O homem que mandou Deus passear

"Jonas e a baleia", ilustração no "Jami' al-tawarikh" (Pérsia, c. 1400)

“Jonas e a baleia”, ilustração no “Jami’ al-tawarikh” (Pérsia, c. 1400)

Jonas era um tipo ponderado, reflexivo, avesso a que lhe desordenassem os dias e ainda mais a receber ordens. Deus embirrou logo com ele. Ou não fosse Ele hábil a identificar os problemáticos, os que insistiam em pensar e duvidar e ver além. Jonas tinha de ser domado. E por isso, estando o homem posto em sossego, Deus foi ter com ele e mandou-o ir a Nínive, a cidade assíria do culto a Ishtar, deusa da fertilidade, do amor e do sexo. Vai lá e avisa-os de que o fim está próximo, diz-lhes que destruirei a cidade e todos os seus habitantes, ordena.

Jonas, que esperava a divina visita e adivinhava o desfecho de tal incumbência, correu para o porto mais próximo e apanhou o primeiro barco que saía, que por acaso ia para Társis, mas, sobretudo, não ia para Nínive.

A viagem começou bem e Jonas adormeceu tranquilamente no porão, escondido, a salvo de Deus. Mas logo as ondas começaram a agitar-se, uma tempestade violenta irrompeu, sacudiu o barco que parecia a ponto de estrancilhar-se. A tripulação apavorada adivinhou que aquela súbita fúria dos elementos não podia ser coisa terrena, e foi despertar o viajante que lhes parecera suspeito. Jonas, que dormia o sono dos justos que escapam a Deus, percebeu tudo nada mais abrir os olhos e confessou que a tempestade a ele se devia. Disse à tripulação que o lançasse borda fora, que dessa forma as suas vidas seriam poupadas. Os marinheiros não hesitaram e num instante Jonas debatia-se com as ondas geladas. Deteve-se então a fúria dos ventos e das ondas, mas apareceu uma titânica criatura, uma baleia, que engoliu Jonas. No ventre do bicho passou ele três dias tormentosos, negros dias e negras noites que mal podemos imaginar, e acabou a pedir perdão a Deus e a aceitar o encargo, que remédio. Deus não brinca: coacção, chantagem, tortura. Arrancada a cedência a Jonas, ordenou Deus à baleia que cuspisse o desgraçado homem para terra.

Lá foi Jonas a Nínive, sabendo no que aquilo ia dar. Os habitantes ouviram-no, acreditaram nas suas palavras, arrependeram-se e converteram-se. Deus, apaziguado o orgulho ofendido, comunicou a Jonas que tinha desistido da destruição. Que ficavam sem efeito as catástrofes programadas. E Jonas indignou-se. Porque já sabia que aquilo haveria de acontecer. Porque raios tinha sido mandado ali se Deus nunca quis, de verdade, destruir Nínive? O que Ele queria era exibir a grandeza, demonstrar quão fácil seria reduzi-los a cinza e desfrutar depois da sua conversão resignada, do arrependimento alimentado pelo medo, do choro e ranger de dentes que apenas Ele podia deter. Porque havia Jonas de ser um fantoche a cumprir ordens inúteis? Porque não tinha ido o próprio Deus interpelar os nínivenses, enumerar os seus tantíssimos pecados, ameaçá-los com o fogo eterno, mostrar-lhes a Sua fúria tremenda, o Seu poder infinito?

Era sempre a mesma coisa. Tinha ele deixado tudo para trás, tinha arriscado a vida, três dias passara nas entranhas de um bicho medonho para satisfazer um capricho, nada mais que um capricho de Quem não sabia deixar de exercer o poder absoluto, a todas as horas, por toda a eternidade. Um dependente emotivo, um tipo infantil, no fundo, e pensar que a Ele tinham sido confiadas todas as chaves do universo, que lástima.

Tão enfadado estava que decidiu ficar nos arredores, numa precária cabana por si construída, onde pudesse observar, bem de longe, a cidade. Para protegê-lo do sol, Deus fez nascer uma aboboreira para que as folhas lançassem sombra sobre a sua cabeça. Jonas alegrou-se. Vá lá, um gesto de delicadeza, finalmente. Deus mandou então um verme que em pouco tempo secou a aboboreira. Quando Jonas se despertou pela manhã e viu as folhas mirradas, a pobre planta corroída, pontapeou a areia, ergueu os braços aos céus e anunciou que desistia. Podia Deus matá-lo, sem mais manigâncias, que ele desistia.

