A farsa da social-democracia

PPC MAC

Apeados de forma legítima, o desespero de Passos Coelho e companhia em regressar ao poder começa a causar vergonha alheia. Mas não há outro caminho para os radicais. A corte passista sabe bem que, se o novo governo durar até 2017, o destino mais que certo no PSD serão as eleições internas. Desesperada, a direita radicalizada insiste no discurso de negação da democracia representativa e continua, qual cassete encravada, a repetir até à exaustão a narrativa gasta do golpe de Estado que a maioria do país já não leva a sério. Como de resto nunca levou. A isto junta-se a insistência na convocação de eleições antecipadas que esta última não agradou aos rapazes de Passos Coelho que ficaram sem tachos. Eles bem tentaram (e conseguiram) nomear algumas centenas de amigos antes de serem despejados, mas já não dá para enxamear a Administração Pública como o vinham fazendo até aqui. 

Contudo, nem toda esta malta Tea Party tuga é parva e, apercebendo-se que nada de bom poderá resultado do seu acantonamento à direita, querem recuperar o centro que espezinharam durante quatro anos com uma carga fiscal brutal que prometeram não aplicar, com sucessivos cortes salariais e em prestações sociais que prometeram não efectuar e com aquilo a que chamaram “flexibilização” do mercado de trabalho, que mais não foi que a destruição de uma série de direitos laborais que precarizaram ainda mais a situação dos trabalhadores. E como fazem isso? Manipulando os portugueses. E manipulam os portugueses com discursos hipócritas que só as ovelhas do seu rebanho engolem, berrando aos quatro ventos que são moderados e que o governo de Costa é um novo PREC, como se os seus berros transformassem um embuste – e olhem que eles percebem de embustes – numa verdade absoluta, e preparam-se agora para recorrer à arma secreta do costume, que aliada ao papel de vitima que tão bem sabem representar, lá costuma dar para convencer uns quantos palermas: a social-democracia.

A coisa é tão absurda que o autarca da minha terra (PSD/CDS-PP), a Trofa – aquele que recentemente violou a liberdade de imprensa de um jornal local – disse mesmo num programa da RTP2 que era de centro-esquerda. É neste ponto que estamos. A cereja no cimo do bolo será lançada ao final da tarde de hoje quando estrear o novo tempo de antena do PSD, dedicado a explicar aos portugueses o que é a social-democracia no século XXI. A versão reescrita deles pois claro, que para reescrever a história eles estão sempre disponíveis. E a julgar pelo teaser que já roda por aí, a coisa passa por:

  1. Conjugar o Estado Social com a iniciativa privada: que na novilíngua do PàF deverá significar algo como espremer o Estado Social para financiar a iniciativa privada das suas clientelas (reparem na diferença do tamanho de letra de “Estado Social” e “iniciativa privada” no vídeo e tirem as vossas próprias conclusões);
  2. Enfrentar e vencer o maior combate de Portugal democrático: que combate é que o Portugal democrático venceu se estes sujeitos nem a democracia representativa respeitam? Talvez se refiram ao combate aos portugueses, que enfrentaram e empobreceram, deixando-lhes um país mais endividado e precário e uma mão cheia de embustes pré-eleitorais.

Acima de tudo a liberdade dizem eles. Acima de tudo Portugal! Não será mais acima de tudo os mercados? Ou quem sabe acima de tudo os banqueiros? Porque não acima de tudo os empresários da sector privado da saúde? Ou da educação? E que tal acima de tudo a Alemanha? Ou acima de tudo privatizar barato para os amigos? Ou mesmo acima de tudo indicadores manipulados para ganhar eleições? Servem todas, escolham a que preferirem!

Estes indivíduos pensam que podem passar uma borracha na história recente do país, abrir a gaveta e tirar o Sá Carneiro cá para fora e nós, todos palermas, engolimos tudo alegremente. A farsa da social-democracia está de volta!

Foto: Nélson Garrido@Público

Comments

  1. António Fernando Nabais says:

    O país está a virar tanto à esquerda que o PSD está quase a chegar ao centro.

