Carta do Canadá – As listas da KGB


Por estes dias são vistas à lupa as listas dos filiados do chamado estado islâmico e as dos colaboradores da KGB, a temível polícia política da defunta União Soviética. Parece que numas e noutras há portugueses, o que não surpreende porque há portugueses em toda a parte. Diz-se que é desta vez que se fica a saber por inteiro como foi aquilo dos ficheiros da PIDE terem ido parar a Moscovo.  Eu duvido mas, por outro lado, acredito em milagres.

Em 1975 havia agentes soviéticos, disfarçados, no aeroporto de Lisboa. E escutas com material fornecido pela Alemanha de Leste, segundo se dizia. Era notório que o PCP tinha grande apoio da União Soviética. Uma vez um comandante duma base aérea contou que, ao fazer voos rasantes no Alentejo, viu densos grupos em pânico, fugindo para trás de moitas, tendo apurado depois que eram revolucionários de vários países, incluindo russos. Por piada, esse comandante até sugeriu voltar aos voos rasantes com pessoas atrás munidas de vassouras. Ia-se varrendo, até eles chegarem a casa.

Os mais novos não viveram estas peripécias e talvez não saibam que a revolução portuguesa despertou uma intensa curiosidade internacional.  Logos nos dois primeiros dias aterraram em Lisboa legiões de jornalistas estrangeiros. Um deles era o Roberto, do brasileiro Globo, um gigante com melena loira ao vento, sorna e com graça, profissional de mão cheia que actuava rápido e tinha um faro de perdigueiro. Fez dum bar de Lisboa o seu quartel general e deu certo porque por ali passava todo o mundo e seu pai. Trabalhava todo o dia como um escravo mas, quando o sol se punha, fechava a loja, jantava e bebia como uma esponja.  Isso dava-lhe problemas gritados com a companheira, uma beleza carioca que desfilava na escola de samba do Mangueira e que ele tinha roubado a Vinicius de Morais. Para simplificar as coisas, vendeu ao jornal a ideia de que a dama era excelente jornalista e foi nessa qualidade que ela se espanejou por Lisboa. O jornalismo é como a política, dá para tudo. Tirando as brigas por causa das bebedeiras nocturnas do Roberto, a paz do lar era garantida. É que ele, com copos, era impossível de aturar. Isso mesmo me foi atestado por dois outros jornalistas brasileiros aterrados em Lisboa, o Elmano Alves e o Castelo Branco.  No tempo do governo pró-soviético de João Goulart, os três jornalistas pimpões pediram uma entrevista ao embaixador da União Soviética no Brasil. Foram chamados e recebidos com toda a cortesia e desculpas porque o senhor embaixador estava em conferência telefónica, ia demorar um bocado. Sentaram-se e de imediato vieram empregados com carrinhos carregados de caviar,  vodka e outros aperitivos. Roberto, Castelo Branco e Elmano deram-se bem com os petiscos. Quando, passado um grande bocado, o embaixador apareceu, estavam os três bêbados. O embaixador era um homem elegante, de bela cabeleira branca, um senior de qualidade. Eles, a fazerem das tripas coração, lá foram tratando da enrevista. A dada altura, o Elmano, que era muito inteligente, fez uma pergunta tremendamente embaraçosa. O diplomata respirou fundo e, num tom de voz calmo, deu a volta por cima com uma resposta que não respondia a nada. Os rapazes ficaram boquiabertos. Foi então que o Roberto, bêbado e entusiasmado ao rubro, levantou o corpanzil, pegou no embaixador a peso e berrou: “Eta velhinho safado”.  Depois foi a cegada dos seguranças a arrancarem o senhor das garras do Roberto, altos funcionários que nasciam do chão dispostos a tudo. Mas o embaixador serenou tudo e todos e acabou a entrevista como se nada tivesse acontecido.

