Libertadores dos Roedores Agrilhoados


Em tempos idos, fui amiga do colectivo LRA, esse lendário bando que esteve na origem de tantos e tão espectaculares actos de insubordinação contra a escravização dos nossos irmãos (é uma forma de dizer) roedores.

Nunca cheguei a entrar oficialmente no grupo porque fiquei com uma aversão aos bichos desde que me passou uma ratazana por cima dos pés, numa manhã de chuva, em Campanhã, mas nem por isso deixei de apoiar as suas corajosas investidas. Certa noite, já no ocaso das actividades do LRA (depois do escândalo da Operação Chinchila), bateram-me à porta os camaradas B. e C., os rostos escondidos atrás dos capuzes e as vozes trémulas de frio e temor. A acção dessa noite correra mal e apenas tinham conseguido libertar um espécimen de laboratório do qual tinham de livrar-se a toda a pressa, perseguidos como estavam pelas autoridades. Passaram-me uma pequena caixa de cartão para as mãos e correram para a carripana desconjuntada que fora de um amigo da causa. Apenas consegui balbuciar um “mas…” que eles já não ouviram. Da caixa vinham uns ruídos abafados, umas pequenas patas a arranhar a superfície. Fechei a porta, pousei a caixa sobre a mesa e abri-a com cuidado. 

Foi assim que conheci o Alfredo. Era um ratinho branco, de rabo comprido, olhos e focinhito rosados, com uma expressão curiosa e uma forma de apoiar as patinhas debaixo dos seus bigodes brilhantes como fibra óptica que lhe conferia um ar quase pensativo. Apesar de uma certa repugnância inicial, habituei-me depressa à sua presença tranquila. Semanas mais tarde, o LRA fez-me chegar um relatório da sua vida passada. E que vida tivera o Alfredo!

Talvez um dia a humanidade se arrependa do tratamento que tem conferido aos ratos de laboratório, aos quais as imperiosas necessidades da ciência impõem tantas sevícias. As pobres criaturas são electrocutadas, alimentadas à força, logo submetidas a jejum, torturadas das mais cruéis maneiras. São-lhes provocados tumores, doenças várias, inoculam-se-lhes vírus, implantam-se-lhes orelhas em sítios absurdos. E até, soube-se há pouco, são embebedados, coisa que, em teoria, poderia ser do seu agrado, mas apenas para testar se são capazes de recordar o que de mau lhes acontece quando bêbedos. Assim concluíram, graças ao exemplo dos ratos, aquilo que a literatura já ensinou há muito: bebe-se para recordar melhor, não para esquecer.

Se o Alfredo recordava as más experiências, nunca o demonstrou. Eu lia-lhe frequentemente em voz alta, coisa que ele muito apreciava. Também cantava para ele, o que costumava deixá-lo muito agitado. É certo que acontece algo semelhante com os seres humanos, o que me leva a pensar que não era um problema do Alfredo.

Gostava particularmente de ouvir o “À boleia pela galáxia”, do Douglas Adams, sobretudo a passagem em que se explica que foram os ratos a encomendar a criação da Terra a uma empresa construtora de planetas, e que têm estado, enquanto fingem submeter-se a experiências várias, a aproveitar a oportunidade para estudarem, eles sim, os seres humanos. Entretinha-se a comer pedacinhos de maçã enquanto ouvia, e aquelas mordiscadelas pequeninas e ágeis sacudiam-lhe a cabeça como se estivesse a soltar risadinhas mordazes. No final, corria para cima do livro e com as patinhas ágeis empurrava as páginas para que eu percebesse que deveria voltar atrás e ler de novo.

Agora que penso nisso, talvez me estivesse a dizer que era mesmo assim, que o Adams tinha razão. Que têm sido eles, todo este tempo, a estudar-nos e que as conclusões não são famosas.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. Paulo Só says:

    E depois? O que aconteceu ao Alfredo?

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