    • Helder P. says:

      O actual governo do PS, apesar de apoiado por partido mais à esquerda, é mesmo um governo de centro-esquerda, em nada diferentes de outros tantos na Europa . O que faz confusão, é que o PS em governos anteriores governava no espaço centro-direita em justaposição com o PSD e agora corrigiu a trajectória.
      Um governo da social-democracia portanto, que é uma ideologia de esquerda, note-se. Mas se lhe quiserem chamar “social-comunista”, apesar de não achar que corresponde à realidade, tudo bem por mim. Comunista para mim não é um insulto.
      Actualmente, o centro-direita eclipsou-se. O PSD é um partido de direita mesmo, o CDS-PP tem mesmo laivos de extrema-direita.


      • Corrigiu a trajectória e está obrigado a negociar em permanência. O Parlamento volta a ter relevância e deixa de ser uma caixa de ressonância do governo. Acho que em 31 anos de vida esta é a primeira vez que vejo a democracia em efectivo funcionamento no nosso Parlamento.


    • Nem assim Nabais. O país vira à esquerda é nem assim os gajos conseguem sequer chegar perto do centro!

  2. Helder P. says:

    Em situações de aflição, o PSD recorre sempre à alusão ao mártir Sá Carneiro e ao mito da social-democracia. O povo como gosta de uma boa novela, costuma aderir. Ficção política ao estilo folhetim.

  3. Quero ser anónimo says:

    Sempre que leio sobre o “tema” da ilegitimidade do PS governar fico a pensar…

    Mas então o PSD não foi aliado do BE e do PCP para deitar abaixo o governo Sócrates?

    Agora querem novas eleições, depois outras e depois outras até terem a maioria?

    Até o empalhado percebeu! (Demorou 2 meses mas percebeu)!

  4. Caniggia says:

    Enganaram o eleitorado uma vez, e podemos por a culpa neles, enganam uma segunda, e a culpa passa a ser nossa. Á segunda só cai quem quer.


  5. O maior e mais corrupto comediante da história contemporânea de Portugal, porque tao ladrao é o que vai à horta como o que fica à porta. Até àé obtençao de mais e melhores provas.

  6. Rui Moringa says:

    Prosélitos do poder. O poder é uma coisa excitante. É o céu por antecedência.
    Para o garantir fazer o papel de diabos.
    À boa maneira do Eça, isto precisava mesmo de umas boas bordoadas.

  7. Maria João says:

    Caro João Mendes, permita-me cumprimentá-lo por mais uma excelente analise.
    Só discordo (na verdade nem é bem discordar, é constatar tristemente…) quando faz a sua última afirmação, sobre a circunstância de a direita pretender com os seus discursos propagandísticos passar uma borracha na história recente de Portugal, como se nós não nos esquecêssemos disso tão cedo. Infelizmente, a maioria das pessoas ou tem memória de passarinho, ou é iletrado do ponto de vista cívico e/ou democrático, ou está ocupado a tentar sobreviver, ou infelizmente isto tudo junto.
    Os exemplos de incoerência, demagogia, propaganda são tantos, foram e continuam a ser cuspidos por esta direita extremada, que a realidade ultrapassa a distopia de Orwell…

    Cumprimentos


    • exactamente! e os resultados das eleições provam isso mesmo! sinto-me insultado como Português de a PáF ter de facto ganho as eleições, felizmente sem maioria.


    • Tem razão Maria João. Mas acredito que este tempo de sacrifício, em conjunto com aspectos tecnológicos que nos permitem estar mais perto daquilo que vai acontecendo, têm vindo a consciencializar cada vez mais pessoas. É um facto que tal não se revê na taxa de abstenção, uma vez mais preocupante nestas eleições, Mas ver a direita que tinha maioria absoluta, fruto de uma coligação, não chegar sequer a 40% é algo que me deixa algo esperançoso.

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  1. […] sempre“. Depois de anos enfiada no fundo de uma gaveta fechada a sete chaves, a farsa da social-democracia está volta. Mais um bocadinho ainda voltam a ser Pelo […]