Portugal lá atrás

Doentes psiquiátricos ao cuidado das misericórdias e instituições católicas, ao melhor estilo medieval; informação sobre contracepção e doenças sexualmente transmissíveis excluída, “por opção política”, da disciplina de Educação Sexual; um vice-primeiro-ministro que entende que é função das mulheres “organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos”, numa tirada que parece saída de um manual da Mocidade Portuguesa Feminina.

Junte-se a isto uma televisão pública cada vez mais descaradamente voz do patrão e está composto o retrato da nossa aldeia, que Deus a proteja, a ver passar a procissão.

Comments


  1. Doze anos de escolaridade obrigatória, e ainda bloggers que não lêem correctamente as notícias dos jornais. Também deve ser culpa do Nuno Crato, o desgraçado… 🙂

    Oh, Carla, não é da disciplina de Educação Sexual (isso já existe?), é das de Ciências Naturais do 9º ano…

    Também podia reclamar da deturpação que faz das palavras de Paulo Portas (ele não disse que é “função de”, diz que “sabem que” – o que até demonstra que compreende melhor o país real, dando de barato se acha certo ou errado). Ou rir-me da “voz do dono” da RTP, aplicado a um governo que até a queria privatizar. Mas, pronto, isso já aceito como as infelizes técnicas de combate político vigentes…


    • Tem razão e agradeço que me chame a atenção para isso, Educação Sexual só pode ter sido wishful thinking. Mas não deixa de ser curioso que neste caso a conversa se fique pela designação da disciplina e não toque na exclusão da matéria.
      Quanto a Portas, e segundo a imprensa, disse “as mulheres sabem que têm de”, coisa que remete para obrigação. Isso demonstra conhecimento real do país? Muito me conta. Quanto às “infelizes técnicas de de combate político”, ó Marco, é melhor não irmos por aí.


      • Faz toda a diferença. Caso tivesse sido de Educação Sexual (que já devia existir) era gravíssimo – afinal, para que raio serve senão para isso? Das de Ciências Naturais, sinceramente, aflige-me pouco ou nada. Sendo impossível dar importância a todos os temas, alguns tinham que ficar de fora. Foi este. Podia ter sido outro.

        Quer a Carla queira ou não, em Portugal ainda são as mulheres que tratam da economia familiar quase em exclusivo. Percorreu-se muito desde a década de 80, mas é o país que temos. Para o caso em concreto, não interessa muito aquilo que eu gostaria que fosse a realidade, mas sim o que ela é. Portas, ao dizer aquilo para uma plateia de mulheres (e na zona do país em que estava), está a acertar em cheio na batata.

        E porque é que não vamos conversar sobre as infelizes técnicas de combate político? Eu não sou filiado em nenhum partido; ninguém me paga para reflectir sobre a nossa democracia. Acho que o devo fazer enquanto cidadão. Agora se a Carla é voz partidária, então realmente é melhor não irmos mesmo por aí… Mas isso eu já não sei e parti do princípio que não – como diziam os Gato Fedorento num hilariante sketch, eu às vezes precipito-me.


        • “Foi este. Podia ter sido outro.” Tem a certeza de que é assim tão simples? Os conteúdos estavam lá e foram retirados e nem o coordenador da equipa que estabeleceu as metas curriculares sabe o motivo da exclusão. Uma educação para a sexualidade deve ir muito além da contracepção e das DST, mas excluir esses temas parece-me perigoso e insensato.
          A mim interessa-me pouco um político que acha que conhece o país real e o resume a meia dúzia de soundbites e estereótipos. O que Portas faz é perpetuar um esterótipo, o da mulher cuidadora da casa e da família, alinhavado com aquilo que procura ser um quanto a mim hipócrita reconhecimento das dificuldades dos portugueses. Ao fim de quatro anos de governação (no caso de Portas até são mais) tem a obrigação de mais do que descrever “o país que temos”.
          Já quanto ao combate político, não faltam exemplos de técnicas quanto a mim realmente infelizes por parte da coligação. Elencá-las parece-me maçador, mas basta uma passagem rápida pelo arquivo do Aventar para relembrar algumas. Só por isso lhe digo que prefiro não ir por aí. De facto, interpreta bem quando parte do princípio de que não sou voz partidária e muito menos paga, como é o seu caso.


