Peixe cru

Eu não como sushi e não se trata apenas de uma questão de gosto. Entendo que seria uma grande falta de respeito para com esses destemidos hominídeos do nosso comum passado, que consagraram gerações ao esforço de produção e conservação do fogo, se eu ignorasse esse extraordinário avanço da humanidade para dedicar-me a comer peixe cru.

Imaginem-nos, acocorados durante séculos, a tentar produzir uma chispa a partir de dois pedaços de sílex ou de pirite, horas, dias, meses consagrados a um mesmo gesto. Como deveriam ficar desvairados de alegria ante a primeira cintilação, desesperados até às lágrimas quando a última chama da aldeia se apagava. Quanto tempo poderia passar até conseguirem produzir de novo uma centelha? Poderia ser um dia, um mês, uma década, um século. Até lá, estariam condenados ao frio, à carne crua, às trevas, ao medo.

E eu, agora, que tenho isqueiro, fósforos, fogão, forno, grelhador, micro-ondas, placa vitrocerâmica, a comer peixe cru porque é o que está na moda?! Haja respeito.

Imagem do filme “A Guerra do Fogo” de Jean-Jacques Annaud

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Muito bem.
    Parece-me que a questão da moda é mais uma “macaquice” 8imitação primária) para fazer dinheiro. Comer peixe cru em nada tem a ver como a nossa forma de vida.

    • A nossa forma de vida é o resultado da fusão de diferentes culturas que nos visitaram e que visitámos. Na Nazaré come-se peixe cru. E comemos as ostras cruas e vivas. E as nossas avós recomendavam ovos crus.

  2. Pode não ser uma tradição ocidental, mas faz parte da cultura japonesa. Ontem jantei sushi, não deixa de ser uma curiosa forma de multiculturalismo, um europeu apreciando um prato asiático em África.
    Gosto do filme de Jean-Jacques Annaud, que vi nos 80’s.

  3. O sushi não é peixe cru mas alimento fermentado que se traduz numa técnica muito antiga. Nasce da necessidade de conservação dos alimentos. Não é moda nem modernice e muito menos desrespeito ao fogo. Dizer que sushi é cru é o mesmo que dizer que o peixe seco da Nazaré também é cru. Por essa razão não comeriam os alemães a choucrute e os gregos o yougurte. Em Portugal não há tradição de alimentos fermentados mas temos o queijo que é parecido. Eu não gosto de sushi e embirro com a “moda” pseudo fina de o comer, mas não considero falta de respeito a Prometeu, mas antes consideração pelo engenho dos homens na conservação dos alimentos.

  4. Rui Moringa says:

    Multiculturalismo!? Onde fica a nossa cultura, a nossa língua?
    Não deveria ser interculturalismo? Eu aceito partilhar , mas tenho dificuldade em me fundir (!???),

    • A nossa cultura e a nossa língua não são outra coisa senão fusão. Se formos comer tempura ao japonês estamos a comer uma moda que os portugueses lhes levaram. Quanto à canja da avó ela veio, nas caravelas, da China e da Índia. E o português… jamais entenderíamos Afonso Henriques e ele tomar-nos-ia por selvagens, e não errava.

      • Não sei e gostaria de conviver com o D. Afonso Henriques á mesa.
        Só uma pista. O garfo foi importado do império bizantino algures no sec. XIII

  5. Miguel says:

    Que post de merda. Moda?, os japoneses fazem isso à seculos. Que post tão cru.

  6. Nightwish says:

    Bem, quem fica a perder é a Carla…

  7. Punhetas de bacalhau. Que se lixe o Prometeu:)

  8. j. manuel cordeiro says:

    E nem fazem desconto por prestação de meio serviço.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.