Abelardo contra o futebol moderno


A semana futebolística trouxe-nos alguns momentos de destaque. A derrota caseira do Real Madrid contra o Celta na 1ª mão dos quartos-de-final da Copa del Rey, desfecho que irá obrigar decerto Cristiano Ronaldo a horas extras na próxima semana no jogo do quentinho Balaidos, as declarações de Gerard Piqué sobre a arbitragem espanhola (na primeira vez em anos em que o Barcelona passa de beneficiado a prejudicado), a situação frágil de Pep Guardiola em Manchester numa altura em que a 10 pontos da liderança, depois de uma goleada por 4-0 frente aos toffies de Ronald Koeman, goleada essa que teve tanto de injusta para os citizens (pelo que a equipa de Guardiola fez no 1º tempo) como de justa para a formidável exibição e equipa, diga-se, que o holandês ostenta no Goodison Park (contam-se pelos dedos as futuras vedetas do futebol mundial que os toffies irão vender no próximo defeso) levou o espanhol a declarar a falência técnica nesta temporada com afirmações que vão de encontro aquilo que já se previa: quando se tem uma equipa de rock and roll como é o caso da equipa do City não se pode nem se deve querer ser aquele DJ que fica estagnado nas passagens entre tangos.
Contudo, venho aqui falar do despedimento de Abelardo do comando do modesto Sporting de Gijón, o denominado Sporting do outro lado da fronteira.

Recuo no tempo. Abelardo Fernandez Antuña é um dos jogadores que obviamente faz parte do meu imaginário de criança. Nascido e criado em Gijón há 46 anos, este antigo central internacional espanhol do “Barcelona dos holandeses” como se assim se denominavam as equipas dos catalães, de 94 a 2002 fruto das passagens do falecido Johan Cruyff e posteriormente de Louis Van Gaal (com uma passagem do inglês Robson pelo meio) caracterizava-se, para além da dureza da imponência física e aérea que colocava no exercício da sua profissão de último bastião da defesa catalã, por uma sobriedade de anti-vedeta (porque tinha um estilo muito feio de jogo) no mundo de vedetas que pontuou o Barcelona de então, de Ronaldo a Figo, de Frank de Boer aos novatos Xavi Hernandes e Carles Puyol, de Baía a Kluivert, de Overmars ao crónico capitão e timoneiro Pep Guardiola, de Sergi (o melhor lateral esquerdo dos anos 90 na minha modesta opinião) a Alfonso e a tantos outros craques que por lá passaram naquela década como Popescu, Guillermo Amor, Luis Enrique, Michael Laudrup, Stoichkov, Romário, Miguel Angel Nadal, Rivaldo, entre outros…

A sua enorme carreira de jogador haveria de naturalmente finar-se nas 4 linhas, passando para a outra margem do rio, a de treinador. E aí, Abelardo, como de resto já tinha feito quando era futebolista, voltou novamente a subir a pulso no futebol espanhol. Se enquanto jogador já tinha saído da 2ª divisão, do Sporting de Gijón, para o Barcelona e para a titularidade na selecção espanhola ao lado de Fernando Hierro, no início da sua carreira de treinador, em 6 temporadas, Abelardo haveria de saltar da equipa B do Sporting de Gijón (2008) para a equipa principal em 2014, com uma passagem a meio da viagem pelos modestos Candás e Tuillas, clubes que militam nas divisões distritais do futebol espanhol, mais concretamente nos campeonatos distritais asturianos.

