Uma espécie de carta aberta ao deputado Nuno Magalhães


Não, Dr. Nuno Magalhães, não vivemos numa democracia simulada. Uma democracia simulada é, por exemplo, aquela governada por um partido de cleptocratas, em cujo congresso o partido do senhor deputado alegremente participou. Ou aquilo em que o vosso colega do PPE, Viktor Orbán, quer transformar a Hungria. Percebe a diferença? Vá, não é assim tão difícil.

Um tipo até compreende a confusão: o senhor é do CDS-PP, onde se podem ainda encontrar vários exemplares de saudosos do tempo do avô cavernoso, tendências que vangloriam o fascismo e jovens que peregrinam até à campa do carniceiro para prestar tributo. É natural que os processos democráticos ainda possam causar algum tipo de estranheza.

Agora o que se vive aqui, ainda que o senhor não goste da versão actual, é mesmo uma democracia. Claro que temos os nossos problemas, aos quais o senhor não será com certeza alheio, como a corrupção e o tráfico de influências, mas isso são doenças comuns nas democracias, e já vinham do tempo do outro senhor.

A diferença, lá está, é que aqui podemos expressar livremente as nossas opiniões, a imprensa, podendo não o ser, é livre, não existem perseguições ou presos políticos, cada um pode vestir o que quiser, ler o que quiser, ouvir o que quiser, discutir e propagandear o que quiser, enfim, uma série de opções interessantes que não existem nas democracias simuladas. Nem obrigados a ir para uma guerra absurda somos, imagine lá!

Mas o senhor, que agora está na oposição, e que de repente integra um grupo de pessoas que se indignam com o estado do SNS ou da Educação, que o governo anterior, aquele que o senhor apoiou, deixou em frangalhos, acha que vivemos numa democracia simulada. E porquê? Ora, segundo o jornal Público, tal sucede devido a um “impasse nas reformas”, algo que também aconteceu no anterior governo (lembra-se daquela treta da reforma do Estado, cujo responsável máximo até era o seu anterior líder?), ao “fingimento de ideias” (esta nem precisamos de desenvolver, pois não?) e também aos partidos que compõem a maioria parlamentar, que avançam com propostas que não têm intenção de aprovar no Parlamento, mais ou menos aquilo que os senhores e os seus companheiros da São Caetano faziam há uns meses atrás. Não está recordado? Essa memória selectiva…

Sim, a malta compreende que o senhor está a discursar para dentro, na abertura das jornadas parlamentares do seu partido, mas não precisa de se prestar a este papel. E olhe que, se calhar, até tem razão numa coisa: PCP e Bloco até podem ocasionalmente fazer de conta que não vêem nem ouvem. Mas isso não foi o que o seu partido tantas vezes fez? Aliás, não foi o líder do seu partido que se demitiu no seguimento da escolha de Maria Luís Albuquerque para a pasta das Finanças, afirmando a irrevogabilidade da sua decisão, para que, poucos dias depois, sem que nada mudasse, voltasse atrás a troco de uma promoção e um ministério adicional para o seu partido? No meio desta novela toda, onde a convicção e os princípios deram lugar ao interesse e a poder, será que o senhor ou algum dos seus colegas de bancada viram ou ouviram alguma coisa? Nem um pio, senhor deputado, não um pio.

Esta sua encenação, senhor deputado, desculpe-me que lhe diga mas é uma valente treta. Às vezes até parece que vivemos mesmo numa democracia simulada, pelo menos a julgar pelo imenso poder que um partido pequeno como o seu tem ou por situações nebulosas como aquela em que o seu partido recebeu 1,06 milhões de euros em suaves transferências bancárias de um indivíduo que não existe, mas, como em tudo na vida, também a democracia não é perfeita. Talvez o senhor seja um daqueles que ainda não ultrapassou o trauma de descobrir que vivia num sistema representativo, onde a correlação de forças no parlamento é soberana, e isso explicaria muita coisa. Se for o caso, é grave, ou não fosse o senhor deputado licenciado em Direito.

Olhe, era esta espécie de carta que tinha para si. Despeço-me, com uma forte saudação democrática. Sem simulações.

Foto: António Cotrim/Lusa@Dinheiro Vivo

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Há pessoas cujo trauma de terem ficado fora dos desígnios do Poder, os deixa de tal forma deprimidos e abatidos, ao ponto de terem visões, e viverem a partir daí completamente fora da realidade. Não sei se é por se estar a aproximar o 13 de Maio, se pela vinda do Papa, mas o Nuno Magalhães terá tido uma visão, e esta é “especialmente interessante”, por não ser uma divindade, mas um tipo de regime político social que não existe.
    Acorda, pá! Sai dessa hipnose!
    Só existe democracia e ditadura.
    Ou se vive num regime democrático, ou se vive numa ditadura. A simulação não é uma característica de grupo social ou de uma sociedade como um todo, mas do género humano como ser individual.
    Por exemplo:
    Cavaco Silva simulou ser um democrata, e simulou querer salvaguardar o Estado de Direito, quando deixou passar 3 Orçamentos cheios de inconstitucionalidades várias, que ele e tu, e outros tantos como tu, sabiam existirem, mas fingiram não as ter visto. A democracia funcioniu em pleno, e o TC mandou-vos às ortigas, obrigando a repor as coisas como estavam.
    O que tu sofres é de uma doença parecida com o chamado Sindroma pós traumático. Desde que a Gerigonça vos atirou para fora do governo ficaste com visões.
    E como os resultados catastróficos que esperavas não vieram, entrastes em delírio.
    Deixa lá! Isso passa-te. Vais ver que nas próximas eleições legislativas já não vais sentir esse “problema”, quando entrares no Táxi!

