Sobre a febre dos pokémons


Pikachu
Uma Página Numa Rede Social

Perspectiva: é comum vermos malta a publicar histórias acerca do quão agradável foi a sua infância e adolescência. Com inspiradas doses de romantismo e nostalgia, recordam a época em que brincavam na rua, caíam do baloiço, esfolavam os joelhos, cobriam-se de espinhos e arranhadelas, quando iam buscar a bola que caíra no meio do mato, e não eram menos felizes por isso. Pelo contrário, essas pequenas mazelas acabaram por enriquecer-lhes a juventude.

Passaram 20 ou 30 anos. O Muro de Berlim caiu, as Torres Gémeas foram destruídas, o Iraque foi invadido, a TVI pôs um troglodita a dar pontapés na cara a uma rapariga em directo, o Facebook pôs estranhos de todo o mundo em amena cavaqueira, como se todos fôssemos amigos há anos, e o Passos Coelho juntou-se ao Paulo Portas, para baixarem o salário aos portugueses – ou, como eles lhe chamam, tornar os portugueses “mais competitivos” – e para venderem o maior número de empresas públicas no mais curto espaço de tempo possível.
Sim, passou depressa.

De repente, com metade dos bancos do mundo prestes a estourar e com um punhado de lunáticos apostados em aterrorizar o ocidente, parece que meio mundo anda irritado porque os putos andam à caça de Pokémons. E a irritação sobe ao nível de escândalo e pânico quando se sabe que alguns desses putos se magoaram na brincadeira. Oh, o drama, a tragédia.

Sim, o mundo evoluiu. Sim, os tablets e os smartphones ocupam uma boa parte do lugar que antes estava reservado às fisgas e aos bonecos de plástico. E ainda bem que sim. Manter as crianças cristalizadas no tempo, a brincar exclusivamente com paus e pedras, não nos parece lá muito boa ideia. Agora, a miudagem não quer a Barbie, quer o Charizard. E saem à rua para apanhá-lo. E sim, uns quantos poderão magoar-se com isso. O céu é azul, a água é molhada, os putos magoam-se nas brincadeiras. É a vida.
Pelo menos, lá vão saindo à rua, estimulam a produção de vitamina D e, com um bocadinho de sorte, ainda conhecem outros putos e fazem amigos.

Ridicularizar a malta que anda a brincar com os Pokémon, glorificando a suposta saudável pureza das brincadeiras de criança de há 20 ou 30 anos, parece coisa assim muito hipster, tipo, “no meu tempo é que se brincava a sério”. Mas isso é estúpido. Não estamos nesse tempo. Estamos no século XXI. E aquela treta do Pokémon Go vai desaparecer com a mesma rapidez com que apareceu.
Se a vossa capacidade de indignação é monopolizada pelos putos que andam a treinar Pokémons na rua, talvez seja boa ideia rever as vossas prioridades.

Comments

  1. Konigvs says:

    Não chamaria “putos” a colegas de trabalho com mais de trinta que agora só passam a vida a falar disso. Eu prefiro manter-me na ignorância. O meu telemóvel-esperto já com dez anos é esperto que chegue para mim.

    • antonio chourico says:

      se andassem na rua a apanhar prostitutas e em vez de gyms fossem bordeis para as por a render entao ja nao haveria problema … mente pequenina que se fica pelo objeto que ve no ecran do telemovel e pelos nomes que tem em vez de entender a mecanica da coisa . um telemovel com 10 anos deve ser optimo para fazer chamadas espero que ainda tenha quem as atenda .

  2. Helder P. says:

    Saliento que os trintões de 2016, foram os putos de 1996 a jogar Pokémon Red e Blue nos seus Game Boy monocromáticos. Toda a gente tem nostalgia da sua infância e não vem mal nenhum ao mundo nisso.

  3. Afonso Valverde says:

    Pó quê? Jogar? Estou abismado com tanta miséria humana.
    Divirtam-se…

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