O pós-Público do Sr. Dinis


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É claro que a malta d’Os truques irrita muita gente. Durante anos, o 4º poder fez o que lhe deu na real gana, servindo interesse aqui, interesse acolá, até que as perigosas redes sociais emergiram e deram à luz novas formas de escrutínio, nem sempre objectivas ou sequer coerentes, é certo, mas ainda assim capazes de desmontar e expor a falta de rigor e a manipulação de informação. Informação que é absorvida, processada como verdade absoluta e propagada de forma descontrolada, fomentando percepções distorcidas, criando focos de tensão, alimentando ódios sectários.

O que se passou ontem no Público é mais um belo exemplo do advento da pós-verdade: surge uma notícia adulterada, entretanto desmentida, e um jornal supostamente credível apropria-se dela, ignorando esclarecimentos posteriores, redesenha-a e gera réplicas noutros meios. Mais ou menos assim:

A cronologia de um truque:

12:47 – The Guardian e FT publicam notícia com declarações de Robert Goodwil, ministro da imigração do Reino Unido, onde este diz que vê como bons olhos a aplicação de um imposto de mil libras sobre cada trabalhador estrangeiro, “útil para os trabalhadores britânicos que se sentem preteridos.”

16:06 – The Guardian diz que, apesar das declarações do ministro, não existe qualquer intenção do governo britânico e refere expressamente, no mesmo texto, que não passou de um comentário. O esclarecimento vem do gabinete de Theresa May, primeira-ministra, que se distancia da ideia.
http://tinyurl.com/j9wgr6q

16:26 – Público, ignorando o encerramento da história determinado pela notícia do The Guardian, que desfez todo o seu potencial de polémica e, provavelmente, animado com o potencial de partilhas e likes de emigrantes portugueses e familiares, diz que “Londres quer taxar com mil libras cada trabalhador qualificado europeu.” LONDRES! QUER! TAXAR! – já é outra história – Só mais adiante, no decorrer da notícia, é que se lê que não é “Londres”, ou seja, que não é nenhuma proposta ou decisão do governo britânico, mas sim uma opinião pessoal favorável de um dos seus ministros. (da imigração e não do interior, como diz erradamente o PÚBLICO)
http://tinyurl.com/gl37js9

Para piorar, acrescenta no lead que o Labour considerou a medida uma forma de “boa gestão da imigração,” o que é mentira, como se pode ver pela própria peça do The Guardian. O diário português baseou-se nas declarações de Frank Field, um MP do Labour que está extremamente distante da liderança do partido e nunca apoiou Jeremy Corbyn. Longe de ser “o Labour.”

17:29 – O Público, face às evidências e às reprimendas dos leitores, corrige a informação sobre o Labour. Corbyn rejeita.

18:01 – O Público, uma hora e meia depois e após mais reprimendas de leitores, corrige finalmente a notícia e considera o comunicado de 10 Downing Street (“No 10”). Ironicamente, usa, como base, uma notícia que é anterior à sua primeira notícia.
http://tinyurl.com/grdtlfe

18:51 – Como um cancro, a notícia falsa alastra-se pela imprensa portuguesa, que, quando não é a primeira, tem toda a pressa em ser a segunda e, logo, dar a notícia sem verificar. “Londres admite impor imposto para trabalhadores qualificados de outros países europeus”, diz o Negócios. http://tinyurl.com/znc4jbg


1000 partilhas geradas com uma não notícia. Receitas de publicidade. Clicks, clicks! Alarme! Choque! E a decadência progressiva da imprensa portuguesa, arrasada na sua credibilidade.

O Público do Sr. Dinis está uma miséria. Não admira que não haja lá espaço para o José Vítor Malheiros.

via Os truques da imprensa portuguesa

Comments

  1. Exemplos que a história se repete: goo.gl/wV710v

  2. Paulo Marques says:

    Lixo.

    • Paulo Marques says:

      É pouco… É que, é pá, um gajo fica fodido quando vêm as virgens ofendidas queixarem-se que as redes sociais desinformam, que devem ter a liberdade de dizer o que lhes apetece, que o Google lhes tira a mama e o caralho que os foda e depois tem que andar a tudo à lupa para ver onde está a verdade na merda polida que difundem a mando dos patrões.
      Pá puta que os pariu, que a imprensa livre morreu à muito neste país.

  3. Paulo Só says:

    E uma pena profissionais de qualidade como Teresa de Sousa e Jorge Almeida Fernandes caucionarem essas patacoadas. Mas infelizmente o Público vem a escorregar para uma espécie de Correio da Manhã dos ricos há algum tempo. A substituição do Vasco Pulido Valente pelo João Miguel Tavares é simbólica. Ambos são do rancho do ódio, mas um tocava violino, o atual toca bumbo.

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