A máquina de fazer parvos


Ana Cristina Pereira Leonardo

A recente controvérsia a propósito da «linguagem inapropriada» de um livro incluído no Plano Nacional de Leitura, recomendado por professores de Português a alunos do 8º ano, veio recordar a falta que faz a inteligência. Ao escrever inteligência, refiro-me ao médico, pedopsiquiatra, psicanalista e educador João dos Santos, homem cuja sensibilidade, sustentada na firme aliança entre teoria e prática, jamais lhe permitiu abandonar a árvore a troco da floresta. As suas conversas com João Sousa Monteiro, reunidas no livro Se Não Sabe Porque É que Pergunta?, continuam a ser um manancial de sabedoria e encantamento e é nele que vem relatado este pitoresco episódio que versa precisamente sobre vida sexual.

Convidado para uma conferência, João dos Santos conta que «a certa altura, levanta-se uma senhora lá do meio daquele anfiteatro muito grande, lá de cima, e diz-me: “Eu já expliquei ao meu filho tudo quanto havia sobre o nascimento das crianças, e ele agora quer ver mesmo como é que os pais fazem, quer estar lá no quarto para ver como é. O que é que o Sr. fazia?” e eu disse-lhe, de cá de baixo da minha cátedra: “Olhe, minha Sra., se fosse comigo, eu dava-lhe dois estalos, porque não gosto que se metam na minha vida.”»

A criança a quem tal abnegada mãe se refere, será decerto mais nova do que os alunos do 8º ano que terão, no geral, entre 12 e 14 anos, mas ainda assim atirar-lhes com esta definição de puta: «uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu» parece temerário, por muito que os indignados com o que chamam «puritanismo parental» argumentem que no 8º ano são mais os infantes que conhecem os factos da vida do que os actos ilocutórios, não sendo isso, contudo, que está em causa, afinal, trata-se de Português, e se é de Português para Miller falta tudo ao autor da frase, Miller que obviamente não escrevia para criancinhas nem argumentava que «o sexo do homem é muito mais honesto, visível e mais facilmente lavável, enquanto o das mulheres é mais sinistro», o que nos traz ao ponto – sexo lavável?! –, daí que corrigido o «lapso», nas palavras do responsável do PNL, o livro em causa passe a ser recomendado a alunos apenas do 10º ano e seguintes, o que me faz regressar a João dos Santos que cito livremente: se fosse comigo, eu dava-lhe dois estalos, porque não gosto que se metam com a literatura.

Crónica publicada no Expresso em 4 de Fevereiro de 2017

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