Este era o Roberto.  Numa tarde, no tal bar, estávamos uns quantos com o Roberto quando entrou um estrangeiro dum loiro deslavado que nem chegou a sentar-se porque o Roberto se foi a ele: “Yuri, minino, que coisa porreta você estar aqui. Há tanto tempo que eu não sabia di você”.  E a voltar-se para nós, explicando: “O Yuri eu conheço ele desde que ele esteve no Brasil, no tempo do João Goulart e do Brizzola. Depois estive em ele em Santiago do Chile quando o Pinochet entrou.  Eta, Yuri, você é um minino d´oiro prá  tal de KGB”. O outro a patinar, a querer desenfiar-se dali de qualquer maneira, e lá acabou por se livrar das ternuras do Roberto em hora de sobriedade.

Um dia voltei a saber do Yuri. Estava na lista dos russos que o governo de Francisco Sá Carneiro expulsou do nosso país. Parece que tinham actividades de grupo que não eram terço nem missa.

Comments


  1. Isto é tudo mentira. Nada disto aconteceu. Nem os arquivos foram parar à URSS nem o PCP teve apoio do KGB, que, aliás, nunca por cá andaram e eu nunca os vi nem eu nunca falei com um deles, uma vez, em Coruche. Tudo mentira. Tudo bocas da reacção. Os únicos que por cá andavam eram da CIA.

  2. Martinhopm says:

    Os arquivos da PIDE não os teria levado com ele Sá Carneiro? Afinal quem foi(foram) o(s) responsável(eis)? pelo derrube do avião? Quanto ao resto e ao KGB, não querem lá ver que a CIA ‘y sus muchachos’ não andavam por cá…Mais: e não deram uma mãozinha ao torcionário Pinochet?! Só não entendo o governo de João Goulart ser pró-soviético. Ou será que o defunto governo do PáF foi pró-Merkel?

  3. Fernando Cerdo says:

    A actividade desta natureza no Portugal de 74-75 foi, na sua esmagadora maioria, protagonizada pela CIA e outros serviços ocidentais no ambito da estratégia anti-Soviética da NATO conhecida hoje como a “Operação Gládio”, uma operação involvendo uma vasta rede de agentes e extremistas de “bandeira falsa” em toda a Europa Ocidental cujos detalhes até chegaram a ser investigados nos anos 90 por uma comissão de inquérito parlamentar italiana. Ao contrário do que diziam e dizem certos jornaleiros de inverdades herdeiros das propagandas do regime Salazarista, a União Soviética tinha pouco interesse em Portugal e até no caso de Angola, foram ao reboque dos cubanos já após a invasão de Angola pela SADF, uma invasão proposta ao primeiro-ministro sul-africano Vorster pelo próprio Presidente Ford e efectuada de forma (mal) disfarçada. Os incidentes suspeitos da Embaixada de Espanha com outro telefonema (pré-planeado?) de Gerald Ford, desta vez ao Generalíssimo Franco, com outra proposta de “covert invasion”, desta vez uma invasão Espanhola da Metrópole, com apoio da CIA e da NATO revela bem outro possível episódio não estudado ou investigado da Operação Gládio na Europa dos anos 70.

    Já agora isso dos ficheiros da PIDE serem enviados para Moscovo pelo Cunhal tem o mesmo grau de credibilidade que a história dos ár-condicionados comunistas da Zita, das propagandas (do MI5 britânico??) da Patrícia McGowan em relação ao Humberto Delgado, da fraude do 11 de Setembro, ou da história das armas de destruição em massa do Saddam Hussein, um tenebroso plano para destruir o mundo dentro de 48 horas confirmado pelo próprio Dr. Durão Barroso que leu o relatório secreto da CIA.

  4. Nascimento says:

    Ui, que tempos! Só quem os viveu. Adorei a postada. Fez-me rir…..e recordar uns episódios…

    ps. e já agora;aquela porcaria do expresso diz algo de novo?Rien…