A história de uma mentira, que afinal é só meia verdade, mas que mostrou mais uma vez a miséria moral deste país!


Rui Naldinho

O envolvimento de Mário Centeno no processo que desobrigava os futuros administradores da CGD de entregar declarações de rendimentos tem sido o abono de família da Oposição, parca em iniciativas palpáveis que possam ajudar a melhorar as nossas vidas. PSD e CDS vêem na guerrilha ao actual Ministro das Finanças, a par de Vieira da Silva, os membros do executivo com mais influência nas decisões de António Costa, uma das raras oportunidades de fragilizar o governo, desacreditando Centeno, bem como os partidos que sustentam esta coligação.

Mário Centeno. Fotografia: MIGUEL A. LOPES/ LUSA

Apesar do folhetim ainda não ter terminado, quantas semanas mais durará, Marcelo Rebelo de Sousa já veio afirmar que até provas documentais em contrário, por ele o assunto estava encerrado.

PSD e CDS ainda não perceberam o quão difícil será para esta Oposição tão inconsistente abrir qualquer brecha na coligação até às eleições autárquicas. Nem o chumbo à TSU de Viera da Silva na Concertação Social minou a coligação como pretendiam, nem lhes trouxe proveitos eleitorais por aquilo que as sondagens demonstram. O que o chumbo da TSU por parte do PSD acabou por revelar, foi o reforço da ligação entre os vários elementos que compõem a Geringonça, com a aprovação de uma medida de substituição à TSU que era defendida pelo BE e pelo PCP, a redução do PEC. Acresce que o PS também ficou avisado para se deixar de veleidades fora do quadro do acordo, sem primeiro consultar os seus parceiros.

O caso Centeno tem-nos proporcionado momentos mediáticos deliciosos, como aquela interpretação invulgar de certos marçanos na imprensa, a começar pela SIC, sobre do imbróglio criado pela ingenuidade política de Centeno. “Este é o momento em que, durante uns dias, os analistas, os editores de economia e os jornalistas que escondem a sua agenda ideológica” atrás duma pretensa pose da verdade, se tornam incapazes de abordar o essencial, a recapitalização da CGD, mantendo-a na esfera pública, agarrando-se ao acessório, num jogo político fútil, tomando partido por uma dos lados da contenda, como se estivéssemos num jogo de futebol.

Independentemente das trapalhadas de Centeno, que existiram de facto, não vale a pena escamoteá-las, o que ficará para a História será mais uma vez a despudorada arrogância das nossas elites, sob a forma de desprezo pelas Leis Constitucionais consagradas no país, como se estas formassem uma casta à parte da restante população, para o qual o cumprimento da lei se dispensa por decreto.

“Se é verdade que o mundo se habituou a que os banqueiros e administradores dos bancos [se sintam] tenham estatutos de excepção, a começar pelos altos vencimentos ganhos em empresas falidas, dificilmente seria possível encontrar personagem tão pouco dotada para o serviço público como António Domingues. A sua decisão de abandonar a administração antes do seu sucessor tomar posse não aconteceria nem na gestão de uma mercearia.”  [Ana Sá Lopes, Jornal i, 07/01/2017]

Concluiremos por fim, que estamos perante a história de uma mentira, que afinal é só meia verdade, mas que mostrou mais uma vez a miséria moral das nossas elites!

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Uma análise ponderada e com a qual concordo em absoluto.
    Centeno cometeu um erro: foi o de não ter dispensado Domingues, alto e bom som, no preciso momento em que este lhe propôs uma trapaça ou ilegalidade.
    Pecou por falta de reacção, porque provavelmente não é político, esquecendo o velho ditado que diz : “À mulher de César, não basta sê-lo…”
    Tivesse ele agido como se exige a um político de bem ( e que manifestamente, não existe na nossa praça) e não haveria qualquer história para “entreter meninos”, coisa que PSD e CDS tanto gostam.

  2. joão lopes says:

    o PSD quer fazer agenda mediatica,seja com o que for,se eram a favor da descida da TSU,deixaram de ser,se eram a favor(sempre foram,alias) de os gestores fazerem o que bem entendem,agora já não são…tudo por causa das autarquicas,tudo por causa do poder,e tambem porque são uma “elite” muito,mas muito arrogante.(basta lêr o joão tavares,por ex.)

  3. Manuel Torres da Silva says:

    Inteiramente de acordo com o seu rexto, que evidencia as ingenuidades de quem julga que ir para o governo só carece de sapiência. É preciso mais: ratice e bom senso, Mário Centeno, que, como ministro, quase atraiçoou o muito que sabe de macro e microeconomia.
    Só peço ao Rui Naldinho que edite esta passagem, para ficar conforme com o Português escrito sem erros ortográficos (mnemónica que aqui deixo, para guiar quem tenha dúvidas: para se “ver”, são precisos DOIS olhos, melhor, dois “EE”:
    Em vez de: “PSD e CDS vêm na guerrilha ao actual Ministro das Finanças”, devia ter escrito: “PSD e CDS vêem na guerrilha ao actual Ministro das Finanças” (ainda na ortografia anterior ao AO90, que aboliu, neste caso, o acento circunflexo).
    Feito isto e detectada a edição para corrigir, eu apagarei (se puder, claro) esta errata.
    Obrigado. Continue. Sou leitor assíduo dos seus textos.

    • Rui Naldinho says:

      Só agora vi o seu comentário, o qual agradeço.
      Você é o meu anjo da guarda ortográfico.

      • Manuel Torres da Silva says:

        Desculpe, mas não consigo apagar, como prometi, o meu comentário. Anjo, talvez, da guarda, nem pensar.
        Abraço.

  4. Queria ter escrito, em vez de “Inteiramente de acordo com o seu rexto, que evidencia as ingenuidades…”, o seguinte:
    Inteiramente de acordo com o seu texto, que evidencia as ingenuidades

  5. Só os cegos não vêem ou não querem ver as jogadas da “caranguejola” !!!

  6. Centeno entrou na política sem perceber que a política é um ninho de lacraus sem um pingo de dignidade que são capazes de vender a alma ao diabo desde que isso lhes traga alguma subvenção vitalícia pelo caminho ou outra benesse parecida indiferentes ao roubo descarado que vão fazendo ao povo e ao país. Uns autênticos abutres. Ao julgar estar no meio de gente séria, deu o flanco e agora tem que que se aguentar ao bife. Esta corja pafiana uma matilha que abocanha as presas e não as larga sem as destruir.

  7. Antonio Santos says:

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