programa de estagios. Por isso este 43M se nao fossem para estagios, nao vinham. Essa ideia de que poderiamos usar os 43M para outra coisa quaquer é falsa e voce sabe disso.

    • Nightwish says:

      Explique lá como é que a lavagem de dinheiro para a banca, perdão, os empréstimos a Espanha foram perto de 0%?

  2. Andarem a discutir desemprego e taxas, é duma narrativa mentirosa e enganadora. Quem fala de desemprego (partidos, analistas, comentadores, sindicatos, governo) são tudo fala baratos que nem um único emprego chegam a criar em toda a sua estéril vida. Quem cria empregos são os empresários, que como podemos ver nos média , quase não se pronunciam sobre o assunto. Que os cidadãos percebam que estas narrativas sobre o desemprego não passam de propaganda ,da mais reles ainda por cima, sobre um assunto que fere mesmo, quando se tem o azar de estar nessa situação.

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