Os exames e as desigualdades sociais

Numa notícia com o título “Exames agravam desigualdades entre alunos e alimentam mercado das explicações”, divulga-se uma tese de doutoramento em Educação, dando, também, a palavra à autora. O título do estudo é Exames nacionais, apoios pedagógicos e explicações: a complexa construção dos resultados escolares em Portugal. Só é permitido o acesso a um resumo.

Embora a ideia de que os exames são causa das desigualdades entre os alunos não esteja presente no resumo, a autora afirma-o: «Andreia Gouveia afirma que é “inegável” que os exames são uma causa para o “agravamento das desigualdades sociais no acesso ao reconhecimento escolar”.»

O Paulo Guinote pergunta, e bem: “A Ver Se Percebo… Se Acabarem os Exames Acabam as Desigualdades e os Pobrezinhos Passam Todos a Entrar em Medicina e Arquitectura e na Carreira Diplomática e Etc?”

Pois. A verdade é que os exames não são causa de desigualdade social, são, isso sim, um reflexo. De uma maneira geral, aliás, as desigualdades sociais são uma das causas das desigualdades nos resultados educativos, mesmo que muita gente teime em confundir os rankings com a Ovibeja.

De resto, a autora tem razão em alguns aspectos: o modo como o sistema está concebido leva a que os exames ganhem uma importância eventualmente desmesurada, com benefícios, claro, para centros de explicações ou para explicadores. Parece-me que, neste estudo, não há referências, no entanto, aos muitos colégios que treinam a preparação de exames, devido ao acesso ao Ensino Superior.

Entretanto, há mais umas conclusões que são como cães a passar por vinha vindimada, nomeadamente a de que os alunos preferem as explicações aos apoios concedidos pelas escolas. Claro que faltaria explicar que as escolas não têm autonomia e recursos suficientes para que haja apoios suficientes ou a horas da preferência dos alunos.

Um dos grandes problemas do Ensino, em Portugal, reside no acesso ao Ensino Superior, mas modificar isso daria muito trabalho e não poderia ser simples cosmética como a que consiste em pôr ou tirar exames no Ensino Básico ou inventar provas de aferição que não servem para nada. A propósito, o debate na caixa de comentários do texto do Paulo Guinote está interessante.

Um outro problema, estrutural, está na relação entre o meio sociocultural e o rendimento escolar dos alunos e na ausência de verdadeiras políticas sociais. O rio educativo, como qualquer rio não metafórico, tem montante, jusante, margens e poluição, muita poluição.

Comments

  1. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Há muito que defendo que se acabe com a ditadura das médias para entrar na Universidade. Com ou sem exames finais (não sou contra), a nota final do Secundário deveria ser apenas indicativa, deixando-se ao critério de cada Universidade a forma como iriam seleccionar os seus futuros alunos de entre os candidatos (com prova, com entrevista, com prova + entrevista, etc.). Assim, evitava-se o “tráfico de notas” e a inflação destas, e repunha-se (talvez) alguma justiça no sistema.

    Quanto às desigualdades – desenganem-se. Havendo dois seres humanos, haverá fatalmente desigualdade. Só quando formos todos robots é que deixa de haver desigualdade.

    • António Fernando Nabais says:

      É evidente que todos somos desiguais. Não é disso que se trata. A Escola deve ter condições para, na medida do possível, compensar as desigualdades sociais.

      • Fernando Manuel Rodrigues says:

        As desigualdades sociais propriamente ditas, concordo em absoluto. Só que muitas outras desigualdades, e há desigualdades de outros géneros.

        E também não é justo quando a escola esbanja recursos em alunos que objectivamente não estão interessados, e descura outros que poderiam aproveitar bem melhor esses recursos, mas que até já obtêm bons resultados sem ajuda.

        • Renato says:

          Fernando, está a fazer-se desentendido. Do que se está a falar é de desigualdades de oportunidades, que deve ser compensada pela escola. Que somos todos desiguais já se sabe, homem. Eu tenho 1 metro e 65 e não chego tão alto como alguém que tem 1 metro e 80.
          Quanto ao resto, felizmente nunca tive professores que pensassem como você, e olhe que já sou bem antigo e tive professores da velha guarda. A função de um professor (e da escola, em geral) é interessar o aluno pelas matérias e pelo conhecimento. Se não estão interessados, a culpa é do professor, que não tem competência. Os recursos da escola nunca são “esbanjados” quando se trata de fazer esforço para ensinar. O Fernando é professor?…espero que não.


  2. Artigo muito interessante e que me deixou curiosa: não estará essa notícia que refere a desvirtuar as afirmações e conclusões da tese de doutoramento? Normalmente é isso que as parangonas nos jornais fazem. É que a ser verdade que a autora estabelece de facto essa relação, roça até o patético pois a lógica está invertida.
    No meu tempo, praticamente só os alunos do 12º ano (ou mais alargadamente, os alunos do secundário) é que recorriam a explicações. E nas escolas não havia outro qualquer apoio. Hoje em dia, os pais procuram proporcionar aos seus filhos apoio extracurricular desde tenra idade, já não sendo por isso apenas os estudantes em fim de ciclo que necessitam desse apoio com o olho exclusivamente na meta final – o Exame.

    Que o acesso ao apoio extracurricular, seja ele dado nas escolas (conheço muitas onde as aulas de apoio até funcionam bem e os alunos são assíduos frequentadores), em centros de estudo, em colégios privados ou até pela boazona da vizinha do 3º andar, tem resultados diretos na melhoria dos resultados escolares, isso sem dúvida! E não só é isto bem visível em alunos em fim de ciclo como em todos os outros graus e faixas etárias.
    (perdão por usurpar tanto espaço na cx de comentários) 🙂

    • António Fernando Nabais says:

      O título da notícia causou-me a mesma perplexidade. No entanto, no texto, as declarações da autora parecem ir nesse sentido.
      Não usurpa nada. Usa.

  3. Bento Caeiro says:

    Sobre as questões que têm a ver com o ensino e com os ensinadores e ensinados, por experiência própria, apenas digo o seguinte: jamais estudei para os exames, mas, como tinha plena consciência que seria avaliado por essa forma, mais ainda estudava. Como tal, os resultados sempre estiveram de acordo com a dedicação e com aquilo que pretendia. Por isso, tenho a certeza que me sentiria profundamente decepcionado no caso de, eu como trabalhador-estudante e sem quaisquer ajudas do Estado, vir a ser preterido – por omissão de sistema de avaliação – a favor de qualquer indivíduo com muito menos preparação, na escolha de um determinado curso. Os riscos disto acontecer aumentarão, obviamente, com a inexistência de exames e também com a possibilidade do estabelecimento de ensino de, per si, organizar e implementar as formas de acesso ao mesmo.
    Até porque, mesmo que os exames sejam “uma causa para o agravamento das desigualdades sociais no acesso ao reconhecimento escolar”; eles, os exames, por função e finalidade, poderão – pelo esforço e dedicação de cada um -produzir efeitos contrários. Pela simples razão que o reconhecimento escolar não poderá ser obtido pela via administrativa e terá – pelo menos a partir de determinado grau ou nível – de assentar na selecção dos melhores e mais empenhados.
    Também é certo que, se o negócio em torno das explicações é o resultado da degradação do sistema de ensino e do demasiado empenho nos exames, resulta mais da atitude dos ensinados – em dedicação e disciplina – face ao ensino.

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