“Jornalismo” militante na imprensa empenhada


O Jornal Económico pegou num artigo do Financial Times com um ano (de Setembro de 2016), traduziu-o, publicou o seu próprio resumo, partilhou-o no Facebook e depois apagou-o.

«“Portugal está no centro de uma tempestade perfeita”, realça o Financial Times» (Google cache), assim titulou Leonor Mateus Ferreira a peça em causa. Nela se encontra o descrédito que os sábios estrangeiros sentenciam sobre Portugal e que os indígenas, ignorantes e manipulados por uma comunicação social comprada, não reconhecem. É o que se poderia pensar sobre o assunto, não estivéssemos nós perante uma variante de fake news.

Foi precipitação de quem não reparou na data, tal era o entusiasmo com a oportunidade de citar um cronista estrangeiro qualquer? Não sabemos, o jornal optou por apagar silenciosamente o artigo, sem se dignar a dar uma palavra aos leitores. Como se o que vai para a net alguma vez desaparecesse. Pega-se num artigo de opinião, dá-se-lhe um título assassino, eleva-se-o ao estatuto de ser um jornal a dizê-lo, estrangeiro, ainda para mais, e assim temos spin nacional para encher caixas de ressonância (teve 1.6 mil partilhas no Facebook).

Seguem-se as capturas de ecrã para documentar que, de facto, existe uma imprensa comprometida, sim, mas com um certo modelo de sociedade, conducente a uma brutal assimetria social, e que se tem procurado implantar um pouco por todo o lado, Portugal incluído.

Google cache do artigo do JE (baseado num artigo do FT de há um ano)

 

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Google cache

 

Ausência de explicação perante a “notícia” apagada (link original – reparar que este é redireccionado para outro terminando em “__trashed-206718”)

Para registo e para que não restem dúvidas sobre a “fonte” do JE, aqui fica a “notícia” do JE e partes do artigo do FT de 2016.

JE:

“Portugal está no centro de uma tempestade perfeita”, realça o Financial Times
Leonor Mateus Ferreira
15:30
Jornal britânico questiona se Portugal poderá voltar a precisar de um resgate financeiro e aponta que o nosso país se encontra num momento de fraco crescimento, baixo investimento e competitividade, défice orçamental e problemas na banca.

“Apesar de ter escapado ao desastre de ser atirado para fora da zona euro, Portugal não concretizou reformas suficientes para assegurar sucesso económica e orçamental financeiro”. A posição é defendida pelo jornal britânico de referência Financial Times, num artigo intitulado “Reformas em Portugal não foram suficientemente longe para garantir a sustentabilidade financeira”.

Depois de três anos de um programa de ajuda externa no valor de 78 mil milhões de euros, Portugal reemergiu em maio de 2014. No entanto, o país continua a ter razões para ser cauteloso, segundo o FT.

“Portugal está no centro de uma tempestade perfeita de fraco crescimento económico, queda do investimento, baixa competitividade, défices orçamentais persistentes e um setor bancário subcapitalizado que detém muita da estratosférica dívida pública da nação”, salienta o artigo.

Para lidar com estes problemas está governo minoritário socialista, apoiado no Parlamento pela “extrema esquerda”, continua. O FT explica ainda que, aos olhos das empresas portuguesas, o Governo português está mais inclinado a agradar as multidões com medidas anti-austeridade que em implementar reformas que garantam a eficiência do setor público e impulsionem o investimento.

“A questão é se os problemas de Portugal vão tornar inevitável um segundo resgate financeiro. Para as autoridades oficiais portuguesas e para os credores do setor privado, esta é uma questão absolutamente sensível”, acrescenta.

Partes da crónica do FT usadas no artigo do JE (usam-se apenas citações devido aos direitos de cópia):

Portugal reforms not gone far enough to ensure financial solidity

(…)

Grappling with these challenges is a minority Socialist government, propped up in parliament by the far left. In the eyes of Portuguese business, the government is inclined more to crowd-pleasing anti-austerity measures than to reforms aimed at improving public sector efficiency and encouraging investment. The question is whether Portugal’s troubles will make a second financial rescue unavoidable.

(…)

Despite having escaped the disaster of crashing out of the eurozone, Portugal had not reformed itself enough to ensure lasting economic and financial success, they said.