Deus, numa refinada manifestação de sonsice, perguntou-lhe, de lá de cima:

– Fazes bem que assim te ires por causa da aboboreira?

E Jonas, libertando-se, para todo o sempre, das grilhetas, respondeu, imenso:

– Faço bem que me revolte até à morte.

A história de Jonas termina com a pergunta de Deus: se tens tu compaixão da aboboreira, não deveria eu ter compaixão dos homens e mulheres de Nínive?

Da resposta de Jonas nada se diz nas Escrituras. Nem do que a seguir lhe aconteceu. Porventura porque a resposta tenha deixado Deus embasbacado com a audácia da miserável criatura, ou talvez Jonas nem se tenha dado ao incómodo de responder. Mandou o Senhor ir dar uma volta, mais os seus planos de destruição massiva, as suas aboboreiras, os bichos gigantes que sulcam os mares, tantos e tão desproporcionados recursos para fazer ceder a vontade de um homem. Jonas, herói renitente, perdera o medo e encontrara um sentido profundo na revolta. Recusava-se a consagrar a existência a ser marioneta. Jonas tinha mais que fazer, e o seu mais que fazer era viver, a seu modo, a vida que lhe tocara, sem ingerências, sem acatar ordens. Já não se calaria, nem seria instrumento de uma vontade que operasse através dele, que o reduzisse a ferramenta. Por tudo isto, Deus entendeu que a sua história deveria ser interrompida naquele instante, frente a Nínive. Afinal, Deus soube sempre aquilo que o Orson Welles nos contou não vai há muito: “Um final feliz depende, naturalmente, de onde é que se pára de contar a história.”

Jonas morreu, como todos, mas mais livre do que quase todos.

Comments

  1. Ginjo says:

    E pensava eu que as abóboras tinham sido das primeiras plantas a serem importadas da América. Será que descobri um momento “lost in translation” no antigo testamento e no alcorão (http://quran.com/37/146)?

  2. David says:

    Do que conheço da Bíblia nunca me ocorreria tomar Jonas como um modelo de liberdade. A narrativa, obviamente ficcional, surge num contexto (sécs. VI-V A.C.) em que cresce em Israel a intolerância para com os povos vizinhos. Jonas desobedece a Deus que o manda pregar a conversão da capital “inimiga”. E depois critica Deus por se compadecer e não destruir a dita cidade. Para mim Jonas é um fanático que dá lições a Deus. Dois milénios e meio depois temos muito do mesmo.

  3. Daniel Rocha says:

    APOCALIPSE (Priberan)
    1. [Religião] Livro da Bíblia com as revelações feitas a S. João Evangelista. (Há 2000 anos)
    2. Discurso assustador, obscuro ou profético.
    3. Grande desastre. = CATACLISMO, HECATOMBE
    BABILONIA: Falta de ordem ou organização. = ALGAZARRA, BABEL, CONFUSÃO
    3. [Figurado] Devassidão.

    APOCALIPSE Capitulo 17:1- 18
    Um dos sete anjos que tinham as sete tigelas veio e me disse: “Venha, vou lhe mostrar o julgamento da grande prostituta que está sentada sobre muitas águas; 2 os réis da terra cometeram imoralidade sexual com ela, e os habitantes da terra se embriagaram com o vinho da imoralidade sexual dela.”
    3 Ele me levou no poder do espírito para um deserto. E vi uma mulher sentada numa fera cor de escarlate que estava cheia de nomes blasfemos e tinha sete cabeças e dez chifres. 4 A mulher estava vestida de púrpura e escarlate, estava adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas, e tinha na mão um cálice de ouro cheio de coisas repugnantes e das coisas impuras da sua imoralidade sexual. 5 Na sua testa estava escrito um nome, um mistério: “BABILÓNIA A GRANDE, a mãe das prostitutas e das coisas repugnantes da terra.” 6 Vi que a mulher estava embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus.
    Ao vê-la, fiquei muito espantado. 7 Assim, o anjo me disse: “Por que você ficou espantado? Eu lhe direi o mistério da mulher e da fera de sete cabeças e dez chifres, que a carrega: 8 A fera que você viu era, mas não é, no entanto está para subir do abismo e irá para a destruição. E os habitantes da terra ficarão espantados quando virem que a fera era, mas não é, e no entanto estará presente.
    9 “Isto exige uma mente sábia: as sete cabeças representam sete montes, sobre os quais a mulher está sentada. 10 E há sete reis: cinco já caíram, um é, e o outro ainda não chegou, mas, quando chegar, terá de permanecer por pouco tempo. 11 E a fera que era, mas não é, ela também é um oitavo rei, mas procede dos sete, e vai para a destruição.
    12 “Os dez chifres que você viu representam dez reis, que ainda não receberam um reino, mas eles recebem autoridade como réis por uma hora, junto com a fera. 13 Eles têm um só pensamento; assim dão o seu poder e autoridade à fera. 14 Eles batalharão contra o Cordeiro,mas, visto que ele é Senhor dos senhores e Rei dos réis, o Cordeiro os vencerá.Os que estão com ele, os chamados, escolhidos e fiéis, também vencerão.”
    15 Ele me disse: “As águas que você viu, onde a prostituta está sentada, representam povos, multidões, nações e línguas. 16 Os dez chifres que você viu e a fera odiarão a prostituta; eles a deixarão devastada e nua, comerão a sua carne e a queimarão completamente no fogo. 17 Porque Deus pôs no coração deles o desejo de executarem o pensamento dele, sim, de executarem o pensamento único deles dando à fera o reino que possuem, até que as palavras de Deus se cumpram. 18 A mulher que você viu representa a grande cidade que tem um reino sobre os réis da terra.”

