Uma nuvem suástica que paira sobre Berlim


Fotografia: Bernd Settnik/DPA@Berliner Morgenpost

Com as urnas fechadas e os votos contados, as conclusões a retirar destas legislativas alemãs parecem-me muito óbvias: a CDU/CSU de Angela Merkel sofre uma queda aparatosa, dos 45,3% de 2013 para 33%, o SPD de Martin Schulz obtém o pior resultado de sempre, ficando-se pelos 20,5%, após os 29,4% de 2013, e o grande vencedor do acto eleitoral é o partido de extrema-direita AfD, que nas eleições de 2013 não conseguiu eleger um único deputado e que agora consegue uma votação de 12,6% e 94 dos 709 assentos disponíveis no Bundestag.

Não me alongarei sobre estes resultados, sobre o regresso em força dos liberais do FDP, que obtiveram também um excelente resultado, ou sobre os crescimentos anémicos dos Verdes e do Die Linke. Interessa-me, sobretudo, relacionar os péssimos resultados do bloco central alemão –  os conservadores da CDU/CSU e os social-democratas do SPD – com o crescimento assustador da extrema-direita. Ou não tivessem sido eles os únicos a perder representantes no hemiciclo alemão. Uma tendência preocupante, não só na Alemanha, mas também noutros Estados europeus, com o caso francês à cabeça. Uma tendência que, felizmente, ainda não se verifica em Portugal, onde a extrema-direita ainda não tem expressão, apesar dos Venturas desta vida.

Por toda a Europa, bem como nos EUA pós-Trump, ainda que em moldes algo diferentes, surgem fantasmas do passado, fantasmas que nos trazem á memória o que de pior experienciamos no século passado. Fantasmas que se alimentam da degradação dos partidos do centro, presos em espirais de corrupção, clientelismo e tráfico de influências, o combustível perfeito para um discurso violento, segregador e isolacionista, que coloca a democracia em xeque. Um discurso que cavalga as ondas do racismo e da xenofobia, aprofundando a divisão nas sociedades ocidentais. O discurso que serviu de base para o Brexit ou para a ascensão de Marine Le Pen. Um discurso que agrada a Moscovo, que esfrega as mãos perante o enfraquecimento da débil União, às mãos dos seus pares.

Mas, não andou a União a cavar a sua própria sepultura? A União e os seus burocratas anafados, fechados na luxuosa capital do superestado que não o é, vassalos de um sistema financeiro predador e implacável, que prometeu uma Europa unida e igualitária, que, não conseguindo andar à mesma velocidade, andou à velocidade dos poderosos e deixou metade de si para trás, refém da dívida e do oportunismo de políticos medíocres. Era uma questão de tempo. Uma questão de tempo até que as comadres se zangassem, a periferia ruísse e os demagogos emergissem, por entre os escombros de sucessivas recessões.

E eles aí estão. Preparados para acabar com o que resta desse sonho europeu que há muito se transformou num pesadelo. Preparados para perseguir emigrantes, minorias e, a seu tempo, os democratas que restarem. Preparados para exigir a pena de morte, a castração química e os campos de trabalhos forçados. Desejosos de queimar pontes, livros e, porque não, parlamentos nacionais. Não foi assim que tudo começou, a 27 de Fevereiro de 1933?

 

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Paira paira, João!
    Hoje existe um clima propício para tudo isto. Não é muito difícil encontrar-lhe o rasto, ainda que a solução seja difícil de resolver.
    O caminho seguido pela globalização, sim repito, globalização, contrariamente ao que fora prometido, só trouxe mais desigualdade, mais desregulação, mais precariedade, mais racismo, xenofobia, cá e lá. Refiro-me à Europa e à Ásia. Já nem falo de África, porque nesse caso seria o pior ainda.
    Passou a haver mais guerras e mais fome, em vez do que estava “garantido” pelos profetas do liberalismo, de um planeta com mais abundância, para aqueles que almejavam por melhores condições.
    A estes fenómenos somam-se fugas em massa de populações, vítimas da guerra, genocidios e tortura, e só daqueles cujas condições económicas permitiam uma fuga arriscada pelo Mediterrâneo ou pela Turquia, paga aos traficantes.
    Numa Europa a caminhar claramente para o abismo, onde o desemprego faz cada vez mais mossa, o emigrante é um alvo fácil, amanhã serão os luso descendentes, os turco descendentes, acabarão por ficar apenas os descendentes de Bismarck, de Luís XIV, etc…

    • JgMenos says:

      ‘acabarão por ficar apenas os descendentes’ ..disparates!
      A globalização enriqueceu muita gente ao explorar quem com isso ficou contentíssimo.
      Os europeus compram tudo mais barato e vivem melhor, mas como aumentou a desigualdade, porque há uns tantos que ficaram muito ‘mais bem de vida’, isso fá-los muito infelizes.
      Donde se conclui que o problema não é a globalização, é aquela coisa da desigualdade que mói a felicidade dos que se sentem coitadinhos olhando para cima.

      • Rui Naldinho says:

        Sim, e alguns luso descendentes dispostos a servirem de Miguel de Vasconcelos.
        Tu estás na calha. És o personagem perfeito. Mas nunca te esqueças de evitares as varandas, ó Menos!

  2. JgMenos says:

    12,6% de que serão nazis 0,6% já dá uma suástica sobre a Alemanha?
    Cresceu uns 8,6% o que quase corresponde ao total do voto na comunada e isso dá boa nota do sucesso desta enfastiante treta do politicamente correcto e os seus estúpidos temas fracturantes.

