E se de repente o seu marido lhe batesse?


vip-pt-20257-noticia-o-dilema-resposta-de-consultora-de-tarot-deixa-internautas-em-choqueConfesso que tenho um estranho fascínio pelo popularucho. Fico mesmerizado diante do ridículo das letras de músicas pimba, rebolo-me de gozo sempre que vejo populares a ser entrevistados sobre qualquer assunto (adivinhar resultados de futebol ou mandar beijinhos para todos os primos e amigos espalhados pelo mundo), sustenho as gargalhadas para poder ouvir sem ruído as conversas inenarráveis entre os pastores e os fiéis da IURD, guincho a ouvir rádios locais enquanto viajo e pasmo diante das astrólogas/tarólogas/cartomantes que têm programas televisivos à disposição.

Se me pedirem para explicar esta espécie de doença, serei obrigado a reconhecer que tem origem num certo complexo de superioridade, porque a música de que gosto é melhor do que aquela de que não gosto e porque acredito que ter tido acesso a alguns cumes das Artes e das Humanidades me tornou um bocadinho mais humano. Isto quer dizer que me rio das canções do Emanuel, embora desconfie de que isso não o preocupa minimamente, com a certeza de que o meu recibo de vencimento lhe provocaria um ataque de riso.

Não sou propriamente um elitista, porque acredito que a chamada alta cultura deve ser colocada ao alcance de todos, nomeadamente através da Escola. Ainda assim, se eu mandasse, como se costuma dizer, não iria proibir muitas destas coisas, porque não se impõem gostos, mesmo que se possa discuti-los, ao contrário do que sugere uma leitura estrita do adágio que condena essa mesma discussão.

Se o futebolês e as letras das canções populares transmitem ideias disparatadas, não há pior do que haver pessoas investidas em autoridades cuja palavra é escutada com atenção ou mesmo com devoção por gente que, por diversas razões, é ou está influenciável. É o caso das igrejas que garantem o fim das doenças e do desemprego ou das tarólogas-cartomantes que adivinham o futuro e dão conselhos.

Nestes casos, a minha estúpida tendência para rir da credulidade dos outros foi começando a dar lugar a um incómodo e, depois, a uma revolta. Aqui há tempos, vi uma  dessas personagens a garantir que uma doença grave iria ser curada. Ontem, graças a uma partilha da jornalista Rita Marrafa de Carvalho, pude ver uma outra desclassificada a aconselhar uma vítima de violência doméstica a ser branda com o agressor.

Apesar de ter sido brutalmente sincero no início deste texto, não vou confessar tudo aquilo que gostaria que acontecesse a estas bestas quadradas, mas sempre vos digo que me vêm à mente coisas primitivas como fogueiras e uma série de objectos contundentes.

Como, felizmente, vivemos num país civilizado, parece-me evidente que uma televisão, pública ou privada, deveria ser impedida de transmitir lixo tóxico.

Comments

  1. joão lopes says:

    as mães de Bragança ameaçam o Cid,esta tarologa imbecil é paga por uma tv para dizer imbecilidades,a musica pimba graças aos fans do carreira ,parece que já é dona disto tudo,quem disse que o negocio cor de rosa era inocuo? p.s-não esquecendo o calcitrin da queriducha cristina ferreira,que até oferece…biblias.

  2. O que mais me impressionou foi a vênia final da “paciente”
    à trapaceira.
    Acho piada a alguns políticos quando dizem que o povo português é sábio.
    Há ainda muita gente que precisava de ir aprender com a Candidinha!!!
    Um dia destes explico.

  3. Infelizmente este tipo de “cultura” prolifera que nem formigas em açúcar entornado quando a esmagadora (ênfase neste adjectivo) parte da população portuguesa foi privada da educação mais básica em alturas críticas da sua vida.
    Há que referir que a maior parte dos consumidores da música pimba, tauromaquia, cartomantes da hora de almoço e velinhas para o neto passar de ano são vítimas de uma contra-cultura que se enraizou na sociedade portuguesa ainda durante os tempos da ditadura e que só a classe muito alta tinha acesso ao ensino superior. Existe nesse extracto uma certa fobia àquilo que por aqui designamos de alta cultura (que na realidade não é mais que cultura basilar, mas pronto, são referenciais.), havendo quase um certo medo de falar com quem prefere ler um livro a ver uma telenovela na TVI.
    Acredito que que este tipo de situações aqui descritas, juntamente com todas as Casas dos Segredos, Quintas e demais elogios ao voyerismo nacional são tanto causas como consequências desta aversão à cultura substancial. Infelizmente é uma espiral de ignorância que só tem uma solução: educação a sério e o mais cedo possível. Tão importante como aprender a ler, escrever e a tabuada, é também aprender a pensar criticamente e a manter-se curioso acima de tudo. Evoluir.
    Sim, a escola é crítica nesse sentido. Esta patetice toda com os amarelinhos nas últimas semanas só se prolongou e deu as manchetes que deu porque o povo não se deu ao trabalho de pensar um minuto que seja na situação ridícula que é o financiamento desnecessário (e ilegal ainda por cima) da escola privada. Em vez disso foram facilmente manipulados por uma comunicação social interesseira e mesquinha, o que fez arrastar por semanas uma questão que devia ter sido resolvida numa tarde. Desinvestimento na educação dá nisto.