    APOCALIPSE 18:1-24
    Depois disso vi outro anjo descer do céu, com grande autoridade, e a terra ficou iluminada com a sua glória. 2 Ele clamou com voz forte: “Caiu! Caiu Babilónia, a Grande, e ela se tornou morada de demónios e esconderijo de todo espírito impuro e de toda ave impura e odiada! 3 Pois todas as nações caíram vítimas do vinho da paixão da sua imoralidade sexual, os réis da terra cometeram imoralidade sexual com ela, e os comerciantes da terra ficaram ricos por causa do poder do seu luxo desenvergonhado.”
    4 Ouvi outra voz vinda do céu dizer: “Saiam dela, meu povo,se não quiserem ser cúmplices dos pecados dela e se não quiserem receber parte das suas pragas. 5 Pois os pecados dela se acumularam até o céu, e Deus se lembrou dos actos injustos dela. 6 Paguem-lhe na mesma moeda, sim, paguem-lhe em dobro pelo que ela fez; no cálice em que ela preparou a bebida, preparem uma porção dupla para ela. 7 Na mesma medida em que ela se glorificou e viveu em luxo desenvergonhado, dêem-lhe tormento e luto. Porque ela diz no coração: ‘Estou sentada como rainha, não sou viúva e nunca verei luto.’
    8 É por isso que as pragas dela — morte, luto e fome — virão num só dia, e ela será completamente queimada no fogo,porque Deus, quem a julga, é forte.
    9 “E os réis da terra, que cometeram imoralidade sexual com ela e viveram com ela em luxo desenvergonhado, chorarão e baterão no peito de pesar por causa dela, quando virem a fumaça do seu incêndio. 10 Eles ficarão parados à distância, com medo do tormento dela, dizendo: ‘Ai, ai, ó grande cidade, Babilónia, cidade forte, porque numa só hora chegou o seu julgamento!’
    11 “Também, os comerciantes da terra chorarão e se lamentarão por causa dela, porque não haverá mais ninguém para comprar toda a sua mercadoria, 12 todo um carregamento de ouro, prata, pedras preciosas, pérolas, linho fino, púrpura, seda e escarlate; tudo que é feito de madeira aromática e todo tipo de objectos feitos de marfim, de madeira preciosa, de cobre, de ferro e de mármore; 13 também canela, especiaria indiana, incenso, óleo perfumado, olíbano, vinho, azeite, farinha fina, trigo, bois, ovelhas, cavalos, carruagens, escravos e vidas humanas. 14 Sim, ó Babilónia, as coisas boas que você desejou a deixaram, e todas as suas iguarias e coisas sumptuosas desapareceram, e nunca mais serão achadas.
    15 “Os comerciantes dessas coisas, que se tornaram ricos graças a ela, ficarão parados à distância com medo do tormento dela, e chorarão e se lamentarão, 16 dizendo: ‘Ai, ai, ó grande cidade, vestida de linho fino, púrpura e escarlate, ricamente adornada de enfeites de ouro, pedras preciosas e pérolas, 17 porque essas grandes riquezas foram devastadas numa só hora!’
    “E todo capitão de navio, todo navegante, os marinheiros e todos os que vivem do mar ficarão parados à distância 18 e clamarão ao ver a fumaça do incêndio dela: ‘Que cidade é semelhante à grande cidade?’ 19 Eles lançarão pó sobre a cabeça e clamarão, chorando e lamentando-se: ‘Ai, ai da grande cidade, onde, graças à sua riqueza, se enriqueceram todos os que tinham navios no mar — ela foi devastada numa só hora!’
    20 “Alegre-se por causa dela, ó céu, e também vocês, os santos, os apóstolos e os profetas, porque é em benefício de vocês que Deus pronunciou a sentença contra ela!”
    21 Então um anjo forte levantou uma pedra semelhante a uma grande pedra de moinho e a lançou no mar, dizendo: “Assim, com um lance rápido, Babilónia, a grande cidade, será lançada para baixo, e nunca mais será achada. 22 Em você, Babilónia, nunca mais se ouvirá o som de cantores tocando suas harpas, nem o som de músicos, de flautistas e de trombeteiros; jamais se achará novamente artesão algum, de qualquer profissão, e jamais se ouvirá de novo o som da pedra de moinho. 23 Em você jamais brilhará novamente a luz de lâmpada e jamais se ouvirá novamente a voz de noivo e de noiva, pois os seus comerciantes eram os grandes da terra e porque você enganou todas as nações com as suas práticas de ocultismo. 24 Sim, nela se achou o sangue dos profetas, dos santos e de todos os que foram mortos na terra.”

