Em sonhos, é sabido, não se morre


Há uma cabine pública no Japão cuja linha telefónica nunca foi ligada. Lá dentro há um telefone, isso sim, daqueles antigos, de disco, mas a cabine está inoperacional desde que ali foi posta, já lá vão uns anos. Isso não impede que milhares de pessoas (estima-se que mais de 10 mil) se tenham já deslocado ao lugar – na cidade costeira de Ōtsuchi – propositadamente para usá-la.

O homem que a construiu no jardim de casa chama-se Itaru Sasak. Também ele perdeu alguém muito próximo no grande sismo seguido de tsunami de 2011. Num único dia, 11 de Março de 2011, a cidade de Ōtsuchi perdeu mais de 1.400 pessoas, aproximadamente 10% da sua população.

Sasak necessitava de dizer algumas palavras ao familiar que tinha perdido e ocorreu-lhe a ideia de dizê-las a um telefone. Mas não queria falar para uma linha telefónica vulgar. Queria que as suas palavras fossem “levadas pelo vento”. Ocorreu-lhe, assim, construir uma cabine e dizer, ali, tudo o que ansiava dizer. Esse seria o único propósito da cabine e qualquer um poderia usá-la. Aos poucos, a notícia foi correndo e outras pessoas da cidade começaram a chegar, depois gente de outras cidades, e logo jornalistas que quiseram contar a história da cabine telefónica onde se fala com os mortos. A “cabine dos ventos”.

Num documentário do canal NHK em que foi pedido a alguns dos visitantes da cabine para gravar as suas palavras, há crianças a contar aos avós em que ano estão agora na escola, há um homem que pergunta ao pai porque foi ele, logo ele, a morrer, uma mulher que assegura ao marido que os filhos de ambos estão bem. Muitos prometem voltar a ligar, noutro dia, para conversar mais um pouco.

Há algo de onírico nessas imagens, as pessoas saem da cabine como se tivessem estado noutro tempo, noutro espaço. Diz o filósofo Fernando Savater que, se não sonhássemos durante o sono, não acreditaríamos numa vida para além da morte (La Vida Eterna, Ariel, 2007). No sonho, recorda, apesar do adormecimento dos nossos corpos, movemo-nos por espaços familiares e fantásticos, e reencontramos os nossos mortos, tantas vezes sem que isso sequer nos cause espanto.

Essa experiência, especula Savater, terá convencido os nossos antepassados de que quando parecemos ausentes da vida, adormecidos num sono profundo, poderemos aceder a uma outra vida (inacessível para quem, desperto, nos vigia), que prolonga esta e nos reconforta com o reencontro com aqueles que perdemos. Dormimos como quem morre e sonhamos como imortais.

A cabine de Itaru não tem fio que a ligue à terra.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. Alexandra Martins says:

    Quem me dera ter uma cabine dessas. Às vezes (e há dias tão longos…) dava-me tanto jeito. Obrigada, fez-me sorrir e ter alguma esperança de um dia poder usar essa cabine telefónica.

  2. Adélia Maria Antunes Pires says:

    Mais uma crónica daquelas que me fazem estremecer o coração. Obrigada Carla!

  3. manuel says:

    2011.

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