«Science: it’s a girl thing!»… será mesmo?*


Science- it's a girl thingEm 2012 a União Europeia lançou uma campanha de três anos com o título ‘Science: it’s a girl thing!’**. Só a circunstância de existir uma campanha específica que pretendia demonstrar que o trabalho científico pode ser, e é, também realizado no feminino, demonstra que estamos longe, neste domínio como em muitos outros, tanto na esfera profissional como na esfera pessoal, da igualdade de oportunidades, consagrada na legislação de muitos países, incluindo Portugal. De facto, em 2012, as mulheres representavam 46% dos doutorados na União Europeia. No entanto, apenas 33% das mulheres trabalhavam como investigadoras e só 20% se encontravam em cargos de topo da carreira académica. Apenas uma em cada 10 universidades da União Europeia tinha tido alguma vez uma mulher como reitora. Ou seja, apesar de as mulheres serem tão qualificadas como os homens elas continuavam (e continuam, três anos passados) a estar amplamente sub-representadas na investigação, na academia e muito particularmente nos lugares de topo das carreiras académicas e nos órgãos de poder e decisão das instituições de investigação e ensino superior.

Em 2012 escrevi justamente um texto para o ua.online (http://uaonline.ua.pt/pub/detail.asp?c=17878) em que abordava estas questões. A pergunta feita a um grupo de investigadoras e docentes da Universidade de Aveiro foi: qual o papel da mulher na ciência? Argumentei então – como argumento hoje – que se existe necessidade sequer de fazer essa pergunta, se existe necessidade sequer de promover campanhas de estímulo à entrada de mulheres nas carreiras científicas e académicas, é porque claramente as mulheres ainda são a minoria. Porque, efetivamente, ninguém questiona qual o papel do homem na ciência nem se lançam campanhas institucionais para promover o envolvimento dos homens na investigação. Embora se tenha verificado uma evolução positiva em termos de representação das mulheres nas carreiras científicas nos últimos 3 ou 4 anos (dados da União Europeia de 2015 mostram que as mulheres representam agora 47% dos doutorados, mas continuam a ser apenas 33% dos investigadores e 21% dos cientistas de topo), essa evolução foi residual, tal como residuais parecem ser ainda os mecanismos de promoção da igualdade de oportunidades neste domínio***

Portugal encontra-se exatamente entre os países em que, apesar da relativa igualdade em termos de qualificações académicas, a diferença entre homens e mulheres, no que se refere às carreiras de investigação, permanece grande. Estamos mesmo na ‘cauda da Europa’ no que diz respeito à ocupação de cargos científicos e de administração nas instituições relacionadas com a investigação científica. De facto 80% dos investigadores em posições de topo são homens. Na Universidade de Aveiro, por exemplo, cerca de 42% dos docentes e investigadores são mulheres, mas continuam a contar-se – como se contavam em 2012 – pelos dedos das mãos, as mulheres que se encontram nas direções dos departamentos, que se sentam nas reuniões do Conselho Científico ou do Conselho Geral e que são vice ou pró-reitoras. É, porém, de salientar que a Universidade de Aveiro se encontra entre as poucas universidades portuguesas e europeias que já tiveram mulheres como reitoras.

Uma parte da persistência das desigualdades de género na investigação científica deriva da persistência das desigualdades de género na sociedade. Por exemplo, às mulheres cabe ainda predominantemente o trabalho na esfera doméstica, o cuidado com os filhos e outros dependentes. A compatibilização entre a vida profissional e a vida pessoal é ainda, assim, mais difícil para as mulheres do que para os homens. O tempo das mulheres e dos homens, na ciência e fora dela, é ainda muito desigual. A outra parte da responsabilidade cabe às próprias instituições e à negligência de uma questão que muitos – especialmente os homens – consideram menor e persistem em não abordar. E são os homens que decidem as questões relevantes ainda em grande medida. Em geral, não existem medidas de descriminação positiva para minimizar estas desigualdades e para promover uma efetiva igualdade de género relativamente às carreiras científicas e o equilíbrio de género nos órgãos de administração e gestão. Estas medidas são necessárias se queremos que a ciência seja efetiva e plenamente, em todas as suas dimensões, ‘uma coisa de mulheres’. No dia 8 de março vale a pena que os homens e as mulheres cientistas pensem nisto. Mas pensar nisto apenas neste dia, sem práticas diárias consequentes no interior das instituições, será continuar a reproduzir as desigualdades. Mais do que escrever textos de chamada de atenção para os problemas das mulheres na ciência (que, bem entendido, são ‘insignificâncias’ se comparados com os problemas das mulheres em geral, especificamente os problemas associados ao desrespeito de direitos fundamentais) seria importante tomar quotidianamente medidas para a promoção da igualdade.

 

*Texto publicado hoje no Ua.Online, o Jornal online da Universidade de Aveiro
** A campanha da União Europeia reproduzia, como aliás se pode ver na fotografia que acompanha este texto, alguns estereótipos de género. Foi considerada por muitos – incluindo eu mesma – um fiasco no que se refere aos seus objetivos de promoção da igualdade de género. O vídeo desta campanha pode ser visto Aqui
*** Alguns dados foram retirados daqui

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