    Confusão, nem por isso.
    Vejamos:
    Qual a maior organização mundial (e suas ramificações) que se diz cristã e que está sentada num trono, e que representa uma cidade e tem um reino sobre os réis da terra?
    Simples, O Vaticano.
    Quem é que se diz representante de Deus na terra, e no entanto se originou do paganismo Grego e Romano, adoptando crenças pagãs, como a imortalidade da alma, culto a imagens de barro, o inferno e seus derivados, o natal, que enriquece muitos comerciantes, convertendo a religião num mero negócio?
    Quem queimou milhares de pessoas em fogueiras, (Inquisição)
    pelo simples facto de possuir uma Bíblia e querer saber o que ela diz ou querer torná-la acessível a todas as pessoas, por traduzi-la duma língua morta como o latim.
    As cruzadas, a comunhão, as liturgias, a repetição de rezas sem significado nenhum.
    A luxuria dos Papas, e a corrupção dentro do Vaticano, com lavagem de dinheiro, conivência com a matança de milhões de nativos no continente Americano e Africano.
    As guerras religiosas entre países com a crença no mesmo Deus, em que dum lado o capelão diz aos seus soldados, para lutarem até a sua ultima gota de sangue,porque Deus está com eles, e do outro lado da barricada está o outro representante do mesmo Deus dizendo o mesmo.
    Enfim, seria uma lista interminável de atrocidades que resultaram em milhões de pessoas mortas inocentes.
    Finalmente, estamos chegando ao epilogo desta situação, temos o líder religioso católico com a sua popularidade em crescendo, acusando os lideres mundiais de corrupção e ganância, (Há uma organização de capitalistas nos EU. que dizem que não enviarão mais donativos para o Vaticano, devido ao discurso do Papa).
    Um paradoxo, eles que fizeram e fazem parte dessa mesma corrupção, que no século XV dominavam meio mundo, e estiveram sempre do lado daqueles a quem agora acusam,
    o que é que esperam agora desses amigos?
    Simples aquilo que está predito, como vimos está escrito nos dois livros do Apocalipse, esses mesmos governantes se revoltarão contra essa meretriz e a destruirão, e os comerciantes que enriqueceram à custa dela se lamentarão.
    Agora, vejam e comparem o que esta predito e a situação que temos na actualidade, com a religião a ser tema central da confusão que reina no mundo, com o Islão dum lado, a querer travar uma luta final contra os infiéis do outro lado.
    Há muitos políticos que negam que isto se trata de um problema religioso. Mas cada vez mais há pessoas entendidas, que dizem que isto se está a tornar um problema de origem religiosa, pois os actos terroristas são incentivados desde os púlpitos pelos lideres religiosos.
    Conforme, o tempo for passando, nos iremos apercebendo melhor desta situação.
    É claro que isto foi escrito há mais ou menos 2000 anos, e quem o escreveu estava sob os efeitos de uma potente droga alucinogéna, nada disto é para levar a sério ou dar-lhe qualquer credibilidade, ou como diz um grande pensador dos nossos tempos e passo a citar
    ” São meros mitos urbanos”

  4. António says:

    Gostei da coluna vertebral do jonas…faltam muitas por ai