(…)

Two years and four months later, the Portuguese central bank’s assessment appears to have been correct in every important respect. Portugal is at the centre of a perfect storm of meagre economic growth, falling investment, low competitiveness, persistent fiscal deficits and an undercapitalised banking sector that owns too much of the nation’s sky-high public debt.

The question is whether Portugal’s troubles will make a second financial rescue unavoidable.

(via Adélia Pires, que descobriu a patranha)

Comments

  1. Ana A. says:

    À falta de verdadeiras tempestades e catástrofes (cá no rectângulo), vai-se inventando bichos-papões! Mas, talvez não se perca pela demora, e daqui a nada estaremos a produzir e a receber notícias dentro de algum bunker…
    Pobre gente!

  2. Paulo Marques says:

    Não é que esteja errado, as reformas necessárias é que são as opostas às do FT, essas já vimos no que deram ao longo de 10 anos: previsão atrás de previsão falhada do neoliberalismo.

  3. JgMenos says:

    Setembro de 2016 não era já o tempo da ‘alternativa de sucesso’?
    Setembro 2017 será o tempo do ‘milagre geringonço’?

  4. Joam Roiz says:

    São muito poucos os jornalistas que hoje fazem da sua profissão um verdadeiro serviço à comunidade. A grande maioria dos órgãos de comunicação social enganam deliberadamente os seus leitores ou ouvintes e estão ao serviço dos interesses mais abjectos, sejam eles de natureza financeira, económica, social e até artística (vejam como o sistema “recuperou” Zeca Afonso, ao ponto de se lhe referir respeitosamente como Dr. José Afonso, mas remetendo a sua obra praticamente ao silêncio). Infelizmente, o sistema capitalista faz cada vez mais da Democracia uma farsa e da Política uma choldra. A grande burguesia financeira já nem sequer esconde os seus intentos: explorar até ao tutano os trabalhadores assalariados. A direita mais radical tomou conta dos Estados e da Democracia – essa “invenção” para enganar e manter na letargia os povos com a falsa promessa de uma igualdade de oportunidades que nunca chega.

    • JgMenos says:

      O ensino é gratuito, a saúde é gratuita, há mais umas broas para encaminhar os desfavorecidos.
      Mas para a igualdade de oportunidades falta definir quotas para grunhos, esquerdalhos, e outras minorias desfavorecidas…não esquecendo os pretos, os ciganos e os LGBTYZ.

  5. Joam Roiz says:

    Senhor JgMenos, o seu comentário é inqualificável. Em vez das “quotas” que alvitra, eu proponho quotas de 100% de condenações para racistas e homofóbicos. O nosso Código Penal deveria ser alterado e passar a classificar como crime as proclamações racistas, condenando os seus autores à pena máxima prevista no referido Código Penal, ou seja, a 25 anos de cadeia sem possibilidades de saída antes do cumprimento total da pena. O racismo é uma forma de fascismo e os fascistas não deveriam passar impunes.

  6. Joam Roiz says:

    Errata: No meu comentário acima, onde se lê “(…) o seu comentário é inqualificável (…)”, deverá passar a ler-se “(…) o seu ‘grunho’ é inqualificável (…)”.

    • JgMenos says:

      Que espírito tão elevado!
      Que indignação tão exaltante!
      Que cretino tão falante!

      • ZE LOPES says:

        Já todos tinhamos verificado que V. Exa. é um poeta de alto coturno. No entanto, e a bem da sua imagem pública, deveria aqui evitar homenagens ao seu chefe Coelho. Parece mal!

  7. Joam Roiz says:

    O sr. JgMenos deve andar à procura de seu pai. Lamento, mas não sou eu.

Trackbacks

  1. […] A história está detalhada em post anterior, escrito no dia 8 de Setembro de 2017. Nessa altura, acendendo ao artigo pela Google Cache, podia constatar-se que o artigo do DE tinha 1600 partilhas no Facebook. Hoje, passados 4 dias, o artigo já tem 2500 partilhas no Facebook. Portanto, mesmo com a “notícia” original apagada no jornal online, o artigo continua a viver no Facebook, onde está a ser partilhado. […]

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