A propósito da data

De uma conhecida recebi hoje isto, por ocasião do dia da mulher:

mulher

É bonito. Mas no momento seguinte faz lembrar a verdadeira selvajaria, a bruta.

No contexto da violência doméstica, de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2015, registaram-se 29 homicídios de mulheres. E nos últimos 12 anos houve uma média anual de 36 mulheres mortas, recordou a procuradora-geral distrital do Porto, Raquel Desterro.

E:   Em Portugal, 24% das mulheres já sofreram de violência física ou sexual por um parceiro ou não parceiro.

É preciso mais do que resistir mantendo a ternura, é preciso reagir. Abdicando, se necessário, de ser flor.

Comments

  1. Konigvs says:

    É curioso que recentemente, discuti com diferentes mulheres as minhas ideias acerca da violência doméstica, em que eu acho que muitas vezes, o grande culpado, na maioria das vezes culpada no feminino, é a vítima.
    Não, não sou aquele machista que acha que toda a mulher que anda de roupa provocante “está a pedi-las”.
    Mas o que eu acho, é que, não é ao fim de um casamento frustrado de dez anos, é que um homem decide dar um enxerto de porrada a ponto de a deixar às portas da morte.
    Não, muito antes disso aconteceram muitas coisas. Muitas vezes todos os sinais estão lá, mas as vítimas preferem acreditar que com elas será diferente, ou então preferem acreditar, por exemplo, que quando o homem, ainda no namoro, as manipula numa coisa tão simples como na roupa que usam, é porque gostam muito delas. É o ciume dizem, mas eu digo que o ciume nada tem a ver com a roupa que se veste, se não mais vale passarem a vestir uma burka. E as vítimas acreditam até, quando começam as primeiras vias de facto, que levam nas trombas porque eles gostam muito delas.
    Numa destas conversas, uma colega de trabalho, dizia-me que há pouco tempo ouvia duas mulheres a conversar no comboio e que a conversa quase lhe dava vómitos. Uma das mulheres contava à outra acerca desses sinais, dessas agressões, e depois acrescentava “mas sabes, parece que o ditado está mesmo certo… quanto mais ele me bate mais gosto dele”.

    Agora eu sei perfeitamente que é muito fácil estar no meu papel de criticar as vítimas. Sei que nem sempre tudo é a preto e branco. Ainda por estes dias o The Guardian publicava um artigo muito interessante, em que falava de mulheres vítimas de agressões sexuais, que têm comportamentos aparentemente tão incompreensíveis e perturbadores, como por exemplo escrever uma carta de amor ou combinar mais saídas: http://www.theguardian.com/world/2016/feb/13/jian-ghomeshi-trial-sexual-assault-victims-response

    Eu sei que os agressores sabem manipular muito bem. Ainda me lembro bem do filme “Dormindo com o inimigo” que mostra isso muito bem. Mas eu continuo na minha, hoje em dia, em que a mulher não depende do homem para nada, e é completamente autónoma e independente financeiramente (ao contrário de décadas passadas), acho que tudo isto ainda acontece, porque a mulher (ou o homem) não se faz respeitar, não impõe um limite desde o primeiro indício. As pessoas que escolhemos para serem nossas companheiras só têm uma oportunidade de mostrarem que merecem a nossa confiança. E se nós aceitamos quem nos maltrata, então depois mais à frente não nos podemos queixar, porque fomos nós que aceitamos ser maltratados.

    • Ana Moreno says:

      Concordo que há de tudo. Mas há mulheres que apenas têm muito, muito medo. Há homens prontos para tudo – e mulheres também. De qualquer forma, “blaming the victim” não é uma abordagem apropriada, há muitas mulheres que querem libertar-se de situações dessas e não têm apoio para isso. É melhor irmos por essa via – havendo os apoios, haverá muitas que a eles se agarram. Uma pequena parte poderá gostar (pode mesmo???), por falta total de amor próprio e à vida. A essas podem depois os agressores pôr as tais flores na campa, em homenagem à ternura.


