Lettres de Paris #65


«Sei tudo o que você faz em Paris….»

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podia ser uma frase mais ou menos assustadora, se a tirassemos do contexto. Mas a frase tem um contexto, como é evidente, e esse contexto como sempre, como em tudo – e não é por ser socióloga que o digo – é muito importante. Já o contei no Facebook para alegria – aparentemente, a avaliar pelo número de ‘likes’ – dos meus amigos, mas conto de novo o contexto desta frase. Antes disso, devo dizer que dedico esta carta à G., a pessoa que a proferiu. Se me estiver a ler, G., como creio que me lê com frequência – o contexto, portanto – saiba que esta carta lhe é dedicada.
Estava eu hoje a fumar um cigarro à janela do meu estúdio, no 1º andar, virado para a estreita Rue Suger, já passava da hora do almoço, mas ainda assim, estava de calças de pijama, t-shirt e um casaco de carapuço, velho, de andar-por-casa, que o André me emprestou, tinha o carapuço posto, além do mais, por causa do frio e da rouquidão que tenho e do surto de gripe que assola a França (vi na BMFTV)… estava eu, nestes preparos, a fumar um cigarro debruçada na grande janela, quando vejo passar duas pessoas, uma senhora e uma adolescente. Continuei a fumar, de carapuço enfiado na cabeça e calças de pijama vermelhas aos quadrados, enquanto as duas olhavam insistentemente para mim, de cabeça no ar. Passaram debaixo da janela e continuaram a olhar. Achei que devia ser por causa dos meus preparos e, sobretudo, por causa do carapuço na cabeça, que me daria um ar de dread-intelectual, devido aos óculos de massa… em qualquer caso, estranho, supus eu. A senhora volta um bocadinho para trás e do passeio do outro lado da estreita rua diz-me ‘Bonjour!’. Respondi-lhe de volta ‘Bonjour’ e instintivamente tirei o carapuço, convencida que ela me iria pedir uma direção qualquer. Aconteceu já algumas vezes, enquanto fumo à janela pedirem-me direções, cigarros ou simplesmente – se é tarde – como agora – algum bêbado cumprimentar-me.