  2. JgMenos says:

    Como o ridículo cabe na liberdade democrática, nada a dizer.

    • Rui Naldinho says:

      Se o ridículo matasse, você já cá não andava!
      Mas como o senso comum é uma dádiva daqueles que não pensam como os “menos”, aproveite para se entreter com aquelas suas “deliciosas frases” desconexas e sem sentido, que nos proporciona diariamente.
      A gente vai chamar a Joana Vasconcelos para nos fazer um desenho, talvez ela o consiga “interpretar”!

    • Nascimento says:

      Tem razão. Há um espelho em casa?Pois aproveita e delicia-te.Verme.

    • José Peralta says:

      Ó “menos” ! Vamos então falar de RIDÍCULO :

      ABEL MATOS SANTOS – CDS.jpg

      Abel, o mestre da reacção ! “Programa” deste “ideólogo” do TEM, psicólogo clínico no Hospital de S.ta Marta, e vice-presidente da concelhia de Lisboa do CDS !

      Não é “por nada” ! É só para ver o que é que o figurão pensa !

      25 de Abril – “O que comemoram eles ? Aaaah, já sei, é a liberdade…a liberdade de abortar, de mudar de sexo de manhã, à tarde.”

      Salazar I – “A verdadeira santidade e grandiosidade de Salazar, foi não ter liquidado ninguém, quando o podia ter feito” !

      (Aqui, cabe às famílias dos muitos torturados e assassinados pela pide, terem uma palavra a dizer, a este rematado biltre !)

      Salazar II – ” A ver na RTP Memória(…)imagens de quando Portugal era um País a sério e governado por gente a sério.”

      Donald Trump – A maior democracia do Mundo, funcionou e o povo escolheu de forma inequívoca. Que aqueles que se dizem democratas, respeitem a vontade popular.”

      “Obrigado” ó santos, por avisares a gente ! Assim, sabendo o que essa “cabecinha marôta” pensa, ficámos a saber com o que contaríamos…se te deixássemos…”pensar” !

    • José Peralta says:
  3. Amilcar Dias says:

    Desonestidade intlectual neste texto.
    Quase tao tendencioso como a TVI

  4. Eu mesma says:

    Mais ou menos a propósito, veja-se o despautério da beata falsa: http://observador.pt/2017/05/03/cristas-acusa-governo-de-institucionalizar-a-cunha-dos-sindicatos/

  5. Ricardo Almeida says:

    O CDS, como partido parasita, precisa de um hospedeiro para sobreviver. Todos os partidos no parlamento esperam um dia ganhar apoio suficiente para governar… excepto o CDS. O problema com o CDS é que é incapaz de assumir derrota, apesar de ter uma representatividade insignificante. Os azulinhos sabem que nunca haverão tias devotas e labregos de botas ensebadas e camisa Ralph Lauren suficientes em Portugal para garantirem peso suficiente para o que quer que seja.
    Que lhes sobra? Bem, sempre podem dar aquele ar que servem para alguma coisa, largar umas verdades de La Palice de vez em quando para avisar que ainda estão vivios e esperar por um governo que goste de meter a mão no pote até ao cotovelo. Nessa altura o CDS, que nem uma prostituta velha mas que conhece os truques todos, salta para o barco com a maior das naturalidades e durante 4 anos suga da teta como se não houvesse amanhã. Mas infelizmente para eles, amanhã chegou finalmente e o cão que habitavam foi expulso do canil e agora não lhes serve para nada.
    Noutros anos esta era a altura de voltar para a erva alta e esperar uns anos até que as eleições voltassem ao canil.
    Mas a realidade mudou para o CDS. O governo actual não gosta de ácaros e pulgas e o pior é que Portugal está a acordar a pouco e pouco para os parasitas políticos.
    A indisposição do Nuno não é apenas a “típica falta de mama” tão característica do CDS no segundo ano daquilo que eles chamam o “período de transição”, que é basicamente o tempo mínimo até a alternância dar mais uma volta e o ambiente voltar a estar propício a mais uma parasitação… digo coligação. O Nuno está ralado pois a bendita alternância está ameaçada. Se o PCP e o BE conseguem entrar na dança a sério, como é que o CDS vai comer daqui para a frente? Nuno está a antever tempos muito negros para o taxi e o pânico dá-lhe para dizer estas parvoíces.

  6. Como é que um partido que votou contra a Constituição pode participar num governo? Em princípio tem de governar com ela…Como pode aceitar um escano na Assembleia?

  7. Foi gente como o deputado Magalhães quem em 1975 impediu que cretinos “democratas” de aviário tomassem conta do país e o transformasse no que foram transformados todos os países que seguiram desde há cem anos a idiologia e metodos socialistas . Basta conferir para que lado fugiram as pessoas quando se deu a queda do muro = tudo rumo ao paraíso que alguns (cada vez menos) ateimam em achar uma maravilha.

    • Foi, António. O Magalhães, o puto que vai a Santa Comba meter flores na campa do carniceiro e o outro adorador de fascistas. O quanto lhes devemos, camarada António!

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