As primeiras duas temporadas na sua cadeira de sonho correram bem ao antigo internacional espanhol com uma subida de divisão logo na primeira temporada (14\15) e a manutenção a ferros conseguida na última jornada da época passada, caminho que abria obviamente espaço à possibilidade desta época poder vir a ser a temporada de consolidação no principal escalão do futebol espanhol de um clube que historicamente tem vindo a votar-se como um clube de subidas e descidas entre a 1ª e a 2ª divisão.  Com pouca mão-de-obra no plantel (um ou outro jogador interessante como o central Amorebieta, o médio Ndi ou o avançado internacional croata Duje Cop, Abelardo não conseguiu os resultados que pretendia para realizar uma época tranquila, apesar de ter dado tudo, como se pode ouvir da sua boca no vídeo acima postado, para que tudo corresse bem, deixando portanto o comando técnico do Sporting de Gijón com o clube embrenhado numa crise de resultados, na 18ª posição da tabela com 12 pontos, a 4 do primeiro lugar da linha de água, lugar que é surpreendentemente ocupado pelo “desastre” projecto de destruição de Peter Lim no Valência.

Da emotiva conferência de imprensa de despedida, Abelardo demonstrou mais uma vez o seu cariz anti-vedeta e deu uma lição aos mercenários que grassam por um futebol moderno altamente industrializado, vendido, mercenarizado e mercadorizado. Em lágrimas, numa despedida comovente, o treinador despediu-se do Sporting de Gijón com um hino ao amor à camisola ao abdicar de uma choruda indeminização de 4 milhões de euros, valor que tinha a reaver até ao final do seu contrato. O profissional reduziu-se ao amor pelo clube. Creio portanto que o técnico iria preferir de longe deixar o clube com a manutenção garantida a enriquecer a vê-lo descer novamente de divisão. A elegância dos valores demonstrados, a emotividade no discurso e o amor à camisola levaram-me portanto a elevar Abelardo à minha escolha futebolística da semana. Espero que o futuro te leve um dia mais tarde de novo a Gijón Abelardo. Tu mereces ser feliz nesse clube!

Comments

  1. Konigvs says:

    É curioso ser um espanhol a demonstrar tamanho amor, quando ainda recentemente o Peseiro fez um rápido acordo de rscisão, e veio dizer que, em Portugal, só os espanhóis não abdicam de um cêntimo de indemnização, e temos esta aberração, do selecionador espanhol ainda estar a ser pago pelo anterior clube,

    Mas a profissão de treinador de futebol é de facto um mundo à parte. Não se cumpre os objetivos e é-se aumentado como Jesus foi no final da época passada. E depois, quando despedidos por maus resultados, ainda recebem indemnizações milionárias!

    Devem ter um código de trabalho especial de corrida. Se calhar, estes senhores é que precisavam de ver os despedimentos facilitados, como ainda ontem sugeria a OCDE. Estes, a quem parece ser muito difícil despedir e não gente que mal ganha para comer ou aquecer a casa.

    • Konigvus, registo desde longe, o teu interesse em falar sobre o Jorge Jesus. Na primeira abordagem, até fiz questão de colocar um like no teu comentário porque considero que o que escreveste é correcto. Assim como considero que 90% do sumo deste comentário também está correcto. Porém, não te esqueças de dois aspectos, muito importantes para fazer uma leitura da situação do Porto:
      – O primeiro e muito importante foi o facto do próprio Peseiro ter em consideração no momento da sua contratação que poderia estar a ser contratado a prazo. Teve a sua oportunidade e falhou redondamente os objectivos que lhe foram propostos. Como tal, decidiu sair e bem sem receber qualquer indeminização.
      – O actual seleccionador espanhol demorou creio que, se não estou errado, 9 meses a chegar a uma rescisão de boa-fé com um clube que para além de lhe ter cortado as asas quando ele ainda tinha possibilidades de atingir os objectivos a que se tinha proposto na temporada ou se quisermos nas temporadas em que orientou o clube, o criticou duramente, usando-0 como bode expiatório para disfarçar outro tipo de problemas que não eram da sua responsabilidade. Foram várias as vezes em que o presidente do Porto e vários dirigentes apontaram duras e injustas críticas ao treinador. Portanto, se eu fosse o Lopetegui, perante o acumular de críticas, não perdoaria um único cêntimo ao clube.

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