          • Carla, tenha lá paciência, mas só podemos não estar a ler o mesmo artigo. O que eu retiro do que lá está é:

            1. Ciências Naturais (especificamente do 9º ano) não tinham metas curriculares;
            2. O MEC avançou com um, que aparentemente é colocado à disposição para discussão da APBG;
            3. A APBG entregou “vários reparos”, que “atendidos, à excepção de um”, este;
            4. Uma justificação avançada é a da existência da Educação Sexual de forma transversal, evitando a repetição.

            Resumindo: Ciências Naturais não é Educação Sexual, e por isso o seu argumento de “uma educação para a sexualidade” et caetera não se aplica. Se quiser, também podemos discutir o que é que acha da implementação da ES nas escolas, mas isso só posso falar do que sei (a minha filha mais velha, que frequentou o 5º ano, teve algumas horas de ES com a directora de turma, professora de ET, e versou sobretudo sobre as alterações da puberdade, o que me parece apropriado para crianças de 10/11 anos).

            Voltando a Portas. O estereótipo, infelizmente, é largamente verdadeiro (e, mais uma vez, naquela zona do país, que conheço bem, ainda mais). Ele falou para as pessoas que tinha à frente (e para milhares de outras mulheres nas mesmas condições) e foi na mouche. Aposto que houve dezenas de mulheres a darem coteveladas nos maridos à hora do telejornal. A minha deu-me, mas levou logo com um “a sério?!” indignado e piscou-me o olho.

            Eu nunca disse que as técnicas infelizes eram exclusivo da oposição. Não são. Eu espero (lá está, às vezes precipito-me) que os bloggers, quando não claramente militantes partidários, que a esses levo as opiniões com um grão – ou saco – de sal, evitem recorrer a truques psicológicos de feira. Mas isto sou eu e a minha fé na humanidade.


          • Marco, desculpe lá mas parece-me que aqui há muita parra e pouquíssima uva. O Marco não vê como negativo nenhum dos pontos a que me refiro – nem o comentário de Portas, nem a exclusão de conteúdos, e deixo de lado a questão dos doentes psiquiátricos porque não se referiu a ela. Eu vejo-os como indicadores de um retrocesso. Estamos em desacordo? Vivo bem com isso. Já a sua fé na humanidade, a cotovelada da sua mulher (embora tenha sido um momento com graça no seu discurso, reconheço), os truques psicológicos de feira, a ironia falhada da referência ao sketch, são dispensáveis. Ou, pelo menos, dispensam-me a mim de continuar agarrada ao teclado o resto da noite.


          • De tudo o que escrevi, não sei como é que extrapola que eu não vejo nada disso como negativo.

            Eu vejo como negativo as metas curriculares, ponto. Não são uns tipos em Lisboa que têm de decidir tudo e um par de botas duma EB23 em Bragança ou em Elvas. Eu vejo como negativo que a Educação Sexual ainda continue a ser assim “uma cena, ’tás a ver, mete-se um profe duma disciplina qualquer a dizer umas coisas e já está”. E vejo como negativo que um blogger cometa um erro no post e que este ainda se mantenha, apesar de chamado à atenção e ter admitido que é gralha.

            Eu vejo como negativo que larguíssimas fatias da nossa sociedade ainda considerem a mulher como fada do lar. Eu vejo como ainda mais negativo que dezenas de milhar de mulheres assim se assumam e que não aspirem a mais que isso. Eu vejo como negativo que a direita social democrata se (pré-)coligue com a direita conservadora. E vejo como negativo que um blogger distorça o sentido duma frase, fazendo passar por insultuoso o que não é mais do que a constatação da realidade, constituindo pouca surpresa que seja dita pelo líder da direita conservadora – que, aliás, tem o seu eleitorado perfeitamente alinhado com este género de pensamento.

