Passagem por Peniche

banca peniche

É a história banal de uma cidade enormemente degradada por há muito ter entrado em declínio a sua principal actividade económica – a pesca – e não haver (ainda) alternativas que possibilitem uma recuperação. Apesar de ser até hoje um dos principais portos de pesca portugueses, a actividade no porto de Peniche foi drasticamente reduzida: dos 80 barcos de pesca da sardinha que existiam há 40 anos, restam hoje 8, segundo nos diz um velhote no jardim. Quanto à indústria conserveira, que chegou a ter perto de uma vintena de fábricas de transformação e conservação de sardinha, restam hoje duas ou três. A maior delas, a ESIP, é detida por capitais tailandeses do maior grupo mundial  de conservas. “A sardinha vem de Marrocos já preparada e prontinha para ser enlatada em Peniche”, acrescenta o velhote. A queda dos stocks de sardinha desde 2006, que atingiu agora mínimos históricos, levou nos últimos anos à imposição de quotas para a pesca deste produto.

Com a redução da actividade pesqueira, o turismo é hoje tido como essencial para o desenvolvimento económico da cidade e do concelho de Peniche. Mas por agora, a arruinada área histórica urbana reflecte um extremo abandono triste, enquanto alguns bombásticos hotéis surgiram desgarrados a alguns quilómetros, completando o aspecto desconjuntado de Peniche.

Consta na Magna Carta de Fevereiro de 2009, em que, com base num Diagnóstico Estratégico, foi delineada uma Estratégia de Desenvolvimento e Programas de Actuação para o Concelho: “no panorama apontado pelo “Cenário Sardinha Viva”, preconiza-se a recuperação urbana, de forma a que o centro histórico e as zonas mais degradadas dos bairros populares sejam ocupadas por famílias de vários estratos sociais, alavancando a requalificação do Concelho”. O horizonte temporal da Magna Carta vai até 2025, significando pois que estamos a meio tempo; ao turista ainda pouco parece feito; somente em volta da muralha e no jardim se denota uma reabilitação cuidada.

Neste contexto globalizado em que vivemos é difícil encontrar e realizar soluções a nível local, mesmo (ou tanto mais) quando, como parece tentar-se em Peniche, as apostas são norteadas pela sustentabilidade.

Porém, nas desoladas ruas de Peniche a tristeza não é omnipresente: o mais bonito que lá vimos foram grupos de mulheres divertidas nas ruas, a jogarem o jogo da banca, aplaudidas por espectadoras e crianças. Uma bola de lona e uma caixa de sabão ou de peixe, mais 10 cêntimos para participar são suficientes para fazer a festa e comprar as amêndoas. Onde ainda se vê disto hoje? É um tesouro que levamos, ao abandonarmos Peniche.

Comments

  1. Martinhopm says:

    Situação idêntica, por exemplo, à de Olhão, com a pesca e a indústria conserveira reduzidas à expressão mais simples? Como contrariar esta situação? E de quem a culpa? Segundo julgo saber recebeu-se da CEE grossa maquia para abate de grande parte da nossa frota pesqueira. Quem autorizou esta jogada?


  2. É triste o que se passa. Infelizmente se trata de mais uma realidade quotidiana do nosso país.

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