Vagner, nascido para vencer


vagner
O Vagner foi eleito o jogador da semana passada. Como tal, como tem vindo a ser feito pelo departamento de formação do Anadia para todos os escalões de formação de futebol de 7 teve direito ao vídeo do jogador da semana, vídeo que pode ser visto aqui. 

Hoje venho-vos contar uma história incomum nos nossos dias, a história do Vagner, um menino de 11 anos, nascido em São Tomé e radicado em Anadia há alguns anos. A história do Vagner é uma história ímpar de luta, de esforço, de dedicação, de devoção, de resiliência e de perseverança que deve servir de modelo para todos aqueles que lutam por um sonho, indiferentemente do grau de dificuldade daquilo que pretendem atingir nas suas vidas.

Numa era em que a vida das nossas crianças e dos nossos jovens está cada vez mais condicionada pelos perigos que espreitam nas ruas, facto que os limita (os jovens deixaram de crescer na rua), em que a educação parental do 8 ao 80 (vai do tudo é proibido ao tudo é permitido, não existindo um termo de equilíbrio na educação moderna; a título de exemplo, a mãe de um dos atletas de 14\15 anos que orientou granjeia-lhe autorização para ir para os treinos a pé à noite quando poderia perder meia-hora da sua vida para o transportar mas não autoriza que este se desloque à minha responsabilidade e à responsabilidade dos dirigentes adultos do clube para os jogos) ameaça gerar no futuro seres humanos menos completos, cada vez mais estandardizados pelas modas e incapazes de abdicar do extremo conforto em que vivem para arregaçar as mangas e ir à luta, o Vagner corre em contra-ciclo contra esses exemplos ao ser um menino ambicioso quando pretende ser melhor amigo, colega e atleta e extremamente laborioso quando arregaça as mangas para trabalhar de forma a cumprir os seus sonhos e objectivos.

Posto isto, numa era em que o futebol infantil está cheio de pais cheios de sonhos na cabeça, em que os miúdos são pressionados para serem literalmente os maiores e para chegar longe no futebol (quando se sabe que chegar ao topo é tão difícil porque a exigência da alta competição implica que para além da posse de todas as condições naturais, técnicas, físicas, tácticas e mentais, o atleta tem que passar por duros sacríficios para os quais a maior parte não está preparada), em que muitos treinadores são pressionados e até em algumas vezes crucificados pelos pais pelo facto de não darem mais tempo de jogo aos seus filhos, quantos miúdos e pais é que seriam capazes de manter a sua prática desportiva\ a prática desportiva dos seus filhos ao fim de 2 anos sem jogar um único jogo oficial? A resposta a esta pergunta parece-me clara: 90% dos miúdos, na situação concreta da realidade do Vagner nos últimos 2 anos, teriam desistido da prática ao fim de duas semanas.

Há 3 anos no Anadia, até à semana passada, o Vagner não pode alinhar em qualquer jogo oficial pela Geração de 2005 devido a uma vasta barreira de burocracias relacionadas com a confirmação da sua idade. Apesar de ter feito alguns jogos pelas duas equipas que aquela formação da bairrada (bicampeã distrital de Aveiro nos escalões de Benjamins B e A; apesar de nesta idade ainda não ser importante do ponto de vista pedagógico criar equipas vencedoras, o que é certo é que naturalmente, a equipa principal deste escalão não sabe o que é perder há mais de 50 jogos) apresenta em torneios não-oficiais (o que equivale a dizer que nestes dois anos, o Vagner só alinhou por meia dúzia de vezes e teve que esperar pela Páscoa e pelo Verão para mostrar em campo os frutos do seu afincado trabalho nos treinos), o clube nunca pode consumar a sua inscrição na Associação de Futebol de Aveiro.

Tal facto nunca desmoralizou o Vagner. Assim como também nunca o desmoralizou toda a verborreia horrível que já ouviu nos jogos disputados nos torneios infantis em que pode participar ou as carências sociais de que padece. Se algum de vós visse o vosso filho a ser alvo dos insultos e dos piropos que o Vagner já ouviu em alguns campos (“vai entrar o Mantorras”; “eles estão a perder, vão meter um pinheiro”; “ele é tão atrasadinho”; foram alguns dos mimos que já ouvi pessoalmente da boca de vários energúmenos, pais de atletas das equipas adversárias, na sua maioria gente frustrada que vê no futebol dos filhos a possibilidade de elevarem a sua condição e de utilizar esse mesmo futebol como uma válvula de escape para aliviar o stress ou as frustrações do quotidiano) estou certo que já teriam arranjado mil confusões no futebol ou já teriam sacado o vosso filho do desporto. O Vagner deu sempre um passo em frente, nunca se sentiu diminuído na sua condição, resistiu às bocas, foi resiliente, dedicou-se, lutou e foi recompensado na semana passada graças a um esforço colectivo do clube e individual do seu treinador Fábio Barros na regularização da sua inscrição na Associação de Futebol de Aveiro.

O Vagner respondeu à chamada. Para além do clima de felicidade estampado no seu rosto, algo que, como diz e bem o seu treinador, é motivo de realização pessoal e orgulho para todo o grupo de trabalho, no primeiro jogo oficial, o futuro internacional por São Tomé e Principe (torço para que isso aconteça porque se o Vagner mantiver o seu espírito combativo poderá chegar onde quiser no mundo do futebol) respondeu em campo com a mesma moeda que o leva a trabalhar afincadamente em todos os treinos, indiferente a factos menos positivos que diariamente lhe acontecem, faça chuva ou sol, com 2 golos na vitória da equipa frente ao Carqueijo, equipa do concelho da Mealhada.

Com isto, a história do Vagner é mais do que uma história de integração social de um menino africano na sociedade europeia através do desporto. A história do Vagner é superior a qualquer conquista desportiva, a qualquer feito desportivo, a qualquer mérito obtido por um atleta de topo. A história do Vagner é a história de um menino que está a provar ser capaz de constituir já as bases de uma personalidade que lhe permitirá fazer frente a qualquer adversidade futura da sua vida, que lhe permitirá abrir portas que em situações normais não lhe serão abertas. A história do Vagner é uma história motivadora para todos aqueles que pensam que os sonhos são intangíveis, para aqueles que não fazem nada para alterar a sua condição e para os que tendo talento de sobra não chegam ao topo porque lhes falta índice de trabalho ou porque não estão dispostos a percorrer o caminho até ao topo com a humildade que os sacrifícios exigem.

Comments

  1. Muito bom. A vida esta cheia de casos como aquele que o João Branco teve a amabilidade de transcrever.

    • O Cristiano Ronaldo também teve um percurso admirável.
      Para uma criança que veio da Madeira muito jovem, filho de uma familia com imensas dificuldades, penso que o pai era alcoólico, chegar onde chegou não e para qualquer um.
      Ainda me lembro daqueles jovens campeões do mundo de Juniores em Lisboa, a maioria deles nunca conseguiu dar aquele salto para a fama, como o Rui Costa, Figo, Fernando Couto, Paulo Sousa, etc…

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