Lettres de Paris #58


«Ma patrie est une valise/ ma valise, ma patrie»

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estava escrito numa das dez cadeiras-confidentes, nos jardins do Palais Royal. No primeiro dia do ano, estava frio em Paris mas assim mesmo eu e o André lá fomos para a rua. Fomos a pé até ao Hotel de Ville, onde eu já estive tantas vezes de noite e de dia. Cruzámos a Pont Saint-Michel e fomos andando pelo Boulevard du Palais, depois pela Pont au Change que tem uma das melhores vistas sobre Paris, se é que se pode avaliar as vistas de Paris, a partir de todas as pontes, de todos os terraços, de todos os lugares. A seguir virámos à direita no Boulevard des Gevres e chegámos ao Parvis de l’Hotel de Ville. Andámos no pequeno carrossel, como se fossemos duas crianças que muitas vezes creio que, apesar da idade, ainda somos. É preciso alguma arte e algum esforço para carregar a infância dentro pela vida fora. Mas sempre vos digo que é uma arte e um esforço que valem a pena. Sobretudo se se trata de olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Sobretudo se se trata de andar nos carrosseis que encontramos vida fora.
 

Depois do Hotel de Ville, reconhecendo que estava um frio de congelar até a alma, apanhámos o metro para a Place do Palais Royal. Ali estava o Louvre, o Hotel du Louvre, a Rue Saint-Honoré, o Conseil d’État, a Place Colette e, claro os jardins e as galerias do Palais Royal. Tirámos uma fotografia sentados no banco do Kiosque des Noctambules, uma obra adequadíssima a mim, de Jean-Michel Othoniel, apreciámos o edifício da Comedie Française e entrámos nos jardins. Havia crianças e adultos no jardim, brincando todos com os pilares às riscas do pátio que o antecede. Depois reparámos nas cadeiras-poema, como lhes chama o autor da ideia – Michel Goulet*, um escultor canadiano que se apaixonou por Paris há 50 anos e a quem as cadeiras dos jardins parisienses, que se podem mover a nosso bel-prazer, impressionaram desde sempre.
 
Confesso que a primeira vez que vi Paris, há quase 25 anos (ou talvez um pouco mais ou talvez um pouco menos) também fiquei impressionada com esta ideia genial que não tinha visto ainda em nenhum outro lugar – estas cadeiras de jardim que se movem connosco, para os lugares de sol e sombra, conforme a nossa disposição. Foi no Jardin des Tuileries que as vi pela primeira vez e, acho, que se fosse escultora como o Michel Goulet, também teria doado a Paris, cadeiras-confidentes ou cadeiras-poema, como estas.
 
As cadeiras-poema estão colocadas duas a duas e ligam-se umas às outras a partir dos assentos. Na interseção, estão algumas pequenas esculturas de bronze, de Goulet, e dentro de cada uma um mp3 a que poderíamos ter ligado os nossos auriculares, se os tivessemos naquele momento, e ouvir os poemas completos de que saem as frases inscritas nas costas de cada uma destas cadeiras. Há diálogos estranhos entre as frases. Verlaine dialoga com Darwish, ‘Pas la couleur, rien que la nuance’ do primeiro, francês, fala com ‘Ma patrie, une valise, ma valise, ma patrie’, do poeta-ativista palestiniano. Só descobri que a frase de que gostara muito, que Mahmoud Darwish era palestiniano ontem, quando procurei o seu nome. Assim, quando a li nas costa da cadeira, interpretei-a de forma muito diversa daquela com que Darwish a escreveu. Interpretei-a, como se calhar interpretamos todos os poemas e todas as coisas, à minha própria luz e considerei que, muitas vezes, a minha pátria nada mais é que uma mala. Obviamente não é verdade, mas há alturas em que parece que tudo o que tenho num dado momento, estando fora de minha casa, são as coisas que transporto.
 
A frase de Darwish fala de não ter pátria mesmo. De não ter um chão nem um céu onde se pertença. Completamente diferente o seu sentido, evidentemente ligado à sua condição. Uma condição comum a muitos refugiados e exilados. Sem pátria. Apenas com uma mala onde transportam a sua vida. Já o disse numa das cartas que escrevi de Bruxelas há mais ou menos um mês, depois de constatar que a recepcionista do hotel me tinha atribuído uma nacionalidade indeterminada: não ter pátria só terá evidentemente algum encanto se soubermos que a temos. Se soubermos de onde vimos e onde pertencemos. Ou talvez não, não posso saber, sempre tive um país de onde sou. Muitas vezes desejei não ser de lá. Sempre soube que podia ser de qualquer parte. Mas esta evidência só vem do facto de ser, de facto, de algum sítio. De ter um chão e um céu a que pertenço. Não é contraditório.
 
Fiquei a pensar nas cadeiras-poema dos jardins do Palais Royal e particularmente nesta frase do poema de Darwish (de que fui ler mais poemas, quase todos sobre esta identidade sem chão que era a sua, palestiniano, refugiado, exilado, lutador), embora as costas das cadeiras-confidentes tenham frases de Eluard, Pasolini, Cocteau, Baudelaire, Tranströmer, entre outros, num diálogo que faz sentido, se repararmos bem, mas que nunca será o mesmo sentido que tem para o escultor. Será o nosso. Evidentemente. Segundo o nosso chão, o nosso céu, os lugares a que chamamos nossos. Mesmo que não nos sintamos de lado nenhum ou, pior, mesmo que nos tenham roubado a pátria como a Mahmoud Darwish. A minha pátria é uma mala, mais do que a língua portuguesa (como escreveu, obviamente, Fernando Pessoa), uma mala cheia de chão, e céu, e sentimentos vários e opostos, que anda sempre comigo para toda a parte.
 
*http://www.leparisien.fr/paris-75/paris-il-offre-dix-chaises-poemes-au-jardin-du-palais-royal-03-03-2016-5595809.php

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