Crónicas do Rochedo XXV – E é isto que o PSD tem para apresentar?


rio e santana

Depois do resultado do PSD no Porto e em Lisboa, Pedro Passos Coelho apresentou a demissão e foram marcadas eleições directas para escolher um novo líder. Na lógica própria destas coisas, Rui Rio apresentou-se como candidato. Cumpre a lógica da coisa. Foram vários anos em que uma parte do PSD espreitou através do nevoeiro a ver se vinha Rio, qual D. Sebastião, para resgatar a virtude e os bons costumes. Finalmente, o homem enfrenta os seus medos e avança.

Perante esta candidatura, seria normal que a outra parte do PSD fosse a jogo com um candidato. Ou mais do que um. Seria lógico o avançar de Montenegro cobrindo a ala passista. Seria lógico o avançar de Rangel, cobrindo a parte mais “centro-direita/direita” do PSD, assim como a elite “intelectual”. Seria lógico o avanço de Marco António Costa como expoente máximo do aparelho (ler: distritais, principais concelhias e os grandes caciques locais). Seria lógico avançar alguém diferente no papel de renovação do partido (e aqui renovação não significa, necessariamente e apenas, uma questão de idade/geração, mas ideias e projecto). Tudo isto seria lógico. Não fosse o PSD um partido onde, muitas vezes, a lógica é uma batata. Tal como o seu irmão gémeo, o PS.

O que contraria toda a lógica é a candidatura de Pedro Santana Lopes. Porquê? Porque, querer colocá-lo no papel de “o candidato anti-Rio”, é diminuir Santana Lopes e tudo o que ele representou para o PSD. Se olharmos para o passado do PSD e de PSL vemos que este foi, muitas vezes, quase sempre, a voz dissonante contra o sistema interno do partido. Mais, Pedro Santana Lopes já foi tudo no PSD. Foi o rosto da oposição, foi o poder, foi autarca e até foi Primeiro-ministro. E a seguir foi copiosamente derrotado em eleições legislativas (foi assim que o PS teve a sua primeira e, até hoje, única maioria absoluta e logo com José Sócrates). Quem o derrotou não foi Sócrates nem Sampaio, foi o voto democrático do Povo português. Até dou de barato que foi traído por Sampaio. Até dou de barato que foi uma injustiça. Até dou de barato que foi um cabala urdida na Presidência com o suporte do PS e a conivência de um certo PSD. Dou tudo isso de barato mas nada de confusões: quem derrotou PSL e o PSD naquelas eleições foi o voto livre e universal dos portugueses. E escrevo isto confessando, sem qualquer problema, que PSL sempre me fascinou com os seus discursos arrebatadores nos congressos do PSD, na sua visão para o país que mostrava nas suas intervenções públicas e nos seus escritos. Ainda hoje considero que o grande erro de Pedro Santana Lopes foi ter aceite o presente envenenado de Durão Barroso. Nunca devia ter aceite ser Primeiro-ministro sem ir a votos. Nunca. E esse erro foi, politicamente, um tiro mortal no meio dos olhos. Agravado por erros patéticos enquanto PM a quem não servia o fato que lhe foi vestido por imposição, por um lado e secreta vaidade, por outro. Tudo isto somado basta para explicar que PSL não podia nem devia ser candidato a presidente do PSD. E não, não é um acto de coragem, como muitos dizem. É um acto de pura estupidez. E tanto assim é que basta ver quem a ele e aos seus se juntou para mais este haraquiri político – exactamente aqueles contra quem sempre lutou, o lado mais negro do aparelho. Os mesmos que, se ele ganhar (o mais provável), lhe vão fazer a folha rapidamente para depois da provável derrota nas legislativas tomarem de assalto o PSD.

Mal vai o PSD, muito mal, quando tem de escolher entre Rio e Santana. Já não é só António Costa a rir. Assunção Cristas está que nem pode de tanto rir. Ainda nem acredita. É ela e eu…

Comments

  1. ZE LOPES says:

    O que muitos não sabem é que, antes de avançar para a liderança, Rio consultou uma vidente que, espreitando a sua bola de cristal laranja, e depois de observar umas borras de sardinha em conserva disse: “PSD? Vejo um futuro Montenegro, onde haverá choro e Rangel de dentes! Deves avançar a Passos largos! E que te valha Sant’Ana!”.

    E assim foi. A conselho da vidente, em Aveiro, porque é a cidade que tem um Rio no meio e poucas Relvas.

  2. Fernando says:

    “E é isto que o PSD tem para apresentar?”

    É!

    Ainda há quem não percebeu que o PSD faliu, e que os candidatos a líder de partido Rui Rio e Santana Lopes são manifestações dessa mesma falência.

  3. omaudafita says:

    Podem escolher um menino guerreiro ou um guerreiro menino…

  4. Rui Naldinho says:

    Concordo na generalidade com o texto do Fernando M. de Sá.
    Eu só acrescentaria duas coisas, ao que ele escreveu.
    Quem derrotou Santana Lopes em 2005 foi o eleitorado Português, de facto, mas com especial incidência o eleitorado tradicional do PSD, que se absteve em grande número, nas urnas. Nesse dia, o velho PSD que ainda restava de Sá Carneiro, mandou Santana ás malvas!
    A Norte do Tejo e no meio rural. E ele sabe isso.
    Por outro lado, desengane-se quem pensar que o PSD faliu. Enquanto os interesses económicos se sobrepuserem aos desígnios da politica, o PSD tem a sua máquina montada para o que der e vier, em cada administração financeira, nas PSI20, num jornal, revista ou canal de televisão. Os políticos morrem. Os partidos engordam e mingam. Mas o dinheiro não morre. Logo, os partidos que gravitam à volta do dinheiro, CDS, PSD e PS, não há raticida que os elimine.
    E se eles se fingirem de mortos, não acreditem!

    • Fernando says:

      O PSD faliu porque não está a renovar o seu eleitorado.
      E isto não vale apenas para o PSD.
      Se a política actual não deixa de ser o que é só vão conseguir que as pessoas vão votar com uma arma apontada à cabeça…

  5. Ferpin says:

    Há políticos que independentemente das suas capacidades conseguem criar empatia com as pessoas. Por qualquer razão o PSL é um deles.
    Concordo que ter aceite aquele PSD com aqueles deputados escolhidos pelo Barroso e ir ao governo sem eleições foi um erro.
    Como os barões e afins temiam a pouca dura recusaram ir só governo. Ficou sujeito a amigos chegados sem competência e idiotas que ambicionavam escreve no cv ex-ministro, do qual o expoente máximo será aquele paineleiro benfiquista.
    Talvez a história pudesse ter sido melhor pata PSL se tivesse ido a eleições.

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