Dia de São Ranking

Graças à abundância de dados estatísticos, vivemos no paradigma da rankinguização, porque tudo é rankinguizável. Ele é as três melhores cidades com as mais belas repartições de Finanças, ele é as dez livrarias com mais ácaros no mundo, ele é os cinco cus mais espectaculares dos países nórdicos, ele é o diabo a quatro!

No fundo, esta moda está associada a uma certa pimbalhização (o neologismo está a render, hoje), patente em revistas e livros de auto-ajuda com títulos como “As dez maneiras de a/o deixar louca na cama” ou “As quinze perguntas que deve fazer a si próprio dois minutos antes de se levantar”.

Ontem, voltaram a ser publicados os rankings das escolas e reapareceram os mesmos erros de análise e as mesmas frases bombásticas. Por isso, não há muito mais a dizer, porque o mundo está transformado num campeonato perpétuo.

Os defensores cegos do Ensino Privado continuam a esconder que as escolas mais bem classificadas, de uma maneira geral, escolhem os alunos, desvalorizam as disciplinas que não estejam sujeitas a exames nacionais, inflacionam as classificações internas e desrespeitam abundantemente os direitos laborais dos professores.

Entretanto, pessoas ligadas às escolas públicas deixam-se arrastar para este festim de marketing, comemorando subidas nos rankings e ajudando, desse modo, a perpetuar publicamente a ideia de que estas listas servem para avaliar o seu trabalho. Ora, a verdade é que, em muitos estabelecimentos de ensino, uma média negativa pode corresponder a um enorme sucesso, se se tiver em conta muitos outros condicionalismos.

Leia-se a recomendação do Paulo Guinote para que haja uma melhor publicação dos rankings. Um dia, talvez seja possível, mesmo sabendo que os desonestos e os distraídos não ficarão calados.

Comments


  1. Se há escolas do ensino privado que têm comportamentos pouco éticos, denunciem-se concretamante que, quais e onde.
    N\ao esquecer, no entanto, que as grandes faculdades do mundo são privadas (Cambridge, Oxford, Yale) pelo que o mal não estará na titularidade dos estabelecimentos de ensino.
    Quanto a Portugal, preocupo-me com o estado da educação seja pública, seja privada. Aliás, esta recente discussão entre público/privado soa um pouco artificial (talvez importada de França) já que em Portugal a importância dos liceus de Lisboa, Porto ou Coimbra foi enorme e acolhiam todas as classes e os colégios particulares nunca tiveram muita importância. Quanto às universidades privadas foi a custo que Salazar autorizou a Católica.

  2. Rui Moringa says:

    Apreciei o texto. Analisa com clareza as origens do mal (negócio) da educação com a propaganda da liberdade de escolha.
    Nada tenho contra as escolas criadas por iniciativa privada desde que não “pesquem” no orçamento de estado.
    Sobre as listas de posição, os critérios estão contaminados pelas habilidades mencionadas no texto.
    A competição a qualquer custo é um malefício para as relações sociais.

  3. JgMenos says:

    Discutam com base em medidas, rankings e outras, não em cima de tretas obscuras que servem a acoitar o facilitismo.
    Só o que pode ser medido pode ser seguramente melhorado.

    • António Fernando Nabais says:

      Talvez por serem obscuras, não consigo perceber a que tretas se refere. E concordo em parte: só o que pode ser medido ou observado é que pode ser melhorado. Expliquemos, então: os “rankings” permitem medir pouca coisa e confirmam aquilo que já se sabe: as escolas com melhores alunos têm melhores resultados nos exames. Se continuarmos a medir, verificaremos que os melhores alunos, de uma maneira geral, pertencem a famílias com um estatuto socioeconómico e/ou sociocultural elevado, o que quer dizer que as escolas ainda não conseguem esbater as diferenças, o que, por sua vez, pode querer dizer que não têm recursos suficientes. Ainda por cima, a própria fiabilidade dos “rankings” fica posta em causa, quando há alterações constantes dos programas e da estrutura dos exames. Finalmente, a sobrevalorização dos exames é uma forma de facilitismo, o que não quer dizer que eu seja contra os exames.

    • Pécuchet says:

      JGMenos, eu, feroz positivista como o meu amigo, também acho que isto do ensino devia ser medido. Ao litro, ao quilo, gráficos, tabelas excel, seja como for. O resto, como raciocinar, por exemplo, é demasiado sobrestimado.

Trackbacks


  1. […] por outro, lembram que as melhores escolas são as privadas porque estão nos melhores lugares dos rankings. Em ambos os casos, há simplismo ou […]


  2. […] Pois. A verdade é que os exames não são causa de desigualdade social, são, isso sim, um reflexo. De uma maneira geral, aliás, as desigualdades sociais são uma das causas das desigualdades nos resultados educativos, mesmo que muita gente teime em confundir os rankings com a Ovibeja. […]

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