Crónicas Desportivas (8)- Sagan, o feiticeiro

Na despedida de Fabian Cancellara da Volta à Flandres (com muita pena nossa, a bom da verdade; assim como também lamento a despedida da equipa Tinkoff no final desta temporada) Spartacus, alcunha carinhosa pela qual é conhecido este suíço nascido nos arredores de Berna há 35 anos, julgava-se no direito de despedir-se da prova com mais uma vitória, aquela que seria a 4ª da sua carreira no Tour de Flandres, um dos designados 5 monumentos do ciclismo. Numa prova novamente marcada pelas quedas, Spartacus bem tentou anular a diferença para Sagan nos 12 km finais mas o eslovaco, campeão do mundo em título provou que é neste momento o ciclista em melhor período de forma para abordar as clássicas, resistindo à perseguição do suíço e do holandês Sep Vanmarcke da Lotto-Jumbo-NL.

Numa prova de valente galharia por parte de todos os candidatos à vitória, mas de difícil leitura devido à dispersão dos vários candidatos em vários grupos, dos apoios de que os líderes dispõem (os ciclistas apelidados de “gregários”) devido a quedas e às passagens nos sempre complicados sectores de Pavé de Patterberg, Oude Kwaremont, Eikenberg e Koppenberg, nas quais, algum dos candidatos aproveitava sempre para espreitar o ataque, tudo começou com uma fuga inesperada, a do sprinter da Lotto-Soudal André Greipel, ciclista com a melhor ponta final do ciclismo actual.

Enquanto Greipel se destacava na companhia de alguns ciclistas de destaque, casos do espanhol Imanol Erviti da Movistar, no pelotão, uma queda muito feia na qual ficou envolvido meio pelotão, dois dos favoritos (o belga Greg  Van Avermaet da suiça BMC e o francês Arnaud Demare da FDJ) diziam adeus à discussão da prova nos quilómetros finais e no caso do ciclista belga, possivelmente à temporada dado que saiu com uma fractura da clavícula. Avermaet falhará decerto as clássicas que se irão realizar a partir da próxima semana (Paris-Roubaix, Amstel Gold Race, Fléche Wallone, Liège-Bastogne-Liège), terminando assim, de forma ingrata, a sua participação na sua fase crucial da temporada.

Com um grupo de fugitivos na frente, Sagan num grupo intermédio e as despesas do grupo dos favoritos entregue à Trek de Cancellara, com Jasper Stuyven e Stijn Devolder (ciclista que já venceu esta clássica, juntamente com homens da Katusha e posteriormente da maior derrota da clássica, a Etixx (o noruguês Alexander Kristoff teve que fazer uma corrida de trás para a frente; à semelhança do que fez também o candidato holandês Nikki Terpstra da Etixx; os líderes da Etixx Tom Boonen e Zdenek Stybar começaram a baquear muito cedo, tendo ficado precocemente fora da discussão da prova; Boonen procurava também a sua 4ª vitória na Flandres) o grupo principal dos favoritos começou a aproximar-se do grupo de Sagan e conseguiu até recolar.

Atacando na última passagem por Oude Kwaremont, o eslovaco aumentou o ritmo nos primeiros metros do muro e arrastou consigo Sep Vanmarcke da Lotto-Jumbo-NL que não teve pernas para acompanhar a saída do eslovaco do pavé. A movimentação do ciclista da Tinkoff causou obviamente reacções no grupo dos favoritos: o primeiro a tentar mexer foi Geraint Thomas. Com a corda toda durante a presente temporada, resultante das vitórias nas gerais individuais da Volta ao Algarve e Paris-Nice, o nº2 da nomenklatura da equipa britânica Sky mexeu no grupo dos favoritos levando consigo Lars Boom da Astana enquanto ao mesmo tempo obrigava Cancellara a mexer-se para eventualmente encetarem uma perseguição a Sagan.

De trás para a frente, Cancellara esperou pela Etixx de Niki Terpstra para encetar um grupo reservado de perseguidores a Sagan, mas a Etixx já não tinha muito a oferecer (Steve Vanderbergh esteve no grupo inicial de fugitivos e depois ainda foi obrigado, depois de ter sido alcançado pelo grupo onde vinha o plano B da equipa para a corrida Niki Terpstra a rebocá-lo até ao grupo Cancellara)  levando Cancellara a sair para ir à procura do campeão do mundo. Apanhando Sep VanMarcke já sem forças pelo caminho, o ciclista Suíço, especialista no contra-relógio (várias vezes campeão mundial da especialidade) deu tudo o que tinha (perante um esgotado Sep) para alcançar Sagan que, depois de 235 km de enorme esforço conseguiu defender muito bem a vantagem de 15 segundos que tinha para o dueto perseguidor, mostrou que também ele poderá ser candidato às medalhas olímpicas na especialidade de contra-relógio. Atrás do grupo Cancellara\VanMarcke, Terpstra tentava fazer pela vida. Contudo, haveria de ser alcançado pelo grupo Kristoff, grupo que vinha mais atrás. O holandês da Etixx deixou boas indicações para o Paris-Roubaix, prova onde tentará decerto conquistar novamente o título que estoicamente conquistou na edição de 2014.

Sagan conquistou assim a sua 2ª grande vitória do ano. Num acto de grande desportivismo em cima da meta, Sep VanMarcke cedeu generosamente a 2ª posição na prova a Cancellara, tendo sido o suíço muito saudado pelo público belga na sua despedida de Oudenaard, cidade que acolhe a chegada da prova. O espectáculo segue na próxima semana com a disputa do Paris-Roubaix, a prova rainha das Clássicas da Primavera.

 

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