  4. Carvalho says:

    António Nabais, parabéns pela sinceridade ao assumir o seu fascínio pela popularucha “cóltura”. Muitos de nós pensam de modo semelhante mas poucos o assumem.
    Estamos rodeados de imbecis, é o que é.
    As televisões, vivendo de audiências, dão palha aos burros, passam programas imbecis, feitos por imbecis e destinados ao consumo dos imbecis. O que esperava? Que a atrasada da taróloga dissesse alguma coisa com sentido e bom senso? Perca as esperanças.
    Os imbecis dominam o país. De que outro modo me explica que um energúmeno como o Cavaco tenha sido primeiro-ministro e Presidente da República (eleito) durante 10 anos?

    • Nem mais! Prova definitiva do embrutecimento galopante da população portuguesa: não um mas dois (dois!!) mandatos da Múmia Mor à frente da presidência da República, fora tantos outros como chefe do Governo. É preciso ignorar quantidades industriais de informação para achar que o Cavaco serve sequer para porteiro do Parlamento quanto mais para outra coisa.
      Não há nada de subjectivo nesta afirmação: são factos puros e duros.

  5. Julgo que foram feitas queixas ao regulador. O mínimo que deverá acontecer é a senhora ser impedida de vender os seus serviços na televisão.

    • joão lopes says:

      no regime neoliberal defendido pelo patrão da sic esta senhora estava já despedida,mas pelos vistos não é só no estado que os despedimentos são impossiveis(boca ironica porque o alvo são idosos que vão continuar a comprar calcitrin,a adorar esta imbecil e a dár dinheiro aos cor de rosa de Portugal)

    • Eu mesma says:

      E eu espero que essazinha “cartomante” seja chamada pelas autoridades. O que ela fez foi gravíssimo. Já nem falo da chachada das cartas e do constante apelo para ligarem para o 760 não sei do quê, por forma a sustentarem-lhe a vida (Maria Helena fez escola, ela só sustenta a vida de luxo que tem à conta destes esquemas). Não sendo eu jurista, porque não tirei Direito, cheira-me a apologia ao crime: ela praticamente tornou-se cúmplice do sacana que anda a maltratar há anos uma cidadã, a qual ele devia respeitar, de acordo com os votos do casamento. Agora, imaginem o bruá quando eu exprimi esta opinião nas redes sociais: fui quase crucificada, porque “toda a gente erra”, “ela não fez por mal”, etc. e etc. Falta de instrução e de cultura de pensamento, na minha modesta opinião.

  6. Paula Lemos says:

    Belíssimo texto, cheio de propriedade e humor. Parabéns!

  7. Abel Barreto says:

    Sempre que estou na terrinha que me viu nascer, perante um televisor sintonizado na sic onde essa “senhora” presta os seus “serviços”, e não conseguindo demover a minha mãe de lhe prestar atenção (“porque gosto de ouvir o que as pessoas dizem”), pergunto-me sempre como poderei eliminar ou exterminar aquele ser, que não obstante o seu pleno direito à vida, não tem, em absoluto, o direito de ganhar (e dar a ganhar) dinheiro com as desgraças dos outros, enganando-os despudoradamente. Podem ser imbecis, ignorantes ou simplesmente “pacóvios”, mas não deveria ser permitido que sejam usados e abusados desta forma.

  8. Há quem fique refastelado com este tipo de programas, que mais não são do que programas da treta, falando bem e depressa.
    Ora uma produtora que assiste a uma confissão pública de um caso de violência doméstica, e fica inerte, não retendo a chamada para localizar e sinalizar a vítima, é no mínimo cúmplice do crime.
    É o que dá, colocarem em cena “visionários do além” mal formados e incultos.
    A minha sincera opinião, com a vossa licença: bardamerda para este tipo de programas.

    Paula Pedro

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