A senhora pergunta-me ‘vous êtes Elisabete?’. Fiquei um segundo perplexa, mas pensei que talvez a conhecesse de algum lugar, toda a gente sabe que o mundo é pequeno e portanto… respondi-lhe que ‘oui’. Ela diz-me ‘ah, em português então’, com um lindo sotaque brasileiro e eu rio-me e ela acrescenta, antes que eu tenha tempo de perguntar de onde nos conhecemos, que lê o meu blogue… ahh… que lê as Lettres de Paris desde que soube que vinha para Paris e, justamente, para a Maison Suger. Acrescenta também que gosta muito de as ler, e eu ainda perplexa, menos dread-intelectual porém, sorrio meio intimidada com esta súbita, digamos, fama, além atlântico. A senhora continua dizendo que sabe que cafés e restaurantes eu prefiro, onde vou passear, ‘sei tudo o que você faz em Paris’. Que encanto, é a verdade. E que surpresa. Prometemos um cafézinho um destes dias, já que somos vizinhas.
Fiquei-me para ali a rir, sem o carapuço na cabeça e com o cigarro fumado, a vê-las avançar pela Rue Suger até ao cruzamento com a Rue de L’Éperon a pensar que pequeníssimo é o mundo, na verdade e a sentir-me – pronto – un petit peu célèbre, vá, que é como quem diz um bocadito famosa. Na minha estreita rua, pelo menos, literalmente no caso presente. Eu vou a congressos, a seminários, a reuniões, estas coisas acontecem-me com frequência. Quero dizer, pessoas que se aproximam de mim e que me perguntam, em várias línguas, se sou a Elisabete e quando digo, obviamente, que sim (embora por vezes, como toda a gente suponho, tenha dúvidas) respondem-me que já leram isto ou aquilo que eu escrevi, ou que conhecem alguém que me conhece ou que me ouviram em qualquer parte. Natural, no meu métier, convenhamos. Também já me aconteceu uma coisa mais ou menos surreal como a de hoje, há uns anos, estava eu também com um ar de intelectual-estuporada, depois de um dia qualquer em que me havia levantado muito cedo, na fila do supermercado perto da minha rua permanente e uma moça olha insistentemente para mim. Penso que terei um macaco no nariz (pode acontecer) ou que devo estar com um ar mesmo estuporado, mas a rapariga simpaticamente pergunta-me se sou a Elisabete Figueiredo. Digo que sim e ela explica-me que foi aluna de sociologia em Coimbra e que o professor de (acho) sociologia rural lhe deu uns textos meus para ler, de que ela gostou muito. A Paula, era a rapariga simpática que me fez, nessa altura, apesar do cansaço, sentir-me também famosa, ao ser reconhecida numa fila de supermercado, pois então.
Mas tudo isso se deveu ao meu trabalho, à minha profissão, a mesma que me faz estar aqui a fumar cigarros, em calças de pijama e casaco velho de carapuço, à janela da Maison Suger. Bom, nos congressos e nos supermercados costumo apresentar-me vestida de outra maneira, a bem da minha reputação, devo dizê-lo. Hoje a G. reconheceu-me não pela minha profissão, mas pelas coisas que escrevo fora dela, ainda que algumas vezes, como disse, seja por ela que vou a sítios de onde escrevo postais*. ‘Sei tudo o que você faz em Paris’ foi, de facto, apenas uma frase muito simpática, agora que vos contei o contexto em que foi proferida. Acho que escrevo postais não para que as pessoas saibam o que eu faço em Paris (bom, talvez também um bocadinho), mas para eu saber daqui a uns tempos, tudo o que fiz em Paris. As ruas onde passeio, os cafés e esplanadas onde gosto de ir e de me sentar a fazer uma das minhas atividades preferidas (peoplespotting), as livrarias mais bonitas, os restaurantes onde como melhor (ou aqueles onde comi pior, já aconteceu), os museus onde vou, as exposições de que mais gostei, os mercados, as pessoas com quem me cruzei. Escrevo postais para me lembrar de tudo isto, quando daqui a uns tempos me quiser lembrar. Escrevo postais como quem tira fotografias aos dias. Para me lembrar mais tarde desses dias e de como os passei.
Escrever é como encher uma mala de viagem, penso. Enchê-la de memórias. Estava a pensar nisto há bocado, já vestida com as minhas roupas de sair à rua (embora, como se sabe, eu seja favorável em que se ande pela vida de pijama e chinelos), a fumar na mesma janela e contemplando a mesma rua, e a reparar numa mala aberta que alguém deixou encostada ao prédio em frente. Encho uma mala de memórias. É por isso que escrevo estes postais e, sinceramente, tenho tanta pena de não me ter lembrado de os escrever mais cedo. Tanta viagem magnífica de que não tenho estas memórias quotidianas e tanta pena de as não ter. Não sei se os postais que tenho escrito (desde 2012) de vários sítios têm servido alguma coisa a alguém. Parece que sim, pelo menos estes de Paris terão servido à G. a minha leitora brasileira agora minha vizinha. Se assim for, se têm servido a alguém, fico contente. É bonito encher malas de viagem de memórias, mas é provavelmente bastante mais bonito que essas memórias possam talvez guiar outras pessoas através das ruas e dos sítios que percorro.
Obrigada, G. pela frase e pela leitura e, claro, pela simpatia e pela surpresa.
*a coleção completa dos meus postais de vários sítios, que já deve ir em centenas, no Aventar pode ser lida (e vista) aqui

Comments

  1. Paulo Só says:

    Não basta somar memórias, é preciso saber fazê-lo. Como a E. faz, escrevendo e fotografando. Paris no inverno é de facto muito pesado. E as economias também não andam a deixar as pessoas comuns muito felizes, estamos todos fragilizados por este sistema que nos mói. Por isso acho que é fantástico termos esta luz em Lisboa. E não me refiro apenas à luz do sol.
    Mas pode ficar tranquila, que quando voltar ela ainda estará aqui.

    • Obrigada Paulo. Mas Paris no inverno (neste inverno, pelo menos) não tem sido assim muito pesado. Exceção feita aos últimos dias, esteve sempre tempo seco, sem chuva nem neve, algum frio mas não demasiado. Tive sorte. Desde o princípio do ano as temperaturas baixaram um pouco e há esta chuvinha chata que nem chega a ser bem chuva. Mas sim, é pesado viver em Paris para quem é português e ganha um salário português que é cada vez mais curto. Sim, tenho saudades de casa. Da luz do sol e de outras coisas. E sim, suponho que daqui a uns dias, quando eu voltar, essa luz e essas outras coisas ainda estarão aí.

  2. gostei tanto de ler esta carta !! quanddo esccrevia para as filhas elas adoravam agora perdi-lhe o habito. por isso esta foi,para
    mim,um balsamo OBRIGADA

    • Elisabete Figueiredo says:

      Obrigada! E se gostava tanto de escrever para as suas filhas, retome o hábito. Acho que elas vão continuar a adorar.

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