    • ZE LOPES says:

      Já vi que a V. Exa. as suásticas não preocupam. O pior são os esquerdalhos. Nuvens, resmas, palettes de esquerdalhos pairam sobre este país! Um horror!

  3. Paulo Marques says:

    Calma, calma, é agora que é a reforma do euro, de certeza, e tudo fica resolvido na europa.

  4. Carlos Alberto Nogueira Ferreira says:

    Quando acordarem estão comidos !!

  5. O que se está a assistir é a muito natural reacção da Europa ( que nunca foi comunista) à “Comunização” que se estava a assistir.
    E ainda será pior se os partidos ditos do “centro” não pararem de virar à esquerda.
    Estes partidos de direita não são partidos Nazis. O uso deste estratagema de tudo o que não é Comunismo/Socialismo tem que ser Nazismo não cola. Essa estratégia dos comunas já foi ultrapassada, as pessoas já perceberam que isso não passa de uma mentira política para “sujar” partidos de direita, como se não houvesse democracia com partidos de direita (o que se vê frequentemente é a ausência de democracia com partidos comunistas). Uma vez isto percebido ( após Alemanha, Espanha , EUA ), as suas votações irão aumentar, por isso qual será agora a estratégia que os comunas vão usar, a partir de agora ?

    Rui Silva

    • ZE LOPES says:

      Aliás, é também um exagero considerar o Partido Nacional-Socialista Alemão como um partido Nazi. Até o Hitler foi um tipo muito mal compreendido. O que ele queria era simplesmente evitar a “Comunização” da Europa (tal como o Pinochet, por exemplo, que só queria evitar era uma nova Cuba, por isso acabou com essas pessegadas da imprensa livre e eleições). Se mandou uns milhares para campos de concentração, foi precisamente para lhes arranjar um espaço em que se podiam expressar livremente entre si, sem contaminar o resto da sociedade. Os que adoeciam (e os judeus, que por o serem, são doentes crónicos), iam para umas camarazitas de gás medicinal de onde saíam ou curados, ou defuntos, já que isso de Serviço de Saúde é uma invenção da comunada que só dá despesas e só serve para manter vivos tipos improdutivos, prejudicando o desenvolvimento da sociedade.

    • Fernando Manuel Rodrigues says:

      “Uma vez isto percebido ( após Alemanha, Espanha , EUA ), as suas votações irão aumentar, por isso qual será agora a estratégia que os comunas vão usar, a partir de agora?”

      Não falo de “comunas”, porque a “esquerda caviar” não tem nada de “comuna” (nem de esquerda). Já há muito que não têm estratégia. A estratégia deles é colar-se a grupelhos como o ILGA e semelhantes – desde que dê para “aparecer”. É mais ou menos uma estratégia à “Hollywood”.

      • Sim, as suas bandeiras vão sendo substituídas, primeiro era a luta de classes , mas as classes ao atingirem o bem estar permitido pelo capitalismo, mandaram-nos ás malvas. Depois foi a auto-determinação dos povos, depois foi o racismo, depois o feminismo, depois as questões de género, etc, etc, e agora é o Aquecimento Global, perdão Alterações Climáticas.
        O Marxismo há muito que deixou de ser uma ideologia para se tornar numa filosofia.

        Rui Silva

        • Rui Naldinho says:

          “Depois foi a auto-determinação dos povos, depois foi o racismo, depois o feminismo, depois as questões de género, etc, etc, e agora é o Aquecimento Global, perdão Alterações Climáticas.”

          Pois , ó “SIlva”, eles andam sempre a mudar o paradigma das suas lutas políticas. Tu e a tua tropa andam há cem anos a descobrir estalinistas em cada esquina.
          Mal por mal, reconhece ao menos que eles sempre vão fazendo um restyling do discurso, adaptado às circunstâncias do tempo e da História.
          Contrariamente, tu ainda andas a contar os mortos do Estalinismo.
          Já chegaste aos 101.000.000?
          Quando chegares, avisa.

  6. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Portanto um partido liderado pir uma mulher, lésbica, que veio da extrema esquerda é um partido nazi. LOL

    Façam um exame de consciência, e comecem a preocupar-se com os assuntos que verdadeiramente importam e contribuem para a prosperidade dos países e a felicidade de todos, em vez dos livrinhos de capas azuis ou cor-de-rosa ou a cor dos lençóis da secretária de estado.

    É que a direita dita extrema está a empunhar as bandeiras que tradicionalmente eram da esquerda, como a da desigualdade (a verdadeira, aquela que distingue se há pão para pôr na mesa), enquanto esta anda, toda ufana, a ocupar-se de miríficas “minorias”, e a discutir a semântica das palavras, para decidir quais são as “permitidas” e quais devem ser “proibidas”.

    • 👍

      • ZE LOPES says:

        Fala-se em lésbicas de extrema-direita e V. Exa. fica logo ultra-excitado!

        • Fernando Manuel Rodrigues says:

          O Sr Ze Lopes “arrotou” (ou bolsou) mais um dos seus comentários “inteligentes”.

          E eu que pensava que o Aventar era frequentado por pessoas que pensavam. Parece que me enganei.

          • ZE LOPES says:

            Não foi a si que respondi!
            Até porque V. Exa. não frequenta, pois não?

          • Caro Fernando Manuel Rodrigues,
            quer o meu conselho: não alimente atrasados mentais especialmente os comunas.

            cps

            Rui Silva

          • ZE LOPES says:

            Já viu? É só ler abaixo o comentário do inteligente Rui! É um grande apoio para si!

          • ZE LOPES says:

            Onde se lê “abaixo” deve ler-se “acima”

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