Carta do Canadá – A Espuma dos Dias


L'écume des jours

Não surpreende excessivamente o fervilhar da fétida situação internacional, e principalmente europeia, se tivermos memória. Lembro que, em sucessivas reuniões da UCIDT (União Católica dos Industriais e Dirigentes do Trabalho), há 40 anos, se debatia o que então era designado por “desarmamento moral da Europa”.

Em plena Guerra Fria, e estando Portugal a viver a sua própria revolução, a Europa inquietava por estar a desfazer-se dos seus valores morais e tradicionais como quem, por desespero ou leviandade, deitasse ao lixo as jóias da família. Percebia-se que o vazio deixado por esse deslize era ocupado pela finança. Entrava-se na era de tudo ter um preço. De tudo ser objecto de compra e venda. Incluindo as consciências.

Depois, foi o galope da corrupção. Como uma nojenta nódoa, ela alastrou pelo mundo. O que no passado era liminarmente reprovável, passou a ser norma.  E só a esta luz se entenderá que a União Europeia, o Fundo Monetário Internacional e outras instâncias onde muitas vezes se joga o destino dum país, sejam lideradas por pessoas que, nos seus países, têm assuntos pendentes com a justiça ou tiveram comportamentos mais do que suspeitos enquanto governantes.

Decisões suicidas, e a Guerra do Iraque foi uma delas, conquanto o negócio do petróleo florescesse, estiveram na origem dos milhões de refugiados que rumaram a uma Europa que os sacudiu, os vendeu à Turquia. Ao mesmo tempo os países menos desenvolvidos da Europa  e da América conseguiram empobrecer ainda mais, enquanto as offshores rebentavam de prosperidade em favor de uns quantos ligados à política, à banca, ao terrorismo e aos mais sujos tráficos.  Para os actores desta tragédia, tudo pareceu normal. É o padrão moral deles.

Estamos numa perigosa encruzilhada da História. O cidadão comum sente-se perdido nesta confusa lama. Precisa de pontos de referência. O maior e mais luminoso ponto de referência da humanidade é, nos dias que correm, o Papa Francisco. Mas também o são os pequenos jornais, os blogs e as redes sociais de prestígio que, com persistência e abnegação, levantam o estandarte da palavra herdada. Muito pouco há-de viver quem não se aperceber da solidez desse apoio em termos colectivos.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Uma crónica curta, mas incisiva.
    Excelente texto com muitos pontos que deveriam dar lugar a uma reflexão profunda, nomeadamente no que toca ao apreço que uma grande parte dos Europeus dão a um modelo político e financeiro que se revela tão mortal e destruidor, como um outro vindo de sentido oposto, há cerca de 100 anos.
    E enquanto isto, esta Europa que já foi farol de cultura e princípios, é hoje um triste fósforo bruxuleante e moribundo.

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Alterar )

Connecting to %s