            Quanto à questão dos cuidados continuados em psiquiatria, não tenho dados que me permitam formar opinião. Tenho amigos enfermeiros que clamam há anos por mais cuidados continuados, nem que fosse em IPSS, embora, provavelmente, não se estivessem a referir concretamente a psiquiatria.

        • Paula Sofia Luz says:

          Claro que faz toda a diferença. Preocupemo-nos com a forma e não com o conteúdo…

    • joão lopes says:

      marco ,você foge ao debate como o outro? passar a area da saude(publica) para as misecordias faz lembrar a caridade.a conversa do Portas faz lembrar o Portugal pré-25 abril,a conversa sobre educação sexual faz lembrar a conversa do catequismo/escutismo ,aula de religião e moral e a televisão publica(programa do pos e contras) esta ao serviço(portanto a propaganda) do Paf.pergunta:o senhor passos afinal quer o quê?

  2. Ana A. says:

    Mas é que ninguém tem dúvidas que Portugal regrediu até à década de 60, em quase todas as áreas! Agora, há aqueles que gostam e aplaudem, e há os que se revoltam por isto ter acontecido “nas nossas barbas”, sem que tivéssemos feito nada para o impedir!


  3. Dou os meus parabéns à Carla, que com um só post acerta em cheio nos podres deste gente que nos desgoverna. Os comentários desagradados são bem a prova de que incomodou…

    A caridadezinha e a misericórdia divina em vez dos direitos de cidadania, o obscurantismo em vez da educação, as mulheres como parideiras de filhos e fadas do lar que tomam conta dos miúdos e dos velhos enquanto os maridos vão para a taberna, a propaganda do regime na televisão do governo ou na dos privados, o que vai dar ao mesmo, eis a mentalidade retrógrada e bafienta que inspira os passos, os portas e os cratos que olham com saudade para os tempos salazaristas da ordem e do “respeito”, dos pobretes mas alegretes e de como tudo se fazia em prol dos ricos e poderosos mas sempre a bem da nação.

    Sobre os elogios envenenados de Portas às mulheres e a exclusão de temas de educação sexual do programa de Ciências, naquela perspectiva muito à frente do “quanto menos, melhor”, desenvolvi no meu blogue, escolapt.wordpress.com

    • Nascimento says:

      Até que enfim há alguem que com uma simples nota desmonta o linguajar estlistico de um tretas…o que estava em causa? O simples afagar da “coisinha”! E por isso o Paulinho acertou na mouche!!!! e nós? Só podemos dar-nos por satisfeitos,né?Que burgesso “letrado”.

  4. Alberto Mendes says:

    O post tem um erro de citação:
    “Quando desenhou as metas curriculares, que este ano passam a ser obrigatórias, o MEC não incluiu os métodos contraceptivos e as Doenças Sexualmente Transmissíveis na lista dos temas prioritários de Ciências Naturais“.

    Quanto aos outros pontos só mostra que o Paulo Portas conhece os seus eleitores e os portugueses em geral. Sim, a mulher manda em casa e nas contas. E sim os portugueses preferem caridade a solidariedade ou não fosse o povo português um povo católico.

    Alberto Mendes


  5. “No que diz respeito às funções das mulheres” Uma fotografia ajuda a situar no tempo e no espaço

    http://derterrorist.blogs.sapo.pt/blog/derterrorist/post/3086279/

  6. NNIKO says:

    Abaixo o NAZISMO . 25 de ABRIL SEMPRE , FASCISTAS TODOS PARA O CAMPO PEQUENO .


  7. A tirada do Portas demonstra o que é este governo. Uma cópia defeituosa do fascismo. Pagar as contas, educar os filhos e tratar dos anciãos, para além de praticar lavores e cozinhar com Vaqueiro era a doutrina do Movimento Nacional Feminino. Esta corja é igual, mas menos inteligente. Consequentemente, não há que estranhar a promoção da pobreza e a emigração em massa. Votem neles que chegaremos lá…