    • Sr. Konigvs, entendo os seus argumentos, mas de um ponto de vista meramente tecnocrático e superficial. É certo que há de tudo, mas a tónica é que a nossa sociedade está cheia (cheíssima) de valores que colocam a mulher num plano que não lhe(nos) pertence e que muitas vezes acabam(os) por interiorizar como delas(nosso). Para que possa compreender por que algumas mulheres suportam a violência doméstica terá de se empenhar e por-se um bocadinho na pele da(s) vítima(s): não sei se alguma vez sentiu na escola que TINHA de ser macho porque era o que esperavam de si. Ou se, no seu trabalho, teve de fazer, dizer ou pensar determinada coisa porque o chefe é que manda…
      Ajudei?
      PS- Imagino que pensará a mesma coisa acerca da violência que se vive na escola (bullying), e no trabalho (mobbing).

      • Konigvs says:

        É o meu ponto de vista e tenho direito a ele, tal como vocês têm direito ao vosso. Eu felizmente observo muito bem o mundo à minha volta, não me interessasse eu por tudo o que são os relacionamentos entre as pessoas, seja em relações de amizade, de amor, ou de trabalho. Para mim é quase um desporto, no local de trabalho, ver as pessoas constantemente a manipularem-se umas às outras, como parecem tão amigas pela frente e depois lhes cortam na casaca pelas costas. E nas costas dos outros vemos as nossas. Ou a forma como, apesar de serem casadas, mudam as rotinas de anos para estar com novo colega que foi para lá trabalhar, e como passado umas semanas, voltam às rotinas iniciais. Fascinam-me os comportamentos das pessoas. O chato é já se ter uns quantos cabelos brancos, e assistir a um jogo totalmente previsível, que já sabemos como vai acabar.

        E não me venham com essa conversa da treta que as mulheres são umas pobres vítimas da sociedade porque isso fica-vos mal. Vocês conseguem melhores argumentos que esses. Ou querem que eu vos fale de como muitas mulheres sobem rapidamente nas empresas? Eu pelo menos não cometo a indelicadeza de achar que as mulheres são todas umas putas. Porque felizmente não são. Mas como sabem sabem, há-as por aí aos pontapés em todo o lado. Muitas ultrapassam rapidamente muitos homens no emprego, outras preferem dedicar-se à caça. Do bom casamento, de velhos e ricos de preferência.

        E virem-me comparar a violência nas escolas, em que os mais velhos escolhem sempre os mais fracos para bater, e as crianças que infelizmente não têm como fugir, pois têm de ir todos os dias para a mesma escola, e muitas vivem os seus dramas caladas, com uma relação entre dois adultos (ou adolescentes) em que a qualquer momento um deles se pode pôr a mexer em qualquer altura?

        Pois então vou também eu fazer uma comparação.
        Muito aqui no vosso blogue de fala de política, sei lá, 80%? Pois então, tivemos no período mais difícil do país, o pior governo de sempre. Mentiu, disse que fazia uma coisa, que se ia acabar com a austeridade e os PEC e que vinha aí a finalmente prosperidade, era só cortar nas gorduras do Estado. E o que fez? Roubou salários, subsídios, feriados, privatizou a saúde, extinguiu freguesias, tribunais e maternidades, injetou dinheiro em bancos privados, fizeram trinta por uma linha e no final ainda tivemos mais dívida! Nestes quase cinco anos fizeram-se muitas greves, houve muitas manifestações, muita gente saiu do país, houve muita insatisfação. Mas houve eleições e quem as ganhou? Precisamente. O agressor, aquele que roubou, que tudo tirou às pessoas, incluindo a esperança numa vida melhor.
        Sim. Não culpo o Passos e o Portas. Sim, culpo quem neles votou porque eles não chegaram ao poder como Salazar, mas sim pela escolha voluntária das pessoas. As pessoas escolheram ser humilhadas… e não fosse o Jerónimo era isso que iria, de novo acontecer.
        Sim, culpo mais uma vez as vítimas, que de coitadinhas nada têm, pois escolheram, de novo, votar em quem os fode bem fodidos.
        Estamos mais uma vez a falar de escolhas. Se um homem ou uma mulher escolhe um traste para namorar, e não se faz respeitar, e aceita ser frequentemente maltratado(a), desculpem-me, mas para mim, parte do problema desta pessoa está nela própria e não no agressor.