Hotel Lisboa

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Pedro Guimarães *

Anda tudo doido com as lojas históricas a dar lugar a hotéis e a McDonalds. E mais a polémica Uber x Taxi e mais uma série de perigos do velho Capitalismo e da nova economia digital. No entanto, pela calada, e sem que ninguém tenha ainda verdadeiramente percebido, o anterior governo conseguiu ir ainda mais longe do que esta gente toda ao abrir a caixinha de pandora que, essa sim, vai provocar as mais imprevisíveis alterações aos tecidos sociais e culturais de Lisboa e Porto. A menos que se dê um passo atrás, claro. Falo da liberalização praticamente sem restrições da exploração de apartamentos para fins turísticos através do Airb’n’b e Booking.com.
Preços das casas a disparar para níveis Londres/Paris/Madrid (não é exagero), mercado cruel, expulsões com indemnizações mais do que rentáveis face ao lucro garantido por uma “nova clientela” estrangeira que vem de passagem apanhar uma piela very typical. Esperem só até os velhotes de Alfama perceberem que a sua casita de 50m2 já vale, por baixo, uns bons 200.000€: êxodo para arrabaldes no dia a seguir. É que uma cidade sem lojas históricas é mau, mas uma cidade sem cidadãos, históricos ou não, é algo insuportável.
E se como morador de um centro urbano acha que isto é mau, eu digo (com uma boa dose de experiência própria) é muito, muito, muito pior: desde que o anterior Sec. de Estado do Turismo assinou o diploma legal que permite esta porcaria toda, se tiver o azar de ser um daqueles proprietários de um fracção habitacional cujo desejo é habitar a sua fracção habitacional, fique a saber que deixou de ter uma palavra a dizer que seja no caso de o seu vizinho decidir abrir uma guesthouse na porta ao lado, outra por baixo e outra por cima. Desde há uns anos que cada “investidor” pode explorar até 10 fracções (contíguas ou não) cada uma com 10 camas disponíveis, e o mais incrível disto tudo é que os restantes condóminos não são tidos nem achados. Na prática, qualquer pato bravo sem nada melhor que fazer e algum dinheiro disponível passa a poder abrir no seu prédio, e sem pedir licença a ninguém, um hotel com 100 camas sem necessitar investir em infraestruturas adequadas, isolamento acústico, pessoal, plano de segurança, higiene, nada. Basta uma pintura, mobília barata do Ikea, e se instalar uma fechadura com código e contratar um serviço básico de limpeza nem precisa de se preocupar em receber os seus hóspedes.

Uma coisa é gente boa e hospitaleira, com a simplicidade de quem pega no telefone, poder alugar o quarto a mais que tem lá em casa a uns turistas curiosos por conhecer Portugal. Outra coisa este negócio multi-milionário (praticamente impossível de tributar) que anda a fazer com que a habitação deixe de ser coisa de gente para passar a ser coisa de empresas. Rua com esta corja, já.

* Pedro Guimarães, residente na freguesia de Arroios – Lisboa, é fotógrafo e o seu trabalho está acessível em www.pedroguimaraes.net. Este texto foi escrito à temperatura normal: a quente.

Comments

  1. Rui Silva says:

    O Pedro Guimarães é livre de não vender a sua casa !
    Imagine que era obrigado a vender a sua casa ? Com certeza não gostaria. E com toda a razão. A casa é sua deve poder mantê-la na sua posse o tempo que bem entender. E até de a deixar em herança a quem entender.
    Agora pense que em determinada altura da sua vida seja lá por que razão seja, decide vende-la. Acha bem que lhe seja proibido essa liberdade que deveria ter ?
    Pelos vistos parece que há quem pense que sim. mas é por um “BEM MAIOR” o “BEM COMUM” . Para evitar que venham para cá estrangeiros embebedarem-se .
    Até me parece xenofobia. Isso de considerar os turistas que nos visitam como alcoólicos não é um preconceito ?

    cumps

    Rui Silva

    • Ferpin says:

      Quem não quer perceber!!!

      Você deve poder vender a sua casa à vontade.
      O que não deve ser consentido é você ter um apartamento para habitar, e deixarem os outros à sua volta mudar para hotelaria, ou pior,e você passa a morar no meio dum hotel, em que todos os dias é uma ciranda de pessoas estranhas.

      Não querer ver isso!!!!!

      • Rui Silva says:

        Caro Ferpin,

        Os outros que venderam deveriam ser impedidos de dispor da sua propriedade por causa e um que resolveu ficar. Ou seja para si a democracia é isto, Eu que quero ficar e não vendo, devo ter o poder de impedir todos os outros que querem vender, pois não quero ser incomodado por #desconhecidos – xenofobia ? #. O que fica tem o poder de assumir aqui uma posição de Ditador, submetendo todos os outros à sua vontade. Quem não quer ver isto….

        cps

        Rui Silva

  2. Nightwish says:

    Já deixei de ir para esses lados há muito, qual é o interesse? Cada vez mais o Porto se parece com uma qualquer cidade moderna, sem carácter e sem nada de diferente de uma outra qualquer cidade europeia turística. Quando passar a moda, ficarão os locais com os bares só para eles. Claro que depois isto tem tudo efeitos na deslocalização de pessoas e de empresas, mas isso não interessa nada.

    • Rui Silva says:

      O Porto está muito melhor. A cidade modernizou-se. Manteve a sua traça. Nota-se que a cidade é vivida por uma multidão de jovens que lhe dão uma alegria fantástica. Foi feito um trabalho notável. O Porto está uma cidade adorável. Penso eu e milhares de pessoas que hoje a visitam e repetem a visita.
      Voltando para trás não mais que 20 anos sabem o que é que eu vejo?
      Um Porto Salazarento, cabisbaixo, escuro. A partir das 21 horas até metia medo andar nas ruas do Porto tal era o “deserto”, mesmo ao fim de semana. As poucas pessoas que se viam não tinham mesmo “bom ar”.
      Mas há muita gente saudosista destes “bons tempos”. Eu não.
      Bibo Porto.

      Cps

      Rui Silva

      • Nightwish says:

        Essa parte se calhar são gostos, mas prefiro pegar no carro e ir a Viana, a Braga ou a Guimarães do que ir ver o Porto. Sinceramente, não há nada que me puxe

  3. eu avento says:

    O neo reaccionarismo no seu pior.
    A versão da pseudo esquerda new age do orgulhosamente sós.
    Triste, muito triste.

    Ó tempo, volta pra trás …

  4. Nascimento says:

    Mas então que raio de coisa estranha essa de “tecido social”? Homem, quem quer saber dessas merdas?Nessuno.Continue a fotografar!Ate que os tempos estão para vermes como os Ruizinhos e os covardes que nem nome botam no tasco. Mas, sabe uma coisa? Não precisa de explicar nem fazer um desenho(fotográfico),que qualquer um percebe onde quer chegar, e o que esta subjacente na postada.Ok? Seja bem vindo compadre….e muita “chapa fotográfica”,como se dizia no meu tempo de “argentique”.

  5. Miguel Szymanski says:

    Muito interessante, não fazia ideia da situação legal deste tipo de arrendamento. Triste os comentários ao texto, em vez de argumentar, estes leitores passam de imediato para o plano pessoal e a ofensa. É verdade que o texto não olha para os argumentos favoráveis (são muitos), nem explica como é que o lóbi da hotelaria permite que assim possa ser (seria interessante saber). Mas os argumentos apresentados são muito fortes e válidos. Escrever a quente é um privilégio; ler e ofender gratuitamente é so um abuso e uma violência. Nota: não conheço o autor mas